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Até que ponto é justa a inclusão de trans no esporte feminino

Há muito tempo o vôlei brasileiro não desafiava tabus com tanta intensidade.

Desde 2000, quando o ponteiro e oposto Lilico deu uma entrevista incendiária, dizendo que ficou fora da Olimpíada de Sydney por ter assumido sua homossexualidade, não se via uma polêmica tão acentuada. Desde dezembro, quando estreou na Superliga pelo Vôlei Bauru, a ponteira transexual Tifanny tem sido notícia e um prato cheio para quem adora se envolver em guerras nas mídias sociais.

A comunidade LGBT abraçou a jogadora, alçada à condição de símbolo. Nas quadras, Tifanny, que disputou a Superliga B masculina pelo Foz de Iguaçu e Juiz de Fora quando ainda era conhecida como Pará (Rodrigo Pereira de Abreu), tem feito estragos.

Na média de pontos por set, soma 5, deixando para trás Tandara (4,91), do Osasco e da seleção brasileira, conhecida pela potência de seus ataques, e se situa em primeiro lugar nessa estatística.

São Paulo, SP 11/12/2017 TIFANNY ABREU – Jogadora Trans do time feminino Volei Bauru. Foto: Leo Martins

Por ter nascido homem e, em tese ser mais forte do que suas adversárias, Tifanny levaria vantagem? O Comitê Olímpico Internacional não exige a cirurgia de mudança de sexo (à qual Tifanny se submeteu) para dar seu aval à participação de transexuais em competições femininas. Basta que o nível de testosterona se limite a 10 nanomols por litro de sangue. O índice de Tifanny é 0,2 nanomol/litro.

Tifanny tem 34 anos, e realizou a cirurgia de mudança de sexo há seis anos. Ingere progesterona e um bloqueador de testosterona, uma cautela que adota, mesmo sem produzir mais o hormônio.

Ao se submeter ao tratamento, Tifanny efetivamente perdeu parte da velocidade, força e resistência que tinha antes. Mas ela deixou de ser Pará quando estava perto dos 30 anos. A musculatura, a ossatura, pulmões e coração foram construídos com hormônio masculino.

Ouvimos o professor de Educação Física e personal trainer Henrique Gavini de Freitas, profissional graduado pela Unicamp com pós-graduação em Treinamento Desportivo de Alto Rendimento no NAR-SP e em Bioquímica, Fisiologia, Treinamento e Nutrição pela Unicamp, sobre o assunto.

“Biologicamente ela leva vantagem sim. O vôlei é uma modalidade de força e potência. O que é determinante para isso é a quantidades de fibras musculares tipo II e IX que os homens têm a mais que as mulheres. Isso não muda com mais ou menos testosterona.

Outra coisa: na época em que ela era JOGADOR, treinou com níveis de concentração de testosterona muito superiores aos das mulheres. Isso com certeza favoreceu a construção do sistema muscular e também a capacidade de Recrutamento de Unidades Motoras de força e potência. Isso tudo sem contar a estatura. Ela é mais alta do que a média das jogadoras” – Tifanny mede 1,94m.

Obviamente, quanto mais tarde for feita a cirurgia, maior será o benefício proporcionado pela testosterona ao corpo. A massa muscular, a quantidade de células vermelhas do sangue e o tamanho do coração serão maiores em comparação aos de um transexual que tenha se submetido à cirurgia na adolescência, digamos.

Também professor de Educação Física, mas com carreira mais voltada aos aspectos pedagógicos, Pedro Xavier Russo Bonetto, bacharel e licenciado pela Escola de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo (EEFE-USP) e mestre em Educação pela Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (FE-USP), não entra na seara fisiológica. “Em relação à atividade hormonal, fisiologia, sou incapaz de avaliar o caso da atleta.

Aliás, acho que tem muita gente opinando, às vezes de forma leviana e preconceituosa, às vezes sem contar a complexidade envolvida. De fato, as pessoas trans existem (sempre existiram) e precisam ser incluídas e tratadas com dignidade em todas as atividades sociais da vida cotidiana. Não pode ser diferente no esporte de alto rendimento.

O esporte como fenômeno cultural é altamente especializado em categorizar e hierarquizar os seres humanos. Vejamos, por exemplo, as categorias de gênero (masculino/feminino), idade (sub-10, sub-15, juvenil, sub-21, etc), nacionalidade, habilidade (amador/profissional), pessoas com deficiências no esporte adaptado, entre outras.

Discordo da ex-jogadora Ana Paula, que escreveu que biologia não é algo político. Podemos sim abordar a questão tomando estas categorias como construções discursivas da nossa cultura, portanto arbitrárias e provisórias. Vez ou outra nós nos deparamos com essas arbitrariedades sem saber como lidar.

Isso já aconteceu em relação à nacionalidade de diversos atletas quando lançam mão dos procedimentos de ‘naturalização’ ou quando alteram a idade, os famosos ‘gatos’. O que estamos vendo no caso da jogadora Tifanny é um deslocamento inesperado pela burocracia esportiva das categorias de gênero. Certamente, é nobre por parte das instituições esportivas, federações e confederações admitir a atleta.

Também é nobre a categorização do esporte para que pessoas possam competir com mais equidade de chances. Deste modo, penso que é necessário ampliar o debate, observar o ‘efeito’ Tifanny e utilizá-lo como aprendizado em relação a preocupações caras ao esporte contemporâneo: inclusão versus participação equitativa”.

Antes de voltar ao Brasil, Tifanny começou a carreira no vôlei feminino na Itália. Como homem, atuou em Portugal, Indonésia, Espanha, França, Holanda e Bélgica. Após concluir a segunda cirurgia de mudança de sexo, quando finalmente seus testículos foram retirados, ela estreou como mulher pelo Palmi, no sul da Itália, na região de Reggio Calabria, pela segundona da Bota, a A-2.

Na terra da linguiça calabresa, Tifanny anotou 28 pontos numa partida contra o Brescia. Arrancou aplausos do público e comentários indignados do diretor da equipe adversária. “O que aconteceria se pegássemos três trans para disputar o campeonato feminino? Seríamos campeões, mas isso não está certo”, protestou o dirigente Emanuele Catania. “Há vídeos que mostram que Tifanny carrega o dobro do peso que a média. Seu DNA continua masculino”, acrescentou.

Em sua coluna diária no jornal Correio Popular, de Campinas, o jornalista Carlo Carcani apresentou argumentos que se somam aos divulgados por Ana Paula, medalhista olímpica pela seleção brasileira, nas mídias sociais. “Se a preocupação é com a inclusão e o preconceito, então as federações devem criar ligas trans. Permitir que homens lutem, joguem e corram com mulheres é uma decisão extremamente prejudicial ao esporte e às mulheres”.

De qualquer forma, Bonetto, que leciona, tem observado um avanço na forma como os estudantes lidam com questões de gênero. “Em quase todas as escolas em que já lecionei, tivemos alunos e alunas trans. É um fato bastante comentado por todos, mas cada vez mais vejo as pessoas tratando com mais carinho, respeito e naturalidade.

No ano de 2017, por exemplo, uma aluna do oitavo ano do fundamental saiu de recesso no meio do ano. Ao voltar, estava usando roupas socialmente atribuídas ao gênero masculino, havia cortado o cabelo e pedia para que todos o tratassem como menino.

Foi muito curioso, mas víamos no rosto da pessoa um ar de alívio e satisfação. Também é interessante notar, posso dizer pelas vezes em que vivenciei isso, os próprios colegas entendem a situação muito melhor do que os próprios adultos”.

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