Filmes

A espera de Chiara

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Desde muito cedo desenvolvi um sentimento um tanto negativo a respeito das últimos horas dos domingos. Um misto de preguiça, melancolia e ansiedade. Preguiça de ter de dormir cedo e acordar em tempo para as
obrigações da segunda-feira; melancolia por sentir que ainda havia tanto
a fazer e pouco tempo disponível mais uma vez (ah! Mais um domingo que
acaba); e, ansiedade em relação a mais um início de semana e a tudo que
me aguardava ao longo dela. Motivos para sentir tudo isso? Não tenho clareza, mas quando paro para pensar, acredito ter algumas respostas.
Entretanto, o foco aqui não é tratar disso. Todavia, entendo ser importante dizer que hoje esse sentimento já é mais que o resultado de hábitos, faz parte de quem sou.

Lembro aqui dos argumentos de Aristoteles em “Ética a Nicomaco” a
respeito de como se forma o caráter. Simplificada e resumidamente,
corresponde àquela velha máxima: tuas ações se tornam hábitos e esses se
tornam teu caráter. No fim, escolher suas ações moldará seu caráter.
Aristoteles chama isso de prévia escolha. Contudo, vertente majoritária
da psicologia defende que o caráter se forma pela conjunção de inconscientes mecanismos de defesa. Se por escolhas (conscientes ou não)
ou se por mecanismos de defesa, o fato é que para mim a segunda metade do domingo é a expressão do que é vazio.

Semana passada eu buscava um filme para assistir e me deparei com o
título “O vazio do domingo” (em português). Já foi suficiente para me
fazer decidir vê-lo. (Sem dúvida tive uma identificação direta e
imediata). Se a versão para português do título fosse mais honesta ao
original “La enfermedad del domingo“, certamente eu buscaria mais
detalhes para decidir se o assistiria ou não. Ao me permitir a decisão
tendo como base apenas o título, me expus ao risco de perder tempo com um filme de baixa qualidade. Para minha alegria e deleite, a película
espanhola é excelente, profunda e faz valer cada minuto de cada cena e
todos aqueles investidos em pensar sobre ele e sentir seu impacto após
seu fim.

O roteiro traz um clima de mistério, que leva o espectador a ficar
atento e se sentir instigado a aguardar o desenlace da história. Como um
quebra-cabeças complexo, faz com que tenhamos de observar bem para irmos construindo o quadro completo. Da primeira à última cena, esse é o
processo para quem está acompanhando o encaixe dos acontecimentos. Palmas ao roteirista (e diretor do filme) Ramón Salazar.

Se na função de roteirista o espanhol dá um banho de talento, não é
possível dizer o mesmo sobre sua direção. Muitas cenas são conduzidas com base em certo exagero. Não o exagero afetado, espalhafatoso, justamente o oposto, um excesso de apatia que torna menos verossímeis muitas passagens. Em certos momentos, pequenas correções na postura, na
fisionomia ou na entonação dos atores seria suficiente para elevar o padrão do filme. Aqui entra minha leitura a respeito das atuações: excetuando Bárbara Lennie interpretando Chiara, que encarna sua personagem e nos faz acreditar ser ela um indivíduo real (especialmente
pela expressão de sua dor), todos os demais entregam muito pouco como
resultado cênico. O que é uma pena, pois ao representar Anabel em toda
sua complexidade de vida, Susi Sánchez poderia ter sido um dos pontos
altos do filme. Infelizmente, ela não nos emociona como teria conseguido
se melhor direcionada. Se a intenção de Salazar foi colocar verossimilhança, nos legou apenas uma frieza muito pouco real.


O verdadeiro destaque, nosso grande deleite, é a fotografia que nos
é aí presenteada. Ricardo de Gracia, diretor de fotografia, foi de uma felicidade inadjetivável. Pelo que fui capaz de apurar, este é seu único
trabalho em tal função. Desejo que ele possa ter outras oportunidades de
executar esse talento; que mantenha sua cabeça, suas mãos e seus olhos
tão bem afiados; e, que eu possa aproveitar seus futuros trabalhos. Em “O
Vazio do domingo”, ele conseguiu pintar a beleza da dor, a dor constante,
intensa e profunda. Ainda consegue envolver tudo isso em uma atmosfera
nebulosa, sem deixar de apresentar como os detalhes visuais podem ser
gratificantes para a alma (claro, mérito compartilhado com o diretor). A
paleta que aplica, majoritariamente em tons pastéis, é extremamente
coerente com o todo.

Diante da dor, do vazio e da angústia desiludida de Chiara com tudo
aquilo que lhe faltou em praticamente toda a vida – que por mais simples
e comum que seja, é extremamente essencial e lhe é certo nem mesmo ter a
chance de conquistar -, não posso me manter tão negativo em relação aos
meus domingos. Tudo que eu sempre senti que me falta nesses dias é feito
de puras mesquinharias ridículas frente ao que Chiara esperava ter nos
seus.

Crítica minha ao filme “O vazio do domingo”, originalmente publicado no
Vórtex Cultural:  http://www.vortexcultural.com.br/cinema/critica-o-vazio-
de-domingo/

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Mais sobre o autor

Ler, Pensar e Escrever | Marco Pena Jr

Ler, Pensar e Escrever | Marco Pena Jr

Marcos Pena Júnior é natural de Caruaru, Pernambuco. Afirma que se entende como uma grande e histórica mistura de índios, negros, mamelucos, mestiços, brancos, “portugueses da Holanda”, caboclos e mulatos, como escreveu em seu poema “Quantos rios nascem no Sertão e desembocam no Mar?”. No final da adolescência rumou para Natal, no Rio Grande do Norte, onde aos dezessete anos iniciou graduação em ciências econômicas e começou a trabalhar. Também aí cursou MBA e mestrado em engenharia de produção. Diversas atividades profissionais foram se seguindo ao longo do tempo, tendo sido sua atuação como professor universitário, tanto na Universidade Federal do RN, quanto em uma faculdade particular, a que mais o cativou. Também na capital potiguar, casou e teve filhas. Na virada dos anos 2000 para os 2010 mudou para Brasília, Distrito Federal. Atualmente vive na capital do País. Desde a adolescência tem interesse especial por literatura, escrevendo poemas desde muito cedo. Atualmente dedica-se a escrever poemas, artigos de opinião, resenhas, críticas, artigos técnico-científicos, além de achar um tempinho para fotografia … ver e sentir o mundo, no fim das contas, é o que o atrai.