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A academia hospedeira

Ler, Pensar e Escrever | Marcos Pena Jr

O vencedor de melhor filme do Oscar desse ano, Parasita, conta a história de uma família sul-coreana extremamente pobre. Pais, um filho e uma filha jovens, todos desempregados, vivem em péssimas condições num semi-subsolo na periferia da cidade. De maneira bastante fortuita, o filho Kim Ki-woo (Woo-sik Choi) tem a chance de dar aulas de inglês para uma jovem de uma família rica. Algo que ele não poderia fazer, por lhe faltarem as qualificações adequadas. Essa será apenas a primeira de uma série de falsificações em que ele e sua família incorrerão ao longo da história.

O roteiro é bastante criativo e cativante. Joga de maneira cômica com o drama da desigualdade social e econômica da Coréia do Sul. A sequência da narrativa vai num crescente que prende o expectador à tela. Embora o roteirista e diretor Bong Joon Ho (Oscar de melhor direção) esteja se utilizando de uma metáfora para tratar da desigualdade sócio-econômica do país, não deixa de apresentar uma forte caricatura. Aliás, Ho deixa bem claro que está nos entregando uma grande metáfora. Ao colocar isso expressamente em diferentes momentos nas falas de Choi.

Não resta dúvida que se trata de um excelente filme. Mas não deveria ter levado a principal estatueta do Oscar.

O filme diverte, faz pensar sobre a questão econômica da sociedade sul coreana. Toda a ambientação é muito interessante e verossímil, demonstrando para o mundo um pouco do que é a Coréia do Sul. Os atores são muito bons, com excelentes desempenhos no longa. Todos conseguem transitar do cômico ao dramático com naturalidade. Trata-se de um excelente filme, não resta dúvida. Mas não deveria ser o vencedor da categoria principal do Oscar. O que transparece é que a Academia o premiou com tal estatueta muito mais pelo ativismo político (já hospedado no imaginário coletivo como algo necessariamente positivo) de sua narrativa que por sua qualidade geral como obra de arte. É esse o grande ponto fraco da película. A exarcebada e batida exploração da distância entre ricos e pobres, que deveria pesar contra a obra, tornou-se seu trunfo.

A discussão de fundo do filme se resume a falsa dicotomia: para que alguns gozem o conforto da riqueza, outros precisam viver na pobreza. Isso é uma inverdade absoluta. O argumento é simples: se para que alguns se tornem ricos (vençam na vida) outros precisam perder, nunca teríamos saído da idade das pedras. A riqueza é gerada a partir do gênio humano se utilizando dos recursos disponíveis*. Alguns vencem porque descobrem como operar esse processo, outros não. Aqui vai mais uma questão fundamental no filme: a família pobre começa a se dar bem ao agir de má fé com a família rica. Mais uma caricatura exagerada, ainda que seja uma metáfora para a quase impossível ascensão social visualizada por Bong Joon Ho. Ainda que o pai Kim Ki-taek (o ator Song Kang Ho) preso no bunker da casa da família rica seja uma metáfora. Ainda que a esperança do filho se tornar rico para salvar o pai seja uma metáfora.

Localizados os hospedeiros, onde estão os parasitas?

Como escreveu Luis Fernando Veríssimo em seu texto “Ecos dos Oscars” no Estadão em 16 de fevereiro: “Parasita mereceu até o exagero dos seus múltiplos prêmios. (…) Talvez Sam Mendes possa esperar um reconhecimento tardio”. Para um bom entendedor mei pala bas, que esse reconhecimento ao roteirista e diretor de 1917 (concorrente de Parasita) venha rápido e intenso, embora nada substitua a não contemplação com os Oscars de melhor filme e melhor direção. Mas esse é assunto para outro texto. Por agora é bom ficarmos com a reflexão: localizados os hospedeiros, onde estão os parasitas?

* Sobre essa questão indico a leitura do excelente artigo de George Franklin Gilder, escritor americano, traduzido e publicado no site do Instituto Misses Brasil: https://www.mises.org.br/Article.aspx?id=2473.

 

Marcos Pena Júnior é economista e escritor, mantém suas produções disponíveis em marcospenajr.com.