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Alípio Pinheiro – O respeito e o resgate da real história de Rondônia
Homem da terra, rondoniense e um profundo conhecedor da história da sua gente e de Rondônia.

 

Alípio Pinheiro da Silva Filho é professor, formado em história pela Universidade Federal de Rondônia. Ele entrou na Federal em 1994, mas, como ele mesmo conta, já tem uma bagagem anterior ligado a educação e o seu movimento estudantil. Alípio é sobrinho do lendário sambista e grande figura pioneira da cultura portovelhense, Bainha. Com as histórias do seu meio familiar, onde a cultura, as tradições e os ‘causos’ da terra acabaram fornececendo conhecimento ao menino Alípio, acabou o inspirando a entrar no mundo acadêmico e se dedicar a fuçar a história do seu povo e da sua terra, que faz com muito dedicação, até mesmo na seleção das obras referenciais que o influenciariam nas aulas que hoje aplica. Ele é professor e também trabalha como um estudioso da exobiologia, um campo que antes nem imaginava navegar, mas é um dos meios que ele utiliza em pesquisa e prática.

E dentro desse conhecimento, o professor Alípio lembra um fato histórico comemorado no dia 13 de setembro e que poucos lembram, mas é uma data muito importante.

Professor Alípio Pinheito, homem da terra, rondoniense e um profundo conhecedor da história da sua gente e de Rondônia. Venha conhecer um pouco mais a respeito desse profissional que vai além das salas de aulas.

O RONDONIENSE – Quem é Alípio Pinheiro e o que o levou a se interessar por estudar a história, com ênfase na história de Rondônia?

 ALÍPIO PINHEIRO – Bom, o Alípio Pinheiro da Silva Filho é professor de formação. Dito isso eu sou professor de história formado pela Universidade Federal de Rondônia. Eu entrei na Federal em 1994, mas eu tenho uma história anterior muito ligado a educação porque eu fiz parte do movimento estudantil de Rondônia e estudei na escola Nossa Senhora das Graças, que é próximo da minha casa, e depois fui para o colégio Barão do Rio Branco onde acabei me envolvendo com o movimento estudantil e isso fez com que eu escolhesse o curso de história, porque o curso de história naquele momento, década de 90, era o mais próximo pra quem tinha uma ideia de tentar contribuir para avançar a cidade, o Estado que naquele momento estava engatinhando. E eu sempre fui ligado a história desde a presença do meu pai, o Alípio, que era do 5º BEC (Batalhão de Engenharia e Construção) e que fazia as viagens para São Paulo à Porto Velho por essa atual BR que era totalmente sem asfalto. E a minha família é ligada ao lado cultural porque ela é justamente dali do Km 1, onde hoje é a Avenida Sete de Setembro com a Avenida Nações Unidas, onde é o prédio da Escola Murilo Braga, que era a casa da dona Marieta, que colocava e sustentava a sua família com o Tacacá ali na Joaquim Nabuco com a Sete de Setembro. E a vida boêmia também era ali e dessa vida cultural e boêmia nasceu também o meu tio, que é o Bainha (Valdemir Pinheiro da Silva) que tá vivo e completa ano que vem 80 anos – peço a liberdade de para dizer que a escola de samba Asfaltão, que também é dirigida pela família, também vai estar homenageando ele.

O RONDONIENSE – Essa carga histórica com a bagagem cultural que você vinha adquirindo ao longo desses anos com a família foi importante…

ALÍPIO PINHEIRO – Sim e então esse meio histórico e cultural acabou se misturando na minha cabeça. Eu era um menino comum e que de repente só escutava isso na minha casa, não tinha televisão, não tinha eletricidade e era violão, música e esses “causos” que eles contavam. Então eu nem sabia, mas já ia fazer história. Terminei história na UNIR, passei no concurso público para professor no Estado, estou como professor de história, sou historiador também com uma pós graduação e também trabalho com ciências sociais porque sou muito ligado a essas questão política, então eu gosto de estar trabalhando esses assuntos até mesmo para poder escrever e fazer as palestras na ideia de traçar sempre dois pontos de vistas para que aquele que está assistindo a palestra posso sair de lá entendendo o que que hoje tanto se fala; esquerda ou direita, capitalismo e socialismo. Sempre sem defender um lado apenas, apesar de que eu tenho a minha opinião ideológica e que todo mundo é obrigado a ter. Sempre comento com as pessoas e os meus alunos que para a gente poder falar de alguma coisa você precisa ter conceito. Conceito é você conhecer. Se você é Flamengo e quer falar mal do Vasco, tem que conhecer o Vasco. Se você Vasco e quer falar mal do Flamengo, tem que conhecer o Flamengo. Então isso é conhecimento. Nossas paixões, são nossas paixões, nosso conhecimento é o nosso conhecimento, mas existem “os conhecimentos” e exatamente isso que esse humilde professor se apaixonou, conhecer tudo para falar sobre tudo.

