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Rogério Weber: um jovem intrépido e a rua que nem sempre ligou Porto Velho de Norte a Sul
  • Fonte: Redação ORondoniense - Aurimar Lima
  • Publicada em 24/02/2018 às 12:05
O acidente de um rapaz entusiasmado para pilotar uma Harley Davidson Italiana e que revela um pouco da historia portovelhense

Rogério Weber era um jovem de 19 anos quando sofreu um acidente de moto na estrada que hoje tem seu nome, no centro da Capital de Rondônia.  Um jovem igual a tantos outros, mas filho do primeiro comandante do 5º Batalhão de Engenharia e Construção – 5ºBEC, Coronel Carlos Aloísio Weber, gaúcho, um dos primeiros a instalar-se na Amazônia e que tinha como missão transformar a região. 

O lendário coronel tem uma marca na história, para alguns o imponente, para outros o desbravador. O legado de Weber rendeu uma homenagem do Ministério do Exército, através da Portaria No. 363, de 14 de julho de 1999, que determinou a denominação do quartel, que passou a chamar-se de “Batalhão Cel. Carlos Aloísio Weber”. 

Um ato de imponência foi registrado em uma entrevista realizada em 1971, quando ao ser questionado sobre a ocupação da região pelo repórter da revista Realidade sobre a Amazônia, o mesmo respondeu: - Como você pensa que nós fizemos 800 quilômetros de estrada? Pedindo licença, chê? Usamos a mesma tática dos portugueses, que não pediam licença aos espanhóis para cruzar a linha de Tordesilhas. 

Como desbravador consta nos registros do Batalhão a Portaria Ministerial, que reconhece como denominação histórica o "BATALHÃO CEL CARLOS ALOÍSIO WEBER e um respectivo estandarte, uma forma de exaltar os militares que trabalharam na implantação da unidade “precursora do desbravamento da Amazônia e dos desafios da Engenharia Militar Brasileira". 

O Batalhão, com sede em Porto Velho, foi criado pelo Decreto Número 56.629, de 30 de julho de 1965, que determinava extinto o Batalhão de Serviço de Engenharia, do 1º Grupamento de Engenharia, com sede em Campina Grande – PB e criado o 5º Batalhão de Engenharia de Construção, com sede em Porto Velho - RD. O Ministro da Guerra foi responsável pelas medidas administrativas de transferência do acervo do Batalhão de Serviços de Engenharia do 1º Grupamento de engenharia para o 5º Batalhão de Engenharia de Construção.

No ano de 1966 recebeu entre as missões os encargos administrativos da Estrada De Ferro Madeira-Mamoré, erradicada pela RFFESA em maio/66 através do Decreto presidencial de n° 58.501. A instituição também teve fundamental importância na execução da pavimentação asfáltica da BR-364. 

A ousadia do coronel rendeu a homenagem com o nome da rua em alusão à perda do filho em um acidente ocorrido nas proximidades do Batalhão. O pedido feito pelo prefeito da época, Jacob Atalah, foi apreciado e aceito por unanimidade pela Câmara de Vereadores de Porto Velho, que estava em seu primeiro exercício.
O saudosista, Anísio Gorayeb, que foi amigo de Rogério, conta que era um rapaz comum, com “hábitos não muito salutares”, gostava de boemia e um pouco rebelde, mas o pai dele tinha prestígio na cidade, pelos serviços prestados, e foi uma forma de reconhecimento a família.

Uma testemunha chamada Alarcão 

A atual rua Rogério Weber nem sempre foi um caminho reto que ligava a região norte ao sul da Capital. O jornalista e memorialista Anísio Gorayeb conta que o norte da rua já foi chamado de Curral das Éguas, era onde as pessoas da ferrovia guardavam os animais; entres os anos de 50 a rua no percurso que compreendia da Pinheiro Machado até próximo a 7 de Setembro, já se chamava Major Guapindaia, denominada antes da criação do Território Federal do Guaporé.

Gorayeb acredita que com a chegada do 5° BEC era necessário uma rua para ligar a cidade até o quartel e essa rua foi estendida da Pinheiro Machado ao quartel, “por sinal a maior rua da cidade” que chamávamos de Norte Sul, e um ano e meio depois com a morte do Rogério Weber a avenida recebeu o novo nome em homenagem ao pai do jovem – conta Anísio Gorayeb.

Rogério Weber tinha muitos amigos saudosistas, mas quem estava presente no dia do acidente era o empresário Sidney Alarcão, que mora atualmente no Rio de Janeiro. Sidney acompanhado de um soldado do BEC chamado Euclides, que trabalhava com o pai, Sidney Alarcão, na época capitão engenheiro e hoje coronel engenheiro reformado, viu o intrépido Rogério Weber perder a vida.

