Saúde

As coisas nunca começam grandes – Por Dani Moutinho

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As coisas nunca começam grandes, não é mesmo? Se fosse pra eu tirar uma lição do momento atual, ela seria essa: As coisas nunca começam grandes.

A louça na pia, por exemplo: não se materializam 50 copos, 35 garfos, 17 panelas, uma concha e um abridor de latas em um piscar de olhos na sua pia da cozinha! Os copos, os pratos, as panelas, se acumulam de forma pequena e gradativa… Um copo, um prato, um garfo, a faca… Dois copos, dois pratos, dois garfos… Sim, aos pouquinhos, a pequena quantidade de louça se acumula em uma bagunça maior… As coisas nunca começam grandes!

A quantidade de adipócitos corporais é outro exemplo tácito de coisas que ficam grandes aos poucos… Você não engorda 20kgs em 15 dias. Isso acontece aos pouquinhos, com a displicência, o cansaço e o acúmulo de tarefas das quais, lá no fundo, você sabe que poderia delegar. As coisas nunca começam grandes… E quando você vê, o que está grande é sua pança, seu braço, sua coxa…

O amor… Está ai outro exemplo de coisa que não começam grandes! Esse sentimento…  Não aparece de forma hollywoodiana às 17 da tarde de uma segunda feira monótona e sem graça, em que você almoça chuchu com ovo, te deixando sem ar quando aquele cara esbarra em você e derruba suas coisas. Ele começa pequeno.

Você começa a conversar, conviver mais, a admirar mais as qualidades, preocupar-se com o bem estar… Gosta da forma que a pessoa fala palavras aleatórias, tipo “sensacional” ou o jeito que ela vaga entre os assuntos mais diversos te fazendo refletir sobre coisas que você não conseguiria só… A forma que ela te faz rir ate quase chorar com referências que acabam tornando-se únicas… Quando vê, se pega pensando nela às duas da tarde enquanto tenta se concentrar para o trabalho e uma mensagem de “comeu?” te faz sorrir feito idiota. Você se pega projetando coisas e morre de medo de sofrer e ‘dar merda’.  e se não for recíproco, se for unilateral…

Você tenta procurar razões pra desistir, mas, a vontade de estar perto, que antes era bem pequenininha, toma proporções maiores e você resolve se entregar.

As coisas nunca começam grandes… Mas aumentam com o tempo

E foi assim que, esse negócio, que mais parece uma couve-flor com mania de grandeza, começou. Como algo pequeno, muito pequeno. Algo que eu sequer consegui perceber. Assim como meus adipócitos, esse carocinho cresceu. Apareceu marotamente ao lado externo do meu seio direito e, acredite, não foi muito agradável percebe-lo. As coisas nunca começam grandes não é?

O tratamento desse corpo estranho também teve início de uma forma pequena. Um corte pequeno, uma amostra citológica pequena, uma expectativa pequena… As coisas começam pequenas, mas isso não quer dizer que permanecem pequenas…

Mais exames, mais medicações, maiores expectativas… E aquilo que começou como um mini brócolis em fim de feira, tomou proporções maiores quando a medicação passou a ser diária, quando houve a necessidade de exames mais específicos e uma famigerada pulsão lombar. Uma dor aguda indescritível. Creio que, se houvesse uma forma de descrever a dor de uma furadeira em suas costas, essa seria a sensação desse exame. Não, acho que talvez eu fosse preferir a furadeira.

Nada começa grande…

Troquei a medicação e, algo que era pequeno, foi crescendo: meu medo. Agulhas pequenas ficaram maiores, enjoos que durava pouco permaneciam pelo dia inteiro… Cãibras apareceram e a dor de cabeça, antes pequena, aumentou de forma substancial.

O fim previsto para o tratamento foi adiado e, como nada começa grande, a medicação, antes em doses menores, teve sua quantidade aumentada. Sendo assim, como era de se esperar, os sintomas também… Mais enjoos, mais vômitos… A dor de cabeça, que antes já incomodava, aumentou de forma homérica e exponencial junto com uma falta de ar difícil de lidar. Você já teve cãibra no pescoço? Pois é, isso é uma Merda!

Nada começa grande… E o medo, que no início era pequeno, hoje ocupa grande parte dos meus pensamentos. Junto com ele, alguns sentimentos oportunistas teimam em fazer morada por aqui: frustração, insuficiência, desânimo e uma leve tristeza. Descobri que tenho um estoque infinito de lágrimas…

O tratamento não dá certo com todo mundo. E eu, que insisto sempre que as pessoas são diferentes em atos, sentimentos e ações… Eu, que acredito tanto que as pessoas podem ser completas e felizes, que acredito que existe plenitude no carinho, no amor e nas parcerias que fazemos me pego duvidando de tantas coisas…

Nada começa grande… E assim, eu alimento uma plantinha de esperança que insiste, de forma resiliente, em permanecer, de mãos dadas com a ternura, num cantinho do meu coração.

E como as coisas começam pequenas e, de forma despercebida, crescem torço para que a esperança cresça, consiga aplacar o medo e que, no fim dessa jornada, eu perceba que foi só uma brisa, e não uma tempestade.

 

Daniele Moutinho
Daniele Moutinho
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