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O ribeirinho que resolveu ajudar as comunidades com conhecimento cientifico
A história de um professor doutorando que encontrou na pesquisa científica uma forma de ajudar comunidades ribeirinhas distantes do mundo moderno

A tese de doutorado, que em meio ao envolvimento científico e realidade vivenciada, levaram à humanização da pesquisa universitária e a aproximação da realidade vivida em uma pequena comunidade semi-isolada chamada Lago do Puruzinho, no baixo-madeira, com aproximadamente 130 habitantes e cerca de 30 habitações familiares.

Olakson Pedrosa é professor do Instituto Federal de Rondônia (IFRO), nascido em Porto Velho, muito cedo foi para o estado do Pará, onde morou em uma área ribeirinha e viveu uma vida simples pela qual tem paixão. Ainda criança, não imaginava que, décadas depois, os estudos o levariam a ajudar uma população tão peculiar a sua infância, e que precisa urgente de conhecimento para se habituar às mudanças sociais promovidas pelo desenvolvimento no mundo moderno.

Nossa entrevista mostra como o professor detectou a necessidade de acompanhamento psicossocial e a execução de projetos politicos estruturantes para atender as mudanças ocasionadas com a implementação de politicas públicas assistencialistas. A radiografia mostra alguns casos que chegam a incorrer sobre a saúde pública:

Orondoniense: Quem é o professor Olakson?

Olakson Pedrosa - Olakson é um portovelhense do bairro Nossa Senhora da Graças, que nasceu na maternidade municipal Darci Vargas, próximo onde funciona hoje o Hospital de Guarnição. Com seis meses fui colocado num barco e viajei durante seis dias, daqui até o Pará. Minha mãe foi embora com meu pai morar em Santarém, onde viviam meus avós paternos. Fiquei lá durante minha infância até os sete anos. Na tentativa de buscar uma vida melhor, viajamos de barco durante 3 dias até Manaus e depois pegamos um ônibus de volta até Porto Velho (naquela época havia ônibus que fazia essa linha). Em Porto Velho, estudei o ensino fundamental na escola Murilo Braga e parte do ensino médio na escola Rio Branco e Barão do Solimões.

Meu sonho era fazer o curso de Medicina ou Biomedicina, mas na época não havia a oferta em Rondônia, então optei pelo curso de Educação Fisica da Universidade Federal de Rondônia. Mesmo antes de concluir o curso, comecei a trabalhar como estagiário de musculação na então academia “OPUS”, onde continuei laborando depois de formado no ano 1992. Alguns anos depois, atuei também como professor na academia Mahatma e iniciei minha trajetória na área escolar, onde me identifiquei muito com parte dos processos de ensino aprendizagem. Atuei no Colégio Kepler e no Pitágoras e fiz especialização em atividade Física e Saúde na UNIR. Ao concluir minha especialização, fui convidado a assumir uma cadeira no ILES/ULBRA de Porto Velho, o que me possibilitou a realização do mestrado em Saúde Coletiva na ULBRA de Canoas no Rio Grande do Sul. Após a conclusão do meu mestrado assumi a coordenação do curso de Educação Física do ILES/ULBRA e uma cadeira no quadro docente do curso de Educação Física na Fimca/Metropolitana.

Quando estava trabalhando na educação ouvi os colegas falarem sobre a implantação do Instituto Federal de Rondônia (IFRO), e da grande possibilidade de ingressar no serviço público federal, quando da divulgação do edital para contratação de professores, fiz minha inscrição. No entanto, só havia duas vagas para Colorado do Oeste e uma para Ariquemes. Fiz a opção por Colorado do Oeste, passei no concurso, atuei por um tempo lá no Cone sul e no ano de 2012, através de concurso de remoção, retornei para Porto Velho, onde tive a felicidade de atuar na Educação Física, como o IFRO estava em fase de implantação na capital, cheguei a assumir cargos de gestão, vindo inclusive a assumir a direção de ensino.