A compra da motocicleta

Alarcão começa a história contando sobre o pivô do acidente: a curiosidade dos jovens para pilotar uma Harley Davidson Italiana. Segundo ele essa história começa no final de março e início de abril de 1970, quando a Zona Franca de Manaus tinha sido expandida para alguns produtos, como caminhonete, motocicletas, máquinas, equipamentos e outras coisas para a área de abrangência da Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (SUDAM), e Porto Velho foi agraciado com a medida.

De acordo com o saudosista, diversas pessoas compravam produtos de Manaus, principalmente motocicleta, e isso impulsionou a chegada das primeiras motocicletas em Porto Velho. “Meu avô foi nos visitar nessa época e encontrou em Manaus um amigo dele chamado Souza Arnold e ele disse que tinha recebido a representação da Harley Davidson Italiana para Manaus. Nessa conversa, meu avô gostava de moto e meu pai também, ele olhou as motos e por isso ficou e veio para Porto Velho. Chegando em Porto Velho conversou com meu pai que se interessou também, e na volta ao invés de ir por Cuiabá-MT ele foi por Manaus, onde pegava o Corujão e ia direto para o Rio de Janeiro. Em Manaus ele conversou com o amigo e comprou uma Harley Davidson 350 italiana. Meu vô acertou com Souza Arnold para despacha-lá para Porto Velho” - conta Alarcão sobre a aquisição da motocicleta que Rogério conduzia no dia do acidente. 

Essa motocicleta chegou no Porto do Cai N´agua em Porto Velho no dia 27 de maio de 1970, recebida pelo pai de Alarcão e foi guardada em um dos galpões da Ferrovia Madeira Mamoré,  pois a mesma estava desmotantada. Ninguém da família ficou sabendo da existência da motocicleta.

Em Porto Velho apenas uma pessoa montava esse tipo de motocicleta, um boliviano, conhecido como Espanhol. O pai de Alarcão contratou o serviço, mas não queria levar a moto para loja porque era uma surpresa para a família, então o profissional foi até o galpão onde montou a motocicleta. “Ele nunca tinha montado este tipo de motocicleta, então ela ficou com uma série de problemas, um deles era que ela falhava muito e demorava a dar partida, e vez por outra morria” – explicou Alarcão.

No dia 02 de junho Alarcão [pai] foi buscar a motocicleta dentro do galpão da Madeira Mamoré para guardar na casa de um amigo proprietário de uma empresa de táxi aéreo que ficava no aeroporto do Caiari, lá a moto ficaria até o aniversário do filho Sidney Alarcão, dia 11 de junho de 1970. Quando o Alarcão [pai] fazia o percurso para chegar a casa do empresário, no trecho da esquina da então Major Guapindaia com a Duque de Caxias, a moto deu problema e não quis mais funcionar. “Ele encostou a moto numa calçada e foi pra casa almoçar normalmente. O segundo expediente do Batalhão começava as 14 horas” – lembra o filho.

Quando o capitão Alarcão saiu para o trabalho com pouco mais de 5 minutos o jovem Rogério Weber chegou acompanhado de um amigo, Manoel Costa Mendonça, o Manelão, e indagou sobre a moto e o local onde estava, mas Alarcão [filho] não sabia da aquisição do pai e eles alegavam que o mecânico Espanhol havia contado que havia montado uma moto para o pai de Sidney. “Ele entrou foi lá na garagem olhou, olhou em volta da casa e viu que não tinha, e ninguém lá em casa sabia da existência da moto. Então ele disse que ia ao quartel falar com meu pai, e eu aproveitei para dizer que se houvesse moto me levassem para ver” – lembra Alarcao.

Rogério e Manelão pediram a chave da moto para o pai de Allarcão, que inicialmente não quis dar, mas na insistência cedeu achando que a moto não ia funcionar, ou não ia muito longe. “Eu sabendo que eles não iam me levar, por eu ser um pirralho, me vesti e corri para uma pedra que tinha na saída do Batalhão, na Rua Norte Sul e fiquei sentado esperando eles passarem. Eles passaram e estavam com a chave na mão e perguntaram se eu queria ir ver. Eu entrei no banco de trás do fusca”- disse Allarcão.

No meio do caminho o jovem Manelão deixou Rogério com Alarcão para realizar um serviço ordenado pela mãe, e os dois seguiram a pé até a moto. Quando viram a moto ficaram entusiasmados, mas não conseguiram fazer a moto funcionar. Por volta das 17 horas o pai de Alarcão pediu ao auxiliar Euclides para ir ver o que estava acontecendo, pois os jovens não haviam retornado, e o compromisso do Rogério era levar a moto para o quartel. Com a ajuda do auxiliar a moto funcionou, mas falhava muito e o auxiliar decidiu reconduzir Alarcão de carro, enquanto o Rogério seguiu de moto para o quartel. 

