Brasil

‘A gente dormia no chão’, relata brasileira deportada dos EUA que desembarcou em Confins

“O tratamento é péssimo, péssimo mesmo. A gente dormia no chão”, relatou a faxineira Gleiciana dos Santos, na noite desta sexta-feira (14), depois de desembarcar em Confins, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Ela está entre os 80 brasileiros deportados dos Estados Unidos que voltaram ao país no quarto voo fretado pelo governo norte-americano.

O avião chegou ao Aeroporto Internacional de Belo Horizonte por volta de 22h40 desta sexta. A BH Airport informou que aeronave trouxe 40 crianças e adolescentes entre os passageiros. A mulher ficou detida nos EUA junto com o filho de 8 anos. “Tem uma sala que eles dão uma manta, é frio. Eles não estão nem aí com menino gripado, com menino doente, entendeu? Colocam todo mundo para dormir no chão”, completou Gleiciana.

Na chegada, o grupo fez uma refeição fornecida pelo aeroporto e a maior parte dos passageiros deixou o complexo logo após o lanche. Os deportados que não são de Belo Horizonte têm ainda outro desafio: voltar para as suas cidades.

A dona de casa Eliane Rosa Andrade — que chegou acompanhada dos dois filhos, de 4 e 6 anos de idade, disse que seguiria para a rodoviária de BH. “Eu vou la para a rodoviária para ver se consigo passagem. Vou ficar lá até que alguém me dê um dinheiro para eu ir embora com eles”, disse.

Na última sexta-feira (7), outros 130 brasileiros que foram deportados pelos Estados Unidos chegaram a Confins. Um deles definiu como “muito sofrido” o tempo que ficou preso com a família. Ainda restavam 139 cidadãos do Brasil detidos sob custódia do Departamento de Imigração e Alfândega (ICE, na sigla em inglês) dos EUA.

Quarto voo com brasileiros deportados dos EUA desembarcou em Confins, na Grande BH, nesta sexta (14) — Foto: Reprodução/TV Globo

Em outubro de 2019, chegou a Belo Horizonte um primeiro voo, com cerca de 70 pessoas. O desembarque marcou a retomada de uma medida que não era aceita pelo Brasil desde 2006, quando o Itamaraty alterou a política de trato de brasileiros no exterior. O segundo voo aterrissou em janeiro deste ano, com dezenas de brasileiros.

O governo do presidente Jair Bolsonaro tem facilitado a deportação de cidadãos que vivem irregularmente nos EUA, o que representa uma mudança em relação à política de governos anteriores.

Brasil não aceitava voos fretados com deportados desde 2006

A decisão de não aceitar mais o fretamento de aviões veio em 2006 quando, depois de uma CPI que investigou as deportações de brasileiros, o Itamaraty alterou a política de trato de brasileiros no exterior, incluindo aqueles acusados de imigração ilegal.

Um diplomata ouvido pela Reuters explica que a decisão de não aceitar mais as deportações em massa veio da necessidade de analisar caso a caso e dar aos brasileiros que vivem nos Estados Unidos, mesmo ilegalmente, a possibilidade de reverter a decisão de deportação – o que muitas vezes acontece quando o cidadão tem filhos norte-americanos, uma estrutura familiar montada e às vezes até negócios.

Essa é a segunda medida tomada pelo governo brasileiro para facilitar a deportação, em concordância com pedidos do governo Trump. Como mostrou a Reuters em agosto, o governo emitiu um parecer autorizando a volta de brasileiros no país apenas com um atestado de nacionalidade.

Isso porque a lei brasileira proíbe a emissão de passaportes à revelia do cidadão, o que impedia o governo norte-americano de embarcar os deportados sem que eles se dispusessem a pedir um passaporte. No governo Temer, sob pressão dos EUA, foi feito um acordo para que os consulados emitissem o certificado em alguns casos, mas algumas empresas aéreas se recusavam a aceitar o documento até o parecer do governo brasileiro.

Os voos fretados, no entanto, eliminam também esse problema. Não há necessidade de documento para desembarque no Brasil.

O número de imigrantes brasileiros presos nos Estados Unidos tentando cruzar a fronteira pelo México aumentou mais de 10 vezes no último ano fiscal norte-americano (outubro de 2018 a setembro de 2019), chegando a 17.900, contra 1.500 no ano fiscal anterior. Em 2019, cerca de 850 mil pessoas de diversas nacionalidades foram presas tentando cruzar a fronteira dos EUA.

Fonte: G1