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  • A história política por trás da estátua que homenageia o Governador Jorge Teixeira
A história política por trás da estátua que homenageia o Governador Jorge Teixeira
  • Fonte: Redação ORondoniense - Marcos Gomes
  • Publicada em 24/02/2018 às 12:31
A história política e de ruptura que está por trás de uma das homenagens feita ao lendário governador teixeirão, contada pelo autor da façanha: José Guedes

Num dia aprazível em Porto Velho, mais precisamente no dia 02 outubro de 1993, Porto Velho comemorava 79 anos de sua criação como município. Em pontos distintos, bandeiras do Estado de Rondônia e do Brasil tremulavam com insistência do vento em dar vazão aquele dia iluminado. No encontro entre as Avenidas Jorge Teixeira e Sete Setembro, um dos pontos de maior acesso de veículos, autoridades, convidados e personalidades da política e da sociedade rondoniense prestavam homenagem a um de seu grandes heróis, Coronel Jorge Teixeira de Oliveira, com a inauguração de uma estátua de 1,80m, toda feita em bronze, no local onde funcionava uma pracinha jeitosa, ponto de encontro de família e enamorados.

Naquele lugar especificamente, sem ter um adorno de contexto histórico, mas por ser uma via de grande acesso o monumento criou raízes. E quem entregou tão belo serviço? Qual administrador público municipal esteve à frente dessa homenagem? O então prefeito José Guedes, que estava no PSDB na época e nos anos 80, quando surgiu politicamente em Porto Velho, era um dos alicerces do PMDB, partido opositor ao do ex-governador Jorge Teixeira, que estava no antigo PDS. José Guedes chegou a ser eleito “prefeito-tampão” no ano de 1985, onde permaneceu em um mandato de menos de um ano até as eleições para prefeito de capitais, naquele mesmo ano.

E no início da década de 90 já no exercício democrático de prefeito, Guedes foi quem levou a figura do mito à estátua referendada como um objeto sagrado de cunho histórico, mas cuja história em seu entorno envolve mais do que um enfeite póstumo à elegia dos feitos do coronel que se tornou o primeiro governador do Estado de Rondônia, mas histórias políticas, casos de poder, ascenção e desmitificação histórica.

Como uma estátua de um mito carrega outras histórias, não oficiais, mas testemunhadas e vividas por um homem político, administrador nato e que do pouco que conta se transformar no muito que precisamos ler e ouvir. José Guedes narra em uma entrevista como foi a história da estátua que homenageou Jorge Teixeira com os pormenores que precisávamos saber. Confira:

Orondoniense – Qual o motivo que levou o senhor, como prefeito na época, a fazer essa homenagem ao ex-Governador Jorge Teixeira?

JOSÉ GUEDES - O motivo da homenagem que foi feita ao ex-Governador Jorge Teixeira é o exemplo de homem público que ele foi enquanto vivo. Na primeira metade dos anos 80 e enquanto governador ele era o nosso adversário político, ele era um membro do PDS, nós éramos do PMDB. Então nós fizemos uma campanha muito forte contra ele, criticando o governo dele. E por ocasião da reeleição eu tive assim um sentimento muito agradável em relação a ele porque quando foi me cumprimentar, eu eleito então vereador em 1982, ele fez tipo um gesto de se levantar e me parabenizar. Porque pra mim ser vereador eu tive primeiro um embate grande para mostrar que tinha sido eleito. Então ele acompanhou certamente toda aquela luta minha para ser um dos eleitos porque o resultado inicial era o de primeiro suplente e acabei mostrando que a minha mulher tinha votado em mim, portanto eu estava eleito e só faltavam três votos. Então ele fez esse gesto e eu fiquei pessoalmente com esse sentimento bom em relação ao Jorge Teixeira.

Orondoniense  - Em que contexto histórico político e partidário então havia no Estado e no Brasil nesse período pré homenagem ainda no início dos anos 80?

