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Finais de junho de 1914, visualizando uma potencial expansão de seu poder, os nacionalistas sérvios liderados pelo coronel Dragutin Dimitrijević assassinam o arquiduque austríaco Franz Ferdinand (herdeiro do imperador austríaco Franz Joseph) e sua esposa Sophie, duquesa de Hohenberg. Esse é considerado o fato que detona as decisões e acontecimentos que iniciaram a Grande Guerra ou Primeira Guerra Mundial.

1917 é o penúltimo ano da guerra, que envolveu a grande maioria dos países europeus (incluindo a Rússia), o Oriente Médio, o Japão e outras regiões, além dos Estados Unidos. Os americanos se mantiveram neutros até abril desse ano. Após uma série de eventos, o presidente Woodrow Wilson declara guerra à Alemanha. A declaração presidencial de guerra foi formalizada logo após a Câmara dos Representantes aprová-la em 6 de abril.

Em 6 de abril de 1917, os EUA entram na guerra

O início do fim da guerra. Não fosse o ingresso dos ianques, é provável que o desfecho dela fosse diferente. Nada melhor que esse ponto de virada para marcar o início da aventura dos personagens principais, os cabos do exército britânico Blake (Dean-Charles Chapman – Game of Thrones) e Schofield (George MacKay – Capitão Fantástico). Blake é enviado em uma missão pelo General Erinmore (Colin Firth – O Discurso do Rei) para qual precisa escolher um companheiro. O selecionado é Schofield. Eles precisam levar uma mensagem ao Coronel Mackenzie (Benedict Cumberbatch – O Jogo da Imitação) que evitará uma batalha sangrenta e a perda de milhares de vidas (incluindo a do irmão mais velho de Blake, tenente Joseph Blake, o ator Richard Madden – Game of Thrones). Eles precisam correr contra o tempo, enfrentar os perigos de passar pelas linhas inimigas e as armadilhas deixadas pelos alemães.

O diretor Sam Mendes, que co-assina o roteiro, já mostrou sua capacidade de orquestrar uma obra de arte cinematográfica em filmes como Beleza Americana e Estrada para Perdição; além de ser capaz de executar perfeitamente roteiros no melhor estilo a jornada do herói como em 007 – Operação Skyfall e 007 Contra Spectre. Em 1917 ele combina essas suas duas habilidades de maneira primorosa. Faz mais, nos entrega isso com pitadas de reflexão filosófica. Se há algo de negativo a ser apontado, trata-se da pouca utilização de artistas do calibre de Firth e Cumberbatch.

A história é apresentada numa quase perfeita falsa tomada única. Apenas isso já justificaria a indicação de Sam ao Oscar de melhor diretor. Mas a maneira como ele consegue colocar arte nessa grande peça de entretenimento, o põe um patamar acima da mera justificação a uma indicação à estatueta.

Pitadas de reflexão filosófica

Desde a primeira cena, o filme vai entrelaçando as contradições humanas e o horror da guerra em meio ao bucólico. Já na primeira cena temos um vislumbre disso. Os soldados estão descansando em um bonito e calmo campo, em um clima de verdadeira paz. Nessa tranquilidade, alegria até, Blake e Schofield estão caminhando até o general enquanto o segundo entrega carta enviada a Blake pela família desse. Felicidade, saudade, compartilhamento … a vida se desenrolando normalmente no epicentro de uma trágica e enorme guerra. A guerra desumaniza o que é humano, torna heróico o trivial.

A elevação da tensão se dá com incrível naturalidade e torna o longa extremamente envolvente já nas primeiras cenas. Nesse sentido, destaca-se também a sincronia entre as cenas, a evolução do enredo, a trilha sonora e as expressões dos atores. Até a transição entre cenários demonstra essa crescente tensão. O trabalho de cenarizações é simplesmente impressionante. A reconstituição de um campo de guerra cheio de crateras causadas por bombardeios, as trincheiras, os corpos de soldados … soldados, estamos no meio da Primeira Guerra Mundial! O exercício de buscar imagens reais da guerra e comparar com algumas cenas é de arrepiar.

Um soldado britânico dentro de uma trincheira na frente ocidental durante a Primeira Guerra Mundial, 1914–18.
Hulton Archive/Getty Images

Sentados em nossas poltronas, em menos de duas horas, podemos refletir sobre como:

  • A confiança cega em um parceiro fiel pode ser o caminho para a salvação;
  • Na guerra muitas vezes nem a misericórdia nem a compaixão são suficientes para amainar um coração assassino;
  • É trágica a perda de um ente próximo jovem, ainda mais quando de uma maneira estúpida;
  • Mesmo em condição de fazer paz, alguns homens apenas querem lutar.

Mesmo em condição de fazer paz, alguns homens apenas querem lutar

Em meio ao caos e ao anonimato, homens que não controlam o lado mal da sua alma se aproveitam para cometer as maiores bestialidades guardadas no seu íntimo. Ainda assim, alguns, com toda a chance de se aproveitar de situações propícias, optam por controlar seu lado mau e se manterem moralmente corretos. A consciência da presença da maldade e da necessidade de controlá-la sempre. Esse é o mais forte norte do indivíduo moderado.

O ser humano com comportamento moral elevado, que põe imperativos morais categóricos acima dos seus desejos, é cumpridor de suas missões pacíficas e humanas. Essa pessoa visualiza a necessidade de fazer acontecer o melhor resultado para o conjunto de seus pares, para além do seu conforto. Assim é a natureza, que segue seu rumo sem forjar supremacias … com morte e sangue, de fato, mas no seu ciclo normal, indiferente à guerra humana por poder.

 

Marcos Pena Júnior é economista e escritor, mantém suas produções disponíveis em marcospenajr.com.

 

 

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