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As tentativas de construção da Estrada de Ferro Madeira Mamoré – Por Rita Vieira

Tudo começou com a Guerra do Pacífico (1850 – 1865), conflito imperialista ocorrido na América do Sul, entre Chile e Bolívia, o Chile com sua política imperialista de crescimento territorial, tomou militarmente da Bolívia o canal de Antofagasta, sua única saída para o mar, dificultando o escoamento da produção de borracha boliviana para os países industrializados do além mar.

Uma tentativa de resolução harmoniosa para o problema, foi assinar com o Brasil, em 1867, o Tratado de Ayacucho ou Tratado da Amizade, em que o Brasil permitia o escoamento da produção de borracha boliviana por dentro de seu território, até alcançar o mar e ser exportada. Para tanto o governo da Bolívia se responsabilizaria pela construção de uma hidrovia ou ferrovia que superasse os trechos encachoeirados do rio madeira.

Após uma vistoria de caráter duvidoso ao local, o projeto da ferrovia venceu e deu-se início a grande saga de tentativas de construção da EFMM, lideras e coordenadas pelo Governo Boliviano, que contratou o Coronel Georg Earl Churchill para liderar a obra, o mesmo cria a Madeira Mamoré Railway Company, para conseguir empréstimos na bolsa de valores em Londres e promover as licitações. A primeira empresa a aceitar o desafio de construir um gigante de ferro na selva amazônica foi a Public Works, mesma empresa responsável pelos laudos de viabilidade da obra; A empreiteira chegou a montar acampamento em Santo Antônio (que seria o ponto inicial da obra) e após muitos adoecimentos na equipe de obra e insalubridade do local, abandonaram o acampamento.

A Public Works processou a Madeira Mamoré Railway Company, mas, Churchill não desistiu, já providenciando a contratação de uma nova empreiteira a Dorsay & Cadwell, que antes de mandar toda a equipe para Santo Antônio resolveu averiguar a real situação do local, enviando apenas um pequeno grupo, enquanto o restante do pessoal esperava em Manaus. Com a morte de um trabalhador que foi enviado à fiscalização em Santo Antônio, a empreiteira desistiu da obra e de Manaus mesmo deu meia volta.

Em 1875, ainda com esperanças, Churchill tenta contratar mais uma empreiteira inglesa, a Red & Brothers Company, que devido aos processos enfrentados pela Madeira Mamoré Railway Company, desistiu antes mesmo da assinatura do contrato. Mesmo desiludido, Churchill não desistiu e partiu para sua terra natal, os Estados Unidos da América, local em que conseguiu encontrar uma empresa que acreditou em seu projeto.

A quarta e última tentativa de construção foi realizada pela empreiteira norte-americana P&T Collins, dos irmãos Phill e Thomas Collins. Chegaram em Santo Antônio em 1878, iniciando os trabalhos com investimentos próprios, na esperança de receberem da Madeira Mamoré Railway Company todo o investimento ao final da obra.

A P&T Collins foi a que mais avançou e deixou trabalhos efetivos reais para a construção, abriram 9 km de trilhas, instalaram 7 km de trilhos (de Santo Antônio à Porto Velho), colocaram a primeira locomotiva para andar nos trilhos (máquina 12 – Coronel Churchill), mesmo com ela tombando na primeira curva acentuada do percurso. Conta a História que o Casarão de Santo Antônio foi construído para abrigar a família dos empreiteiros, que vieram para cá em 3: Phill, Thomas e sua esposa Mary.

Assim como as outras empresas a P&T Collins não teve um final feliz, os irmão, construtores gastaram tudo que tinham, retornaram aos Estados Unidos em busca de novos recursos financeiros, não conseguiram nada, morreram mendicantes. A esposa de um deles ficou na região, esperando o retorno do marido e do cunhado que jamais voltaram para buscá-la. Mary Collins é a personagem principal da lenda de “Maria Louca”, pois conta-se no mito que a mesma caminhava pelos trilhos todos os dias, de Santo Antônio à Porto Velho, esperando o retorno do marido.

Rita Vieira

Formada em História pela Universidade Federal de Rondônia (Unir), professora de História na Escola João Bento da Costa e Medquim Vestibulares, especialista em Segurança Pública e Direitos Humanos, além de estudiosa e pesquisadora da História Regional.

Contato: ritaclaravieira@gmail.com