JOSÉ GUEDES – Bom, aí com o passar do tempo veio a eleição indireta em que o PDS tinha um candidato que era o Paulo Maluf e o PMDB tinha outro candidato, que era o Tancredo Neves. O Tancredo ganhou e em razão dessa vitória eu acabei sendo “prefeito tampão” de Porto Velho por menos de um ano, e o Teixeira saiu do Governo, e o Angelo Angelim ficou no lugar dele como governador. Na eleição para governador, na eleição seguinte, o filho dele, Rui Teixeira de Oliveira, foi para o PMDB e também a vice dele, a doutora Janilene Melo, e também Álvaro Costa, que era secretário de educação do governo dele. Então essas pessoas mais ligadas ao Jorge Teixeira foram para o PMDB que é algo aqui que a história não registra porque há um colorido assim partidário nas histórias que estão escritas, em boa parte. Então veja que houve uma fissura entre os que continuaram no partido, que passou a ser frente liberal, e o pensamento de Jorge Teixeira e que não estava em sintonia com  aquelas pessoas. E o que acabou acontecendo?  Quem homenageou Jorge Teixeira foi um prefeito da oposição, não foi o Chiquilito (Erse) – o Chiquilito não fez nenhuma homenagem a ele, fez só ao Olavo (Pires). E eu prestei a homenagem, já como prefeito eleito, no início dos anos 90, e não foi só eu, também o Sérgio Carvalho, quando deputado federal, do PSDB também, que prestou a ele uma homenagem dando o nome ao aeroporto internacional Jorge Teixeira. E tudo isso porque ele se tornou aqui uma lenda, respeitado por todos. Respeitado por nós, que éramos oposição à ele e respeitado por aqueles que eram seus aliados mesmo, que tentam não levar para as escolas mostrando que houve esse problema político aqui. Então ele era mais homenageado pelos que eram de oposição do que pelos aliados. E essa homenagem não ficou só nisso não, nós também promovemos o encontro dos amigos de Jorge Teixeira com o governador, que na época era o Valdir Raupp, para que essa casa que era onde governador morasse fosse destinado ao museu do Jorge Teixeira, como efetivamente é. Então essa instalação se deu ainda numa administração que era PMDB. A lei que definiu essa questão foi já com o José Bianco, mas o projeto e a ocupação foi feito ainda em um governo que era do PMDB.

Orondoniense – E por que uma estátua de tamanho natural e o local ser justamente aquele?

JOSÈ GUEDES - Sobre a estátua, a intenção era em fazer, de primeiro pedimos a opinião da esposa dele, como é que faria. Se faria um busto ou se faria o corpor inteiro. Ela achou melhor fazer o corpo inteiro no tamanho dele, no tamanho correto dele, com todas as caracteristicas dele, o mais parecido possível. Então ela acompanhou todo o processo. Ela foi acompanhando e dizendo o que era pra fazer e quem intermediava isso era um ex-vereador, João Alfredo, que na época era do PMDB, mas vinha do PDS, e hoje ele está no PSDB – onde é ex-secretário regional do partido. Na época ele acompanhou esse processo todo e ele sabia dessa nossa empatia com o Jorge Teixeira e sugeriu que fizessémos uma homenagem a ele, e onde é a homenagem? Na via que já tinha o nome dele. Era o local onde as pessoas mais transitam, então o motivo de ser exatamente ali: Avenida Sete de Setembro com a Jorge Teixeira. Ali na época tinha tipo uma pracinha, tinham os bancos, tinham as luminárias, muitas pessoas iam namorar por lá. O movimento foi crescendo de forma tal que descaracterizou totalmente o local. E aí agora vai haver uma mudança para que seja a estátua levada para o Espaço Alternativo. E olha a ironia do destino, aquela obra do Espaço Alternativo é do Jerônimo Santana, que era uma obra de ligação para o aeroporto, via Avenida que dá nome ao Jorge Teixeira. Porque pela Avenida Lauro Sodré, a Infraero havia dito que a iluminação confundia com a pista do aeroporto, e aí abriu a  via por lá, pelo outro lado.  Ficou melhor e fez a Avenida Jorge Teixeira nessa parte que compreende o Espaço Alternativo até o Aeroporto.  Então hoje os dois estão unidos, para ver como são as coisas.

