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  • A história de uma professora aposentada chamada Maria do Carmo Rivero
A história de uma professora aposentada chamada Maria do Carmo Rivero
  • Fonte: Redação ORondoniense - Aurimar Lima
  • Publicada em 24/02/2018 às 11:42
Eu cheguei em Porto Velho em 1958 e fui estudar na Escola Normal do Guaporé, hoje instituto de educação ‘Carmela Dutra”, onde cursei o 1° e 2° graus, concluindo o curso chamado pedagógico

Dona Maria do Carmo de Medeiros Rivero tem 76 anos, amazonense, nascida em Quixadá. Começou a trabalhar no Estado em 1958 e se aposentou em 1991. Filha do Sr. Manoel Calixto de Medeiros e da senhora Francisca Celina de Medeiros. Viúva, era casada com Mac-Donald Rivero, ex tesoureiro do Território Federal de Rondônia, que passou para o oriente eterno em 1993. Dona maria e sua família têm muita história nas terras de Rondon.

Maria mora num bairro antigo de Porto Velho, do qual faz parte da história, o bairro São João Bosco, que antes se chamava Jardim América. Maria conta que o nome América não tem nada a ver com os Estados Unidos. Esse nome foi dado pelo tio do saudosista Anísio Gorayeb, chamado Emil Gorayeb, em homenagem à avó, uma americana casada com Constantino Gorayeb e que se chamava América Sadeck Gorayeb.

O primeiro loteamento de Porto Velho, chamado Jardim América  inlcuía terras do Sr. Mac Rivero e foi batizado com esse nome pela operadora do loteamento, a empresa Moreira Mendes Administradora de Imóveis. O lugar onde hoje mora Dona Maria era uma fazenda, denominada Fazenda Belo Horizonte, onde viveu e criou os filhos. Nos arquivos da família ainda consta a planta da casa, que foi projetada pelo engenheiro civil José Otino de Freitas, responsável por vários prédios hoje considerados patrimônio histórico da cidade.

Orondoniense - Como foi sua formação professora?

Maria do Carmo - Eu cheguei em Porto Velho em 1958 e fui estudar na Escola Normal do Guaporé, hoje instituto de educação ‘Carmela Dutra”, onde cursei o 1° e 2° graus, concluindo o curso chamado pedagógico, em 1963. Depois eu cursei em 1975 o curso técnico e secretariado (2º grau) no Colégio Oficial Estudo e Trabalho e em 1987 concluí na Universidade Federal de Rondônia  - UNIR, o curso de supervisão escolar.

Orondoniense - Depois de formada a senhora assumiu atividades em sala de aula?

Maria do Carmo - Como professora assumi atividades em algumas escolas: Jardim da Infancia Central, Grupo escolar Murilo Braga, Barão de Solimões e Getúlio Vargas, mas eu gostei mais de trabalhar como gestora. E ainda trabalhei no Mobral – Movimento Brasileiro de Alfabetização, como coordenadora adjunta do Professor Abnael Machado de Lima. Também fui diretora de vários colégios como Murilo Braga, Carmela Dutra, Padre Moretti e Barão de Solimões.

Orondoniense - Depois de aposentada…

Maria do Carmo - Após aposentada fui diretora do Instituto Municipal de Educação, Engenheiro Franciso Erse, chamado de Escola Padrão, de 1992 a 1997, na administração do prefeito Francisco Chiquilito Erse.