O RONDONIENSE – E que outras áreas além da história você acabou embargando nesse conhecimento?

ALÍPIO PINHEIRO – Hoje eu estou falando sobre exobiologia, com um grande amigo meu de biologia que é  o professor Edson, do “Classe A”, diga-se de passagem um bom professor e que ele não sabia disso. E hoje estou trabalhando biologia forense, porque fui convidado por uma perita para trabalhar pela produção dos mesmos textos. E ela falou: “É isso que eu quero escrever, não quero um texto técnico”. E estou ganhando dinheiro hoje falando sobre biologia forense. Nunca imaginei mexer nisso, ou seja, o ato de escrever, o ato de ler qualquer coisa que interessa faz com que a gente perceba se aquilo é falso ou se aquilo é verdadeiro.

O RONDONIENSE – Falando então sobre “história”, que obras referenciais históricas fizeram parte do seu aprendizado? Quais historiadores ou livros você considera que tem o embasamento autêntico para contar a história de Rondônia?

ALÍPIO PINHEIRO – Esse depoimento que eu vou dar, essa verdade que eu vou falar tem a ver com as pessoas que gostam de escrever e que não tem informação. Por exemplo, eu conheci um cidadão vindo do Rio Grande do Norte, chamado Francisco Matias, funcionário antigo da Assembleia Legislativa. O cara é fera em história de Rondônia. Fera mesmo! E todo mundo faculdade dizia, “não, ele não tem nem a quarta série primária”. E as fontes que nós tínhamos na biblioteca da Unir era o Abnael (Machado) que ele era muito oficial, pois estava mergulhado no governo e ele juntava documentos daqui e outros dali e dizia que aquilo era história porque era “oficial”. Então a história oficial acabou se tornando de fato oficial, tanto é que ele defendia nos livros dele de que a ideia de Porto Velho veio do velho Pimentel e essa teoria já caiu por terra. Aí nós tínhamos depois vindo lá da família do Ary Pinheiro a filha dele, a grande doutora Yêdda Borzacov, que trabalha a mesma ideia da “história oficial”. A gente tem um museu de Porto Velho, se você for ao museu você procura as obras, mas elas não estão lá, estão na casa dela. Aí fica difícil, como alguém envolvido com a história de repente pega para guardar instrumentos que poderiam estar a disposição do público? Eu sei que está bem guardado na casa dela, mas ela não tem em mãos um documento que comprove que aquilo seja dela. Eu acho que talvez o governador Jorge Teixeira tenha dado de boca para ela, e ela faz um bom serviço, querendo ou não ela preserva, pior se estivesse no lixo, como os militares fizeram que encaminharam caçambas para São Paulo, para a siderúrgica de lá de tudo que era da Estrada de Ferro para poder vender e cada general que passava pelo 5º BEC levava um pedaço da prataria para poder colocar nas paredes deles como enfeite. Nós tínhamos também pelo outro lado o padre Vitor Hugo, que aí você já tem uma pesquisa de campo. Então nesse momento década de noventa você tem o Vitor Hugo com um grande formador de história oral, que ele captava as informações e se transformou no seu livro, que é a grande obra dele chamada “Desbravadores”, que parou porque ele parou de escrever, mas tem muita coisa ainda que está no quarto dele ou com quem ficou com todo esse acervo dele. Então eu destacaria como coisas para se buscar e para sec crescer o Francisco Matias, que até hoje é uma das minhas fontes. Olha eu sou formado em história, conheço em vários doutores em história, mas ninguém escreve o que o Francisco Matias, que não é historiador, escreve. A pesquisa dele deriva de história oral, de campo. Ele é um grande historiador auto ditada. É aquela pessoa que estudou e foi atrás. Por sorte porque ele trilhou o caminho certo, ele é o cara que conseguiu acertar. O Rondon quando veio para cá para instalar a linha telegráfica ele não trouxe nenhum instrumento, ele media com o olhar. Passados 50 anos depois fizeram a mesma expedição agora com instrumentos e tudo que ele mediu com o olhar, bateu com os instrumentos que o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística trouxeram. Tem pessoas que são brilhantes e tem pessoas que nasceram em berço e é só esticar o braço, daqui o documento assinado pelo Jorge Teixeira, pelo Aluizio Ferreira. Hoje tem que tirar o chapéu para doutores da Universidade Federal de Rondônia, como o professor Dante, o professor Marcos Teixeira que foram a campo também e produziram a grande obra que norteia todo ENEM e todo o conhecimento sobre a história de Rondônia.