Orondoniense: Começa o retorno às origens ribeirinhas…

Olakson Pedrosa - No IFRO participei de um projeto do Governo Federal chamado Mulheres Mil, e tive a possibilidade de trabalhar com a comunidade ribeirinha no Distrito de Calama. Foi o primeiro grande projeto do IFRO. Eu não conhecia a comunidade e fui lá com alguns colegas professores, para vivenciar o trabalho, foram 4 dias de pesquisa, fazíamos o cadastro e inscrição das mulheres da comunidade, orientação sobre o curso e acabamos vivenciando a realidade daquela comunidade ribeirinha do baixo-madeira. Depois disso eu comecei a me apaixonar pela pesquisa de campo, daquelas que você tem que pegar roupa, passar repelente, montar barraca, você tem que viver a realidade... Trouxe-me uma série de recordações, pois sou filho de ribeirinhos e quando passei aquele período no Pará eu morava em comunidades ribeirinhas, e com isso acabei me vendo retornar às minhas origens.

O interessante nestas pesquisas é chegar para os meus pais e comentar com eles, vê-los discorrerem sobre o passado e fazerem comparações com os dias atuais. Você cria um ambiente bem gostoso de discussão familiar. Tem muita contribuição deles na construção da análise, o fato de serem ribeirinhos ajuda muito. O meu orientador da tese de doutorado, em fase de conclusão, acha muito pertinente a participação deles e o fato de eu ser ribeirinho.

Orondoniense: Como você chegou a Puruzinho?

Olakson Pedrosa - Quando fui para Unir fazer doutorado na linha de pesquisa de Saúde e Ambiente, sob orientação do professor Ari Ott, o tema era sobre o processo de desenvolvimento e a saúde em comunidades indígenas, mas meu orientador alertou sobre uma burocracia muito grande para desenvolver a pesquisas junto a estas comunidades, foi então que me aproximei do professor Davi Barbirato e da Professora Mariana Fogacci. Eles haviam chegado do Rio de Janeiro para realizar o Pós-Doutorado, vinculados ao programa da UNIR e ao Laboratório de Biogeoquímica Ambiental Wolfgang C. Pfeiffer, coordenado pelo Professor Wanderley Bastos. Os pesquisadores do laboratório já desenvolviam pesquisa no lago de Puruzinho sobre níveis de contaminação de Mercúrio e emissão de CO2, desde 1999.

Durante algumas aulas, o professor Wanderley mostrava fotos dos pescadores artesanais com flechas, arpão, pescadores se equilibrando em cima de uma canoa, imagens dos modos de vida na comunidade, a beleza natural do lugar quase inexplorado. Foi durante uma reunião com meu orientador, professor Ari e meu co-orientador, professor Davi Barbirato, que sugeriram desenvolver a pesquisa da tese na comunidade, o que aceitei de pronto e já começamos a readequação do projeto.

Decidido sobre o tema, fui convidado a participar de uma expedição que já estava programada, com a participação dos pesquisadores da UNIR.  Seguimos em um barco pequeno descendo o Rio Madeira, em direção à pequena comunidade de difícil acesso. Considerada semi-isolada, trata-se de uma região de pouca visitação e que em períodos de baixa do rio a população fica sem comunicação com as áreas urbanas.

Orondoniense: No primeiro contato…

Olakson Pedrosa - A idéia central era visitar a comunidade e observar os impactos da modernidade. Eu percebi que nos relatos dos moradores, havia uma série de queixas sobre questões de doenças não transmissíveis como hipertensão, obesidade, e problemas de verminoses. Então, no primeiro momento, fiz um diário de bordo. Nós éramos muito bem recebidos, porque a universidade já havia colaborado com um trabalho para erradicação da malária na região, neste processo as casas haviam sido teladas, um poço artesiano foi instalado e orientações através de seminários com os moradores possibilitaram um melhor conhecimento sobre os problemas na comunidade. Eu visitei cerca de 26 casas, que ficam uma distância que varia de 20 a 100 metros uma da outra, ao longo da margem do rio onde chega energia.

Orondoniense: Você tinha ideia do que ia encontrar lá?