Orondoniense - Maria do Carmo descreveu para nós, em prosa, sua origem:

“Sou filha de paraibano e amazonense. Meus pais tiveram 13 filhos. Sou a última dos 13. Todos nasceram no interior do Acre ou Amazonas. Eu nasci no dia 15 de maio de 1941, no seringal de Quixadá, município de Eirunepé, Estado do Amazonas. Até 11 anos vivi no seringal e acompanhava meu pai para o serviço de plantação. Ainda lembro muito bem, meu pai cavava buraco na terra e eu jogava a semente, mais precisamente no verão, quando as praias apareciam. Plantávamos feijão, milho, jerimun e melancia. Ainda acompanhava meu pai para buscar tracajá no curral. Eu adorava aquela vida! No curral, às vezes tinha de três tracajás, até. Um dia meu pai encontrou um jacaré-tinga. Quase morri de medo, mas o meu pai matou o bicho, depois de muita luta. Minha mãe tinha viajado acompanhando meu irmão ao Rio de Janeiro para um longo tratamento. Ele foi acometido por um reumatismo e ficou por muito tempo paralítico. Mas minha mãe voltou após 2 anos. Foi uma grande emoção ver minha mãe chegando  em uma canoa com uma sombrinha na mão e uma pessoa remando. A minha alegria foi demais! Depois de alguns dias ela me disse: Filha, você vai para Rio Branco, vai estudar. E precisa morar com seu irmão Calixto, o José como era chamado. Imediatamente eu falei: Eu não quero ir! Ela, então, com a autoridade de mãe, falou: Você vai sim! Foi então a última palavra e tive que aceitar.

O seringal ficava no Rio Tarauacá, no estado do Acre, porém lá já era Amazonas. Era uma vila com 7 casas, tinha muita fartura: lago, peixes, caças e frutas. Meus irmãos faziam farinha, açúcar, gramixo, hoje o açúcar mascavo. Tudo isso para vender por encomenda para os comerciantes de barcos. Meu pai tinha muitos amigos.Cada Barco grande que ancorava no porto era um banquete. O cozinheiro era o Carcará, um velho branco muito feio. Meu pai era político e um dia um candidato a prefeito em Eirunepé falou para ele: “Calixto, eu venho fazer a festa da Vitória aqui.” E aconteceu. O senhor Armando Mendes, pai do ex-governador de Manaus, Amazonino Mendes, foi eleito prefeito e foi fazer a festa no seringal de Quixadá. Foram 3 dias de festa! Eu era pequena mas lembro de tudo. As damas, era só descer algumas praias e a casa já estava cheia.

O tempo foi passando e o dia da viagem foi chegando. Eu chorava demais porque não queria ir.

O dia chegou. Fomos para Tarauacá e pegamos o avião da FAB. Com a passagem arranjada pelo Carrapicho, um senhor que trabalhava na FAB, um cara muito bom.

Ao chegar em rio Branco, meu irmão José, já casado com belinha, estava grávida do 1° filho. Minha mãe ficou um mês comigo. Daí voltou para Tarauacá e foi para o seringal Quexidá. Eu morria de saudade, só pensava nos peixes, nas lavouras e no curral do tracajá.

Passaram-se 3 anos e eu já estava com 14 anos. Daí, José que trabalhava no basa, Banco do amazonas, foi transferido para Tarauacá , como gerente.  Aí eu fiquei feliz, porque eu sempre estava indo ao seringal, em qualquer feriado. Após algum tempo, Calixto foi transferido para gerencia do Basa de Porto Velho. E viemos para cá em 1958. Fui estudar no Carmela Dutra na 6ª série do Normal Regional. Daí terminei o 1° grau e quando eu estava no 2° ano do magistério, José foi transferido novamente, para Manaus. Como minha família já estava radicada em Porto Velho, voltei a morar com meus familiares.

Ao terminar o curso de magistério em 1963, José veio para a minha formatura. Foi o meu Paraninfo.

Em 1955, casei com o senhor Mac-Donald Rivero e com ele tive 3 filhos: Sérgio, João Carlos e Mac. Educamos e graças a Deus são bons filhos. Hoje estão formados e trabalhando.

Atualmente, sou uma professora aposentada e viúva. Viver sozinha não é fácil, meu marido foi um marido e pai excelente!

Hoje, a igreja me fortalece”. 

FOTO: ARQUIVO DE FAMILIA 

  • Atualizada em 24/02/2018 às 20:26:55