O RONDONIENSE – No seu conhecimento setembro marca uma data importante para Rondônia. Não vi quase ninguém comentando, mas tem uma data histórica. Não é isso?

ALÍPIO PINHEIRO – Sim, tem mesmo. Eu posso resumir essa data da seguinte forma: a Madeira Mamoré começa a ser construída e levam a três momentos, e nesse momentos vai a falência. É que a figura de Percival Farqhuar, que nunca veio na região, entra em cena. Ele tinha seringais aqui entre o rio Madeira e o rio Mamoré. O rio Madeira em Porto Velho que era Santo Antônio e lá no Mamoré, o Porto de Espiridião que hoje é Guajará Mirim, então ele tinha interesse nessa borracha e o único jeito de transportar, de ultrapassar as cachoeiras era dinamitando elas ou construir uma estrada de ferro. Construir estrada de ferro era a grande moda na época pela Inglaterra, que emprestava dinheiro para construir, mas não empresta dinheiro para comprar dinamite, para dinamitar o rio. Porque era muito barato comprar dinamite. E você ia receber dinheiro da Inglaterra, ia pegar esse dinheiro e comprar trem do país. Veja só, a Inglaterra ganhando dinheiro. Começa então a vir para a região uma mão de obra masculina que necessitava de trabalho.  A grande seca do Nordeste, de 1872, trouxe para cá todo o interior daquela região. Tudo que foi homem veio para cá. E os grandes plantadores de cana de açúcar cobraram do Governo Federal. “E aí? E a gente?”. A mão de obra de cana de açúcar foi embora. Faliu. O Governo decidiu que: “vocês vão ser ‘coronel de barranco’ lá, vão ser os donos dos seringais e recebam os nordestinos lá. Vocês vão ser os seringalistas e que vão receber os ‘arigós’ – que são aqueles que não sabem ler – para ser trabalhadores de vocês”. O Governo Federal deu essa ajuda aos agricultores. “Faliu a usina de açúcar aqui e agora vai ter uma usina lá que vai produzir o látex”. Então por isso que eles se tornaram os donos dos seringais e a Estrada de Ferro deveria começar a partir daí. Você enfrenta  de  1930 a 1932 a ideia do fim da política do café com leite – Minas Gerais e São Paulo. E o presidente da época, Washington Luiz, em São Paulo,  diz que acabou com isso. No Rio Grande do Sul tem o Getúlio Vargas, que fala que não aceita e quer vir para São Paulo para disputar a eleição. Chama o João Pessoa para vir com ele, que era paraibano, o assassina e aí acaba a política do café com leite. O Getúlio Vargas tenta fazer a revolução de 30 e quem era responsável aqui na região Norte por essa revolução era o Aluízio Ferreira. Então se o Getúlio assume o poder no país quem assume a região Norte é o Aluízio. Mas aí o Getúlio vai preso, o Aluízio também. Quando tudo isso acaba começa a construir a Estrada de Ferro e o Getúlio Vargas nomeia o Aluízio Ferreira como o primeiro brasileiro a ser superintendente da Estrada de Ferro Madeira Mamoré. Essa data é chamada como “Nacionalização da Madeira Mamoré”, pois ela pertencia aos americanos. A Madeira Mamoré vinha em seu território da beira do rio Madeira a rua divisória, e dessa rua até onde hoje  é a Unir, Nova Porto Velho e Rua 13 era Porto Velho. E o que é a Rua Divisória? Nada mais é do que hoje a rua Presidente Dutra. Passava-se uma cerca ali, então até ali a partir do rio só se falava inglês. E lá tinha tudo, fábrica de gelo, energia elétrica, jornal – que vinha dos Estados Unidos, o jornal era todo em inglês. Do lado a partir da Rua Divisória vindo até aqui para o Bairro, até a avenida Nações Unidas, uma região de mato grosso, muita fechada, por isso o bairro “Mato Grosso” existe ali, e o padre ganhou o espaço para construir a igreja de Nossa Senhora das Graças, a cidade começa a se formar. Descendo, acompanhando a linha do trem, rumo a Santo Antônio, você tem um grande areal, por isso o bairro “Areal“ e ninguém queria morar lá, porque a terra não dava para ser construída, porque não se constrói castelo com areia de praia. Então a cidade era isso e o Aluízio Ferreira primeiro superintendente ele chama o Getúlio Vargas aqui para passar duas horas. E ele junta a Associação Comercial de Porto Velho, a Associação Comercial de Guajará Mirim, Getúlio Vargas fica 48 horas aqui e cria o Território Federal do Guaporé e nomeia Aluízio Pinheiro Ferreira para ser o seu primeiro governador do Território Federal. Isso em 05 de setembro. Aí Getúlio manda fazer uma festa para que ele tome posse. E ele fala: “Coloque a posse para o dia sete de setembro”. Em seguida  o Getúlio Vargas vai embora, e o Aluízio aproveita e fala: “Sete de setembro não, vai ser no dia 13 de setembro que é o meu aniversário”. A Semana da Pátria que é comemorada no Brasil de 1º à sete de setembro, aqui naquele momento era do dia 1º até o dia 13, porque era aniversário de Aluízio Pinheiro Ferreira.