O acidente

No retorno para o batalhão, na esquina da Sete de Setembro com a então Norte Sul, a moto parou de funcionar, mas Rogério deu partida e logo pegou, não tinha partida elétrica, era pedal. Rogério pediu que o seguissem porque achava que não ia chegar ao quartel de moto devido às falhas constantes. 

Quando passaram pelo trecho da estrada que vai para o cemitério Santo Antonio, passaram dois carros por eles e levantou uma nuvem de poeira que tirou completamente a visibilidade dos condutores. O jovem que estava na moto não usava óculos, nem capacete, pois não era comum o uso naquela época. Ele reduziu a velocidade, mas nesse ínterim saí do batalhão um caminhão basculante que recolhia o lixo nas Vilas de sargento e oficiais do batalhão, e a falta de visibilidade de ambos resultou na colisão da moto com a lateral do caminhão. “A moto deitou e passou por baixo do caminhão, e o Rogério voltou para trás. Nós estávamos a uns 30 a 40 metros atrás dele. Paramos. E o Rogério ainda estava falando. Dizia que estava com muita dor na barriga. Houve tumulto, era final de expediente.

Colocamos ele dentro do carro e levamos para o hospital, onde hoje é o hospital da Guarnição” – conta Alarcão lembrando que o jovem foi retirado do carro em uma maca e levado para a sala de cirurgia.

Alarcão ficou no hospital acompanhando o atendimento, um médico chegou rapidamente pra atender mas o rapaz faleceu no centro cirúrgico. “Eu fiquei sem entender, não acreditava que era algo grave. Naquele dia eu não sei nem quem me levou para casa” - comenta Alarcão. Rogério weber, filho do Coronel Carlos Aloísio Weber, foi enterrado no cemitério Recanto da Saudade, construído pelo Batalhão em 1970 que fica nos fundos do quartel, próximo a BR 364. 

O Nome da Rua e a capa de um processo

Na versão de Sidney Alarcão, para se chegar à REO [Residência Especial de Obras], nome dado ao conjunto de vilas que atendia os sargentos e oficias do Batalhão, no final de 1966 e início de 1967, havia um caminho tradicional que era pela avenida Prudente de Morais, Estrada de Santo Antônio e pegava aquele trecho da Santo Antônio até a REO atual.

No início de 67 o Ministério da Saúde e o Ministério do Interior tinha um problema seriíssimo de endemia de malária e hepatite com surto em Porto Velho, e os técnicos da CEM [Campanha de Erradicação de Malária] identificaram que o bairro Baixa da União era o foco principal de proliferação, havia casas feitas em palafita que ficavam com água parada embaixo delas acumuladas por meses.

Ministério do interior e Ministério da Saúde firmaram um convênio com o BEC para retirar o pessoal do lugar, por medida sanitária e colocar em outra área. Foram disponibilizadas pela prefeitura duas áreas, uma aonde atualmente é o bairro do Tucumanzal e outra no bairro da Liberdade, e alocaram recurso para o BEC realizar o trabalho. “O batalhão foi rapidamente fazer o trabalho. Abriu ruas, colocou energia, água e construiu casas, que eram de alvenaria na frente e madeira atrás. Ainda cheguei a ver algumas dessas casas quando estive em Porto Velho” – lembra Alarcão

Segundo ele, após transferir as pessoas de lugar a Baixa da União foi aterrada, e foi aberto um caminho de serviço que chamaram Norte Sul, “mas que era o nome da capa do projeto de engenharia do caminho de serviço que ligava a Sete de Setembro à então REO ” – explica Alarcão. Foi seguido o plano diretor até a Alexandre Guimarães, depois fez um pequeno desvio por causa da Usina de Borracha e prosseguiu ligando com a Norte Sul inicial. 

“E esse caminho do serviço ficou por algum tempo lá de  67 até 73, se não me engano, anos depois já não justificava o BEC ficar com manutenção daquele caminho do serviço, já era uma rua da cidade, e o BEC pediu ao DNER para transferir aquele ativo [caminho] para a prefeitura” - justificou.

Os vereadores da primeira legislatura de Porto Velho resolveram então pelo nome do jovem Rogério Weber, que havia se acidentado naquela rua e era de uma família importante para a cidade na época, foi feita a moção na Câmara e aceito por unanimidade. “ Então Norte sul era o nome que tinha na capa do processo. Eu só não entendo porque pegaram aquele pedacinho que chamava-se Major Guapindaia, que ligava a Pinheiro Machado até Sete de Setembro, e concluíram com Rogério Weber” – opinou Alarcão.

FOTOS ARQUIVO DE FAMÍLIA

  • Atualizada em 24/02/2018 às 12:29:59