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Até quando Jair? – Por Edmilson da Silva

Entrada na OCDE é buscada pelo governo Bolsonaro desde o início, mas agora queda de um de seus principais ministros pode trazer mais dificuldades — Foto: Evaristo Sa/AFP

No final do ano de 2007 na cidade de Santiago do Chile, durante a realização da XVII Conferência Ibero-Americana, o então Presidente da Venezuela Hugo Chaves interrompia constantemente a fala do Rei João Carlos da Espanha, criticando as suas palavras, enquanto este discursava. Em um determinado momento, incomodado com o comportamento de Chaves, o Rei perdeu a paciência e a compostura inerente a um chefe de Estado da sua magnitude e bradou: “¿Por qué no te callas?” (Porque não te calas?).
No Brasil de hoje, vivemos uma experiência parecida e constantemente somos surpreendidos por aquela vontade enorme de repetir a mesma frase em alto em bom som. No entanto, desde que caímos no conto da mamadeira de piroca, adotamos uma inércia inexplicável e preferimos a conivência à reação. Tal fenômeno, talvez tenha explicação na nossa escolha consciente, já que as famosas frases do nosso atual Presidente são conhecidas desde antes da campanha presidencial de 2018, quando era ainda mero integrante do baixo clero.
Sempre que profere as suas grosserias, Bolsonaro provoca reações exacerbadas de entidades civis, políticas e eclesiásticas. Mas nada o incomoda, visto que as falas parecem provocar apenas uma mera expressão de desapontamento sem colocar em risco o decoro do cargo, o respeito à Constituição Federal, as leis e as instituições e, sobretudo, a nossa soberania.
Assim, me pergunto, até onde vai a audácia do Bolsonaro ou a covardia dessas entidades e de toda sociedade? Estamos a toda hora sendo “chacotados” no mundo inteiro que parece também se incomodar com a verborragia do nosso mandatário e muito mais com a nossa paciência.
E pensar que em 2016, por muito menos, retiramos do poder uma presidente legitimamente eleita dando margem ao discurso da esquerda de que foi uma das maiores farsas políticas da nossa história. Atribuiu-se um crime de responsabilidade há uma prática corriqueira de governos anteriores e legalizada logo após o impeachment para uso por governos posteriores comprovando a tão propalada tese de golpe, reconhecido posteriormente até pelos seus mentores.
Apesar de tudo, as eleições municipais nos trouxe uma luz. Dos doze candidatos das capitais apoiado explicitamente por Bolsonaro, com live e tudo, apenas quatro se reelegeram ou foram para o segundo turno. A manifestação popular, por meio das urnas, talvez seja o caminho natural para o fim do extremismo de direita e de esquerda. A meu ver, também é o mais legítimo. O povo coloca, o povo tira.
Agora, com os resultados pífios da eleição, os bolsonaristas podem ter ligado o alerta e é possível uma mudança de comportamento no sentido de amenizar o discurso e resgatar o poder de fogo avassalador demonstrado nas urnas em 2018. Além da perda do apoio popular evidenciado nas eleições, o Bolsonaro enfrenta desconforto também entre os militares, o seu principal pilar de sustentação. Mantendo ou não o seu discurso agressivo, é certo que, com os resultados das investigações em torno de sua família, pelo Ministério Público do Rio de Janeiro, pelo menos uma frase não vai mais ser repetida. “Bandido bom, é bandido morto”.

José Edmilson da Silva é Engenheiro Agrônomo, Bacharel em Direito, Professor e Servidor Público Federal