O RONDONIENSE – E como era nesse primeiro momento o Território Federal do Guaporé?

ALÍPIO PINHEIRO – Quando o Aluízio toma posse na data de seu aniversário, o que ele vai fazer? Ele vai primeiro receber o território que nasceu e que território é esse? Esse território você tira um pedaço do Pará, tira um pedaço do Mato Grosso, automaticamente existiam municípios aí e você trilha esse espaço territorial que é Rondônia, que dá mais ou menos, cerca de 240 mil km quadrados. E ele traz do Pará, Lábrea e Humaitá. Ele traz do Mato Grosso, Porto de Espiridião e Santo Antônio do Rio Madeira. Santo Antônio do Rio Madeira nesse momento tinha oito mil habitantes, sendo que o Rio de Janeiro, naquele momento, capital do Brasil, tinha cinco mil habitantes. Então aqui tínhamos a cidade mais populosa do Brasil, porque naquele momento não tínhamos aqui em Santo Antônio do Rio Madeira, a maior riqueza que era produzida para o mundo, a borracha. Então o mundo todo veio para cá. O Brasil todo veio para cá. E também aqui vinha os “indesejáveis” que estavam no resto do país. Como esvaziar as prisões? Passa o navio aí, esvazia as cadeias e manda tudo lá para a Amazônia e viver em céu aberto. As revoluções estavam acontecendo em alguns Estados, Júlio de Castilhos no Rio Grande do Sul, comandou lá o exército para derrubar o governador. Foi preso e foi condenado ao exílio aqui na Amazônia. Veja bem, o nome Júlio de CastilhoS, até hoje nós erramos, a prefeitura erra tirando o “s” do sobrenome dele chamando de Júlio de “Castilho”, ou seja, a gente vai acompanhando o erro, a história é essa que você conta uma história e ela erra, se você não prestar a atenção você vai errar com a história. Então por isso que a gente precisa saber onde estão os erros e ficar alertando as pessoas porque a crianças aprendem com os acertos e com os erros dos adultos. Com isso Lábrea é devolvido ao Amazonas. Tiraram um pedaço daqui e outro dali e fizeram esse querido rincão. Santo Antônio do Madeira seria a nossa primeira capital e o Aluízio Ferreira vai então através do Amazonas trazer riquezas para Porto Velho, então Humaitá agora era Porto Velho. E quem nascia a partir daquele momento em Humaitá era portovelhense e que nascia em Porto Velho era portovelhense. Santo Antônio do Rio Madeira deixou de existir e virou Porto Velho, que cresceu e se transformou na capital do território, e Guajará Mirim, que é um nome indígena, porque lá tem uma cachoeira de frente para a Bolívia, que é chamada de “Guajaramirim” que significa “cachoeira pequena” e daí vem o nome. E o que liga um rio ao outro para transportar essa riqueza que é a borracha é o rio Madeira, que se tornava intravegável até Guajará Mirim e você, paralelo ao rio, constrói a Estrada de Ferro que vai ligar o rio Madeira ao rio Mamoré, por isso o nome Estrada de Ferro Madeira Mamoré.

 

 

  • Atualizada em 18/09/2017 às 18:33:03