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Amazônia bate novo recorde nos alertas de desmatamento em junho

Árvores caídas em área desmatada da Amazônia em Itaituba, no Pará — Foto: Ricardo Moraes/Reuters/Arquivo

A devastação da Amazônia registrou um aumento de 25% neste semestre em comparação ao primeiro semestre de 2019.  Já foram 1.034,4 km² de área sob alerta de desmatamento, somente no mês de  junho, recorde para o mês em toda a série história, que começou em 2015.

Os dados são do sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real (Deter), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), atualizados nesta sexta-feira (10).

Os alertas até junho de 2020 apontam:

  • sinais de devastação em 3.069,57 km² da Amazônia neste ano;
  • aumento de 25% de janeiro a junho, comparado ao mesmo período do ano anterior
  • aumento de 64% no acumulado dos últimos 11 meses, comparado ao período anterior (a um mês do fechamento oficial de desmatamento, alertas apontam tendência de aumento na devastação)
  • O número de junho é 10,6% maior do que o registrado no mesmo mês em 2019
  • Na comparação com maio, houve aumento de 24,31% em relação ao mesmo mês de 2019, que também havia sido recorde para o período.

Os dados servem de indicação às equipes de fiscalização sobre onde pode estar havendo crime ambiental. Os números não representam a taxa oficial de desmatamento, que é medida por outro sistema, divulgado uma vez ao ano.

Ministério Público Federal (MPF) está pedindo o afastamento do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, por crime de improbidade administrativa. De acordo com o MPF, há “desestruturação dolosa das estruturas de proteção ao meio ambiente”. Nesta quinta-feira (9), o vice-presidente Hamilton Mourão disse para investidores que o Brasil busca reduzir o desmatamento, mas os dados mostram aumento na tendência de desmate. Além disso, o Brasil enfrenta pressão de investidores estrangeiros para diminuir o desmatamento na Amazônia.

Risco de queimadas

Há uma segunda preocupação nos crimes ambientais na Amazônia: as queimadas.

Com tanta madeira cortada, a tendência é que o material seja incendiado para abrir espaço na floresta. Os dados do Programa Queimadas do Inpe já apontam aumento nos focos de incêndio, antes mesmo do período em que as queimadas são mais ativas na Amazônia, entre junho e setembro a outubro.

Em junho, os focos de queimadas no bioma foram os maiores para o mês nos últimos 13 anos, de acordo com o Inpe. Foram 2.248 focos ativos, um aumento de 19,6% em comparação com o mesmo mês no ano passado, com 1.880 focos.

De acordo com Carlos Rittl, Senior Fellow do Instituto de Estudos Avançados em Sustentabilidade de Potsdam da Alemanha, o que foi queimado em junho provavelmente foi desmatado em abril – em geral, são necessários dois meses para as madeiras e folhas secarem, já que a Amazônia é uma floresta úmida.

“Os números de desmatamento em junho são um bom indicador do que virá de queimadas nos próximos meses”, afirma Rittl.

Para Alberto Setzer, coordenador do programa de monitoramento de queimadas do Inpe, “90% de tudo que vai queimar está pela frente ainda.” “Se vai aumentar ou diminuir, depende de diversos fatores, como o clima e a fiscalização”, afirma Setzer.

“Mesmo que não se queime nenhum metro quadrado na atual temporada de fogo que vai até setembro – como espera o vice-presidente da República Hamilton Mourão ao propor novamente a moratória das queimadas na Amazônia Legal este ano –, o maior estrago já foi feito”, diz o diretor de Conservação e Restauração do WWF-Brasil, Edegar Rosa.

Combate ao crime ambiental

O Governo Federal divulgou este ano um plano nacional contra o desmatamento, com vigência até 2023. O documento, com 25 páginas, foi elaborado em cima de cinco eixos: tolerância zero ao desmatamento ilegal, regularização fundiária; ordenamento territorial; pagamentos por serviços ambientais; e bioeconomia.

Não há metas ou prazos claros.

Para os ambientalistas, o foco nestas ações poderia combater o crime ambiental. Em 2019, apenas 0,5% da área desmatada era legal, de acordo com Relatório Anual de Desmatamento do MapBiomas. Na mão de criminosos, a Amazônia perdeu por dia uma área equivalente 1,9 mil campos de futebol de floresta natural no ano passado, em média.

Enquanto o crime ocorre, as multas por desmatamento ilegal na Amazônia foram praticamente suspensas desde outubro de 2019, quando o governo estabeleceu que elas deveriam ser revistas em audiências de conciliação. Segundo a organização não-governamental Human Rights Watch, apenas cinco dessas audiências foram realizadas em todo o país desde então.

Sem fiscalização, pode haver aumento da grilagem. Um levantamento do Instituto Pesquisa Amazônia (Ipam) e da Universidade Federal do Pará (UFPA) indica que a Amazônia tem 23% de floresta em terras públicas não destinadas registradas ilegalmente como propriedades privadas. O percentual representa 11,6 milhões de hectares de florestas públicas “tomadas” ao longo de 21 anos (1997-2018). Ao todo, a Amazônia tem 49,8 milhões de hectares de florestas sem destinação.

A ONG HUman Rights Watch afirma que os desmatamento e as queimadas na Amazônia estão ligados a uma rede de criminosos que pagam por mão de obra, grandes maquinários como motosserras, tratores, correntes, caminhões, e por proteção de milícia armada contra quem tenta denunciar os crimes. Segundo a ONG, os criminosos ameaçam indígenas, agricultores, agentes públicos e até policiais.

Informações iniciais do G1 RO