Olakson Pedrosa - De certa forma, no entanto, não imaginei a dimensão dos problemas, algumas coisas me assustaram, como a falta de posto de saúde, falta de agente de saúde e precárias condições para tratamento da água para o consumo. Outra situação que chamou a atenção foi o fato de que, mesmo sendo uma comunidade relativamente pobre, classificada  como população tradicional como os quilombolas e indígenas, foi possível identificar uma  divisão de classes dentro da própria comunidade!

Percebi também que as crianças estudavam em condições precárias, sem ventilador, em uma sala multiserial com duas professoras, uma para cada turma dentro do mesmo ambiente, o calor claramente influenciava negativamente o processo ensino-aprendizagem. De volta à cidade a primeira coisa que fiz foi explicar para alguns amigos a situação observada com relação à escola e a necessidade de adquirir os aparelhos de ventilação. Através de um mutirão de amigos conseguimos doação de seis ventiladores de grande porte, compramos a fiação e disjuntores e enviamos para que fossem instalados na escola.  A partir daí, estabeleci uma relação mais próxima com a comunidade. Então, comecei em minhas visitas a ir de casa em casa procurar conhecer melhor a realidade vivenciada pelas famílias.

Orondoniense: Esta aproximação ajudou na pesquisa?

Olakson Pedrosa - Esta aproximação ajudou na realização das atividades de pesquisa que tinha como foco a investigação da saúde no ambiente. Eles apresentavam algumas queixas de saúde que precisavam de uma investigação mais aprofundada. Passei então a verificar os valores de exames para fazer algo mais completo, e que realmente pudesse tanto ajudar na pesquisa, quanto a contribuir com as famílias que ali residem. O projeto foi, então, submetido a um edital do Ministério da Saúde (MS), coordenado pela Fundação de Amparo à Pesquisa em Rondônia (FAPERO), foi aprovado e conseguimos com isso uma parte do aporte financeiro necessário para iniciar os exames clinico laboratoriais, com o aval e parceria da secretaria municipal de saúde. Minha preocupação continuava e me perguntava quando eles adoecem gravemente, como fazem!? Eles dizem que “se der tempo são atendidos, se não der morre no caminho”. Mas houve um tempo em que eles tinham um agente comunitário. Ao questionar a secretaria municipal de Saúde, fui informado que estava sendo aberto um edital para concurso e uma das vagas será destinada para atender o Puruzinho.

Orondoniense: Diagnosticado o problema…

Olakson Pedrosa - Primeiro eu tive um choque, porque tudo que eu havia aprendido no mestrado em Saúde Coletiva estava ali… de maneira muito distorcida, e eu me enchendo de teoria de Promoção da Saúde, de valorização do indivíduo, e isso não estava traduzido em prática na comunidade do  Puruzinho, então pensei: “perai! Eu preciso  colocar o aprendizado do mestrado e do doutorado em prática”.

Comecei a trabalhar, fiz os contatos para levantamento de preços junto ao laboratório, quanto custaria para fazer exames, isso significa fazer o mapeamento total, desde exame cardiologico, parasitológico, exame de sangue completo. Para a pesquisa, é de grande importância os dados relativos à saúde na comunidade, coletados pelos pesquisadores no ano de 2010, mas vale ressaltar que nesse período a comunidade não tinha acesso a energia elétrica, não tinha água potável, não havia poço artesiano e não tinham acesso ainda aos auxílios dos programas sociais do governo, como bolsa família e auxilio defeso…

Naquela época, eles levavam em torno de 6 horas, para sair de lá e chegar em Humaitá, geralmente viajavam meia-noite para chegar pela manhã, remando a noite, muita atividade fisica. Suas atividades de subsistência eram o extrativismo -  tirar o açaí, a pupunha, fazer farinha, a agricultura era só para subsistência, e o excedente não era comercializado. Eles tinham pouco acesso ao dinheiro, “papel moeda”.

Portanto, em 2010, havia sido mapeado a saúde e o comportamento social dessas pessoas, da qualidade de vida deles. Em 2012 chega a energia elétrica, assim como o acesso a outros benefícios do Governo Federal.