Orondoniense – O senhor enxerga a importância dessas histórias políticas em torno do Jorge Teixeira que são relatadas por testemunhas de uma época, como o rompimento dele com membros do seu próprio partido, porém se perdem e não chegam em livros de histórias ou textos específicos sobre esse período? O senhor acha que deriva do que essas ocultações históricas?

JOSE GUEDES - Isso você não vê nos livros de história. Essa espécie de rompimento do Teixeirão com o Chiquilito, com o (Oswaldo) Piana, isso não é colocado nos livros. Mas houve esse rompimento porque o Chiquilito estava na frente liberal, ele não estava mais apoiando o Jorge Teixeira, houve uma ruptura, que ficou depois mais caracterizada pela questão dessas homenagens também. Porque ficaram lá guardadas e aí as pessoas que vão escrever os livros, os novos não sabem disso, já os mais velhos tem ainda os resquícios da campanha que era dos cutubas contra os peles-curtas. Então preferem omitir. Se você falar com uma pessoa e ela falar que foi assim, assim e assim, ela vai dizer: “foi assim mesmo, mas eu não escrevo”. E ainda é uma coisa forte dessa divisão política e faz parte da cultura antiga, onde os jovens não se lembram disso, mas quem escreve a história sabe. Ainda não chegou uma pessoa para escrever a história como é. Talvez fique até difícil escrever, pois com isso eu desconfio que tem muita coisa da nossa história do Brasil, do mundo, daqui mesmo, que sempre tem um colorido ideológico.

Orondoniense – Sobre a estátua ainda, no dia da inauguração foi um fato de homenagear a figura do Teixeirão, porém escolheram um dia específico para isso, o aniversário de Porto Velho. Foi oportuna a data para esse momento?

JOSÉ GUEDES - Na inauguração da estátua, foi um ato que contou com uma festividade, com a presença de autoridades e foi uma homenagem à figura do Jorge Teixeira e não uma referência a data específica escolhida para tal evento – no caso o aniversário de 79 anos da cidade de Porto Velho. Tanto que eu ainda tinha a intenção de visitar ele, pois sabia que o Teixeira estava doente, porém antes de eu conseguir isso ele faleceu. E quando ele faleceu aí depois ficamos sabendo que ele estava com dificuldades financeiras, e isso aumentou mais ainda a empatia que a gente tinha em relação a ele, porque na sua administração parece que houve alguns desacertos, mas não era ele. Eram outras pessoas.

Orondoniense – A figura do Jorge Teixeira foi importante para a criação do Estado de Rondônia e teve uma representatividade bem significativa para transformá-lo em uma figura histórica. O senhor concorda?

JOSÉ GUEDES – Bem o coronel Jorge Teixeira surgiu no momento certo nessa transformação de território para Estado, mas quem mais lutou, a pessoa que lutava pela criação do Estado era o Jerônimo Santana, ele era o deputado que lutou muito para que isso acontecesse, só que a criação do Estado de Rondônia aconteceu com o governador nomeado, então essa foi a divergência, aí o MDB, na época, não aceitava a criação do Estado sem eleição. Tinha que criar o Estado, mas fazer uma eleição para definir o governador e não foi assim que foi feito, no entanto criou-se uma fissura porque um queria a eleição e o outro não. Mas nesse sentido não foi propriamente o Teixeirão, já havia um trabalho feito, um projeto andando nesse sentido e o governo na época, era um governo militar, é que tomou a iniciativa de fazer isso e colocar o Teixeirão para continuar na obra que foi estruturada pelo (governador anterior) Humberto Guedes. Guedes é um governador que é pouco homenageado, mas que as pessoas olham no que foi feito aqui no Estado, a infraestrutura do Estado, e são obrigados a reconhecer que foi ele que deixou tudo pronto para que isso acontecesse, para que Jorge Teixeira chegasse e efetuasse essa continuidade.

 

  • Atualizada em 24/02/2018 às 12:31:40