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“Acabou, p…” (Ou “O adeus de Sócrates”)

Jair Bolsonaro em vídeo conferência com o Presidente da Polônia. Foto: Marcos Corrêa/PR
(Brasília - DF, 27/05/2020) Presidente da República Jair Bolsonaro,participa de videoconferência com o senhor Andrzej Sebastian Duda, Presidente da Polônia.Foto: Marcos Corrêa/PR

Sócrates é considerado o pai da filosofia ocidental. Viveu no século V antes de Cristo e, embora tenha tido uma vida prolífica e de grandes contribuições para seus concidadãos, foi trágica e injustamente condenado por eles. Mas o que Sócrates fez de tão grave para ter sido processado e condenado por seus pares? Pensou. Isso mesmo, pensou. Mas não apenas isso, se incomodou que os demais não se esforçassem em raciocinar mais profundamente e os fustigava a fazê-lo. 

Ainda muito jovem – segundo o diálogo “Parmênides” de Platão, aos 29 anos -, Sócrates tem a oportunidade de conversar com o filósofo Parmênides sobre o que é de fato a existência (dito de forma mais cotidiana e sem filosofês). Esse parece ter sido um momento fundamental no estabelecimento de alguns dos alicerces do pensamento do mestre de Platão. Especificamente: nessa ocasião fica evidente para Sócrates a necessidade de se questionar profunda e exaustivamente, sob todos os ângulos, o objeto que se analisa; questionar mesmo aquilo que internamente acreditamos. Assim se busca a verdade.

Ensinamento profundo de Aristóteles: buscar sempre a moderação, o caminho do meio.

“Busca da verdade? Bobagem!”, diriam os mais relativistas. “A verdade é relativa”, afirmariam. Não vou entrar aqui na explicação da extrema contradição lógica da ideia e da própria afirmação (já o fiz em outro texto – “Fake news, verdade e absolutismo”, publicado no Diário de Pernambuco em 02 de janeiro de 2019). Também não se trata de alinhamento com os maniqueus: existe apenas bem e mal, preto ou branco. Do ponto de vista filosófico o maniqueísmo está superado; é estudado por uma questão tão somente de entendimento da tradição. Existem muitos aspectos a serem considerados e analisados qualquer que seja o objeto sob investigação. Isso quer dizer que entre dois extremos (bem e mal) existem muitas possibilidades e a verdade pode ser encontrada. Muito provavelmente estará “no meio”, entre os extremos. Ensinamento profundo de Aristóteles: buscar sempre a moderação, o caminho do meio.

Nossa sociedade tem, já há um tempo, se movido pela polarização. A campanha presidencial de 2018 é o maior exemplo e a prova inconteste disso. Mesmo hoje, em meio a tantos temas difíceis, em especial a pandemia pela qual passamos, assistimos a impressionantes e estarrecedores alinhamentos automáticos. De regras de isolamento social a procedimentos jurídicos definidos pelo Supremo Tribunal Federal o padrão é: é a meu favor, ótimo; é contrário, o inferno ao outro. Máxima da ciência política: política é a arte do possível. No Brasil atualmente, política é a arte de destruir, destroçar aquele que ouse me questionar, me contrariar minimamente. Os maniqueus salivam e se arrepiam. Pelos números de pesquisas de que dispomos, algo entre 65% e 70% da nossa população tem seu alinhamento automático definido, seja em um extremo ou em outro. Questionar profunda e exaustivamente, sob todos os ângulos, o objeto que analisamos é no Brasil de hoje motivo para condenação.

Estátua de Sócrates (Atenas, Grécia). Foto: Renata Sedmakova / Shutterstock.com

Estátua de Sócrates (Atenas, Grécia). Foto: Renata Sedmakova / Shutterstock.com

Sócrates chegou à conclusão de que era verdadeiramente sábio, porque ele sabia de uma coisa que os demais não: que nada sabia.

Em sua velhice, Sócrates foi tido pelo Oráculo de Delfos como o homem mais sábio da Grécia. Isso o deixou espantado, ele não concordou com essa afirmação, pois sabia que existiam muitos mais sábios que ele. Isso o fez procurar esses grandes de Atenas para provar que estes sim eram os mais sábios. Ocorre que ao questiona-los sobre seus conhecimentos nas áreas em que eram tidos como os maiores, descobriu que apenas detinham opiniões rasas e se achavam mais conhecedores do que de fato eram. Depois de vivida essa experiência, Sócrates chegou à conclusão de que era verdadeiramente sábio, porque ele sabia de uma coisa que os demais não: que nada sabia.

Deixando todas as nuances históricas e analíticas de lado, Sócrates foi condenado à morte por seus concidadãos porque causou muitos incômodos a pessoas poderosas, demonstrando que não eram o que alegavam ser. Aos setenta anos, com muito feito, mas com grandes contribuições que certamente ainda traria para a humanidade, Sócrates foi obrigado a tomar cicuta e encerrar seu ciclo entre os vivos. Espanta perceber que mais da metade da população brasileira está disposta a enviar inúmeros dos seus semelhantes às suas doses de cicuta.

Marcos Pena Júnior é economista e escritor, mantém suas produções disponíveis em marcospenajr.com.

Copyright © 2020, O Rondoniense, Marcos Pena Jr. Todos os direitos reservados.

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