Diante dessa situação elaboramos um desenho metodológico para realização de um estudo que chamamos de Longitudinal (coorte), fazer um comparativo de 2010 a 2016; um estudo epidemiologico para saber o que aconteceu com a saúde da população neste período, visto que os moradores continuam os mesmos.

Orondoniense: Resultados preliminares…

Olakson Pedrosa - A pesquisa ainda esta sendo finalizada, mas já foi possível detectar uma serie de mudanças na saúde e comportamento como, por exemplo, aumento do nível de obesidade, maior consumo de alimentos industrializados, aumento no consumo de gordura, óleo saturado, menor consumo de peixe, o que retrata o que se pode chamar de um processo de aculturamento, onde uma comunidade passa a abrir mão da cultura local em detrimento da cultura das áreas urbanas.

Orondoniense: As politicas públicas começaram a chegar…

Olakson Pedrosa - Elas chegaram, mas sem que as pessoas estejam preparadas  para as mudanças. Falta um preparo para a mudança social e o acesso à alimentação industrializada influencia na qualidade de vida em relação à saúde. De certa forma este processo de desenvolvimento social pode ocasionar um efeito negativo, supostamente pela falta de acompanhamento. Isso que não significa uma apologia a pobreza, mas a evidencia da  necessidade de um planejamento no ato de implamentação de política públicas.

Orondoniense: O papel social da pesquisa científica…

Olakson Pedrosa - Basicamente sobre esta comunidade os dados levantados já foram entregues a secretaria municipal de saúde e podem inclusive serem inseridos em uma base nacional, vão alimentar o DataSus ou o Esus [bancos de dados do Ministério da Saúde] o que pode ajudar a mapear a realidade e contribuir para viabilizar maior aporte de recursos  para atender essas comunidades onde são  identificados estes problemas. Eu estou trabalhando para o Ministério da Saúde, neste caso, porque eu estou mostrando para eles uma realidade onde não conseguem chegar, às vezes até por conta de limitações orçamentárias ou até mesmo por logística. Não tem como entrar para uma pesquisa científica sem vc entrar na questão social.

Orondoniense: O Olakson ribeirinho…

Olakson Pedrosa - Quando eu estou lá eu sou um pesquisador, mas não deixo de ser ribeirinho, eu sou um colaborador. Tomo café na casa dos moradores, converso sobre suas vidas na comunidade, geralmente na cozinha, onde as visitas são recebidas.  Não acredito que eles deveriam abandonar suas casas e sua comunidade por conta dos avanços tecnológicos e da modernidade.    Precisamos ajudar a compreender o processo para que  eles estejam preparados para lidar com os impactos que podem surgir em razão da modernidade.

Orondoniense: Que tipo de profissional tem lá hoje para atender eles?

Olakson Pedrosa - Tem uma escola, não tem posto de saúde, não tem comércio, o que há de melhor estruturado lá são duas igrejas, uma católica e uma evangélica, que convivem muito bem.

Orondoniense: Quando é o retorno dos trabalhos de pesquisa?

Olakson Pedrosa - Já foram realizadas inúmeras ações de atendimento e prevenção em saúde. A ideia é voltar agora em janeiro para dar prosseguimento aos atendimentos e a realização de oficinas de sensibilização  para que eles possam adotar medidas do dia-a-dia que os auxiliem com o processo de transformação pelo qual eles passam.

Já começamos um trabalho de parceria com o IFRO (Instituto Federal de Rondônia) e a UNIR (Universidade Federal de Rondônia) para realizar reuniões, palestras, oficinas, banner, e usar a escola como instrumento de propagação do conhecimento.

Orondoniense: O que mais marcou em você neste contato com a comunidade Puruzinho?

Olakson Pedrosa - A história das crianças na escola na sala quente, sem ventilador, e outra carga emocional que mexeu e mexe comigo, é a fé que aquelas pessoas têm, independente de ser evangélico ou católico. Passei a respeitar ainda mais aquele povo. É uma fé que abre o sorriso para as coisas da vida, independente do que passam, estão sempre sorrindo.

Orondoniense: Nossos agradecimentos por compartilhar conosco sua experiência, professor Olakson Pedrosa.

  • Atualizada em 12/01/2018 às 17:06:33