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  • Rondônia deve desafiar-se a ser o maior produtor e exportador mundial de peixes amazônicos
Rondônia deve desafiar-se a ser o maior produtor e exportador mundial de peixes amazônicos
  • Fonte: Altemir Gregolin, ex Ministro da Pesca e Aquicultura, Mestre em Planejamento e Políticas de Desenvolvimento Rural e Professor da Fundação Getúlio Vargas
  • Publicada em 06/06/2018 às 16:07
Rondônia é o maior produtor de peixes nativos cultivados do Brasil, está muito a frente de outros estados da região norte e centro-oeste em relação ao profissionalismo na produção a campo

Não existe problema de demanda para o  consumo de pescados. O que existe é a falta de estrutura e condições  para acessar o mercado existente. O mercado mundial de pescados, que é gigante, exige escala de produção e regularidade de oferta como em qualquer outra cadeia de carnes. Não existindo estas condições, o mercado não se abre, se fecha.

Os piscicultores de tilápia do Paraná,  tinham sua produção estagnada desde a década de 1990 porque não tinham acesso ao grande mercado. Bastou a Copacol estruturar a cadeia produtiva, com instalação da indústria, da integração com os piscicultores e um eficiente canal de vendas, que se fez o mercado e a produção paranaense disparou, passando a ser o maior produtor nacional de peixes cultivados. A Copacol abate e comercializa mais de 100 toneladas de tilápia por dia. E a Cvale segue a mesma estratégia, investiu mais de R$ 100 milhões na construção de um grande complexo frigorífico e já abate mais de 40 toneladas por dia. A organização da cadeia produtiva da tilápia garantiu previsibilidade ao mercado comprador, que significa, garantir a entrega em quantidade e qualidade o ano inteiro.

A região dos lagos em SP é  outro exemplo de sucesso. Em apenas 12 anos do início da produção, produz mais 30 mil toneladas de tilápia no reservatório de Ilha Solteira, estruturou um parque industrial com 5 indústrias e já exporta semanalmente tilápia fresca, via aérea, para os Estados Unidos.

Quero dizer com isso, que não é possível acessar ao mercado, ávido por pescados, sem a cadeia produtiva estruturada. Eu, pessoalmente, em 2015, contatei um importador dos EUA, oferecendo nossa estrela da Amazônia, o pirarucu. Enviamos amostras que foram degustadas em um jantar com grandes redes de supermercados.

Adoraram nosso peixe. Vieram em missão ao Brasil para fazer a compra. O pedido inicial era de 4 containers/mês de filé, ou seja, 100 toneladas por mês. A nossa indústria não conseguiu garantir, um container por mês. A venda não se efetivou. Nesta direção, são incontáveis os compradores da China, EUA, Oriente Médio, e Europa que visitam a Região Norte interessados na compra do nosso peixe. Mas não temos a quantidade e a regularidade necessária que nos permita assinar um contrato de venda e garantir a entrega no dia e hora marcada.

E isso acontece porque não temos a cadeira produtiva estruturada.

Rondônia vive este dilema. É o maior produtor de peixes nativos cultivados do Brasil, está muito a frente de outros estados da região norte e centro-oeste em relação ao profissionalismo na produção a campo, mas peca da porteira pra fora. Das mais de 80 mil toneladas produzidas anualmente, apenas 3 mil toneladas passam pelo processo de industrialização.  E mais de 60% tem como destino um único mercado, o mercado de Manaus. Rondônia tem muita produção, pra pouca indústria. Por isso, tem dificuldades de ampliar o mercado e principalmente, acessar o mercado externo. A Zaltana Pescados foi pioneira e ganha cada vez mais espaço, inclusive exportando.

Rondônia tem as melhores condições para viabilizar investimentos em novas indústrias, porque já tem uma base produtiva estruturada. Tem peixes para processar. Mas precisa ousadia.

Eu colocaria para Rondônia o desafio estratégico de ser o maior produtor e exportador mundial de peixes amazônicos, líder da grande região amazônica que envolve o Brasil, Peru, Colômbia, Venezuela, Bolívia, Equador, Suriname, Guiana e Guiana Francesa. Pensar Rondônia num contexto mundial de demanda crescente por pescados e do apelo por produtos desta marca mundialmente conhecida, que é a nossa Amazônia. Associar o pescado produzido em Rondônia com a preservação da floresta de forma que o consumidor na Europa ou qualquer parte do mundo compre o nosso tambaqui, pirarucu e outros peixes, com o sentimento de que,  além de estar consumindo um alimento saudável e de qualidade, estará ajudando a preservar a floresta.

Considero imperioso e factível este desafio, e a partir disso, deve-se buscar os investimentos necessários para construir um parque industrial robusto que possa fincar um pé no mercado brasileiro e outro no mercado mundial.

É imperioso por dois motivos, primeiro porque é um caminho perfeitamente possível e viável, basta construir uma estratégia sólida e contar com a liderança dos atores envolvidos na cadeia produtiva, especialmente o governo do estado. E segundo, porque se este caminho não for trilhado, existe o risco de estagnação da produção com saída de produtores da atividade, que de certa forma já vem ocorrendo nos últimos anos. Além disso, existe o risco de  perder a liderança por outros estados da região norte, especialmente o estado do Amazonas e do Pará, que já despertaram para o grande potencial de produção e geração de emprego, renda e riqueza que o pescado oferece à região. Então, mãos a obra. Está lançado o grande e prazeroso desafio. Sou parceiro nesta luta porque é importante pra Rondônia e para o Brasil.

ALTEMIR GREGOLIN - Ex Ministro da Pesca e Aquicultura, Mestre em Planejamento e Políticas de Desenvolvimento Rural e Professor da Fundação Getúlio Vargas.

  • Atualizada em 07/06/2018 às 16:07:55