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  • Descaracterizado: Praça marechal rondon ou praça do baú?
Descaracterizado: Praça marechal rondon ou praça do baú?
  • Fonte: Redação ORondoniense - Daniel Corrêa
  • Publicada em 03/02/2018 às 14:02
Construída na década de 1930 pela Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, sob a direção de Aluízio Ferreira, o administrador da ferrovia

Desde a Antiguidade Clássica existe a divisão entre espaço público e espaço privado. Os gregos chamavam de Ágora ao espaço público, local onde se exercitava a cidadania. Segundo a definição clássica, o espaço público se caracteriza como pertencente a uma coletividade e, o privado, reservado à manutenção de um ou mais indivíduos específicos. Entretanto, nos limites desses dois espaços, assim como em toda a história, podem ocorrer conflitos entre as duas esferas ou a invasão de uma sobre a outra.

Durante a Idade Média, as cidades europeias surgiram a partir da apropriação de terras públicas, sendo feitas em forma de uma urbanização desordenada, com ruas estreitas e insalubres. Esse processo de ocupação desordenada, continua, de certa forma, ainda hoje, sobretudo em países periféricos.

Dentro do processo de constituição das cidades, um aspecto merece atenção: as praças. Em geral, a praça é caracterizada como um espaço público livre de edificações e que propicie a convivência e/ou recreação para seus usuários.

A ideia de praça está, inicialmente, ligada ao tratamento paisagístico de grandes palácios, nem sempre inseridos no contexto urbano. Essa ideia permaneceu até meados do século XVIII quando, nas cidades europeias, as praças que se formaram estavam relacionadas com a configuração de um espaço livre a partir de planos de edifícios que foram sendo construídos, geralmente igrejas, catedrais, mercados e prédios públicos. No Brasil, elas são associadas à ideia de verde e ajardinamento urbano, ou seja, um tipo especifico, a praça-jardim. Por esse motivo, praças similares às europeias (praça-seca) recebem o nome de largo, assim como jardins urbanos surgidos em função do traçado rodoviário também recebem o nome de praça ainda que sejam espaços de difícil acesso aos pedestres e efetivamente desqualificados de tal denominação.

Assim sendo, as praças são parte integrante da paisagem urbana de uma cidade. Em Porto Velho temos várias delas que surgiram em períodos diferentes e desempenharam papeis importantes. Dentre essas há a praça Marechal Rondon, construída na década de 1930 pela Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, sob a direção de Aluízio Ferreira, o administrador da ferrovia. Ela foi inaugurada em 15 de novembro de 1939, tendo ao centro um busto em bronze do Mal. Rondon (daí o nome da mesma), erguido sobre uma coluna de mármore e um coreto. Teve um papel importantíssimo para várias gerações de portovelhenses. Figuras importantes da política nacional como Adhemar de Barros, Juscelino Kubitschek, Jânio Quadros e João Goulart fizeram importantes discursos. Mas ela também era o local de encontro da juventude de gerações passadas que se encontravam aos domingos para aguardar o início da 1a sessão de filmes no luxuoso Cine Teatro Resky. Enquanto isso, a Banda da Guarda Territorial, carinhosamente chamada de "Furiosa", animava a todos tocando no coreto no centro da Praça. Foi também o ponto de encontro do Clube da Madrugada bem como da folclórica bailarina da praça, em época mais recente e, mesmo na atualidade.

Hoje a praça não possui mais o glamour do passado, aliás, de Praça Marechal Rondon ela foi transformada, erroneamente pelos mais jovens, em Praça do Baú em alusão a uma loja denominada “Baú Barateiro”. Não existe política pública de revitalização daquele espaço que tem sido constantemente vilipendiado e ocupado pelos mais diversos segmentos como, por exemplo, vendedores ambulantes durante o dia ou mesmo servido de abrigo drogados e outros tipos, durante a noite. A praça deixou de ser povo e não existe nenhuma expectativa de que essa realidade possa mudar a curto prazo. Resta-nos contemplar, com tristeza, dos tempos áureos em que esses espaços eram ocupados por jovens e pessoas de todas as idades, mas perderam importância e foram substituídas, lentamente, pelo “progresso” e pelos shoppings centers.

Foto: Acervo Saudosismo Portovelhense

  • Atualizada em 03/02/2018 às 14:11:50