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Boneco do “Supermoro” perde pressão

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O ministro Sergio Moro disse ao Supremo que nunca determinou a destruição do material colhido no depoimento dos hackers presos pela Federal. Deveria ter ficado por aí, pois ele realmente jamais poderia ter mandado destruir coisa alguma. Legalmente, claro, coisa para a qual, no entanto, ele parece não dar muita bola.

Moro resolveu, porém, ir adiante, para dizer que tudo não passou de um mal entendido. Negou que nunca tivesse anunciado isso para autoridades que, segundo ele próprio, tiveram os telefones invadidos pelos hackers – entre elas o próprio Bolsonaro. E que jamais houve qualquer tentativa de tranquilizá-los com a promessa de destruição do conteúdo.

Então não? Que o presidente possa ter entendido mal é até compreensível, considerando-se que sua excelência demonstra entender apenas o que quer. Especialmente quando lhe convém. Ou não entende coisa alguma. Mas Moro sugeriu que mais pessoas, entre elas o ministro João Otávio Noronha, presidente do STJ, também entenderam errado.

Nessa toada, estariam igualmente acometidos de algum mal que compromete a capacidade cognitiva e precariza o entendimento o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, e a procuradora-geral da República, Raquel Dodge? Todos ao mesmo tempo teriam entendido mal?

Consta que todos eles foram “tranquilizados” pelos telefonemas do ministro, para anunciar o que não poderia saber e prometer o que não poderia realizar. O ministro Otávio Noronha distribuiu inclusive nota sobre o assunto, para dizer que “O ministro Moro informou durante a ligação que o material obtido vai ser descartado para não devassar a intimidade de ninguém”. E assegurar que nada teme.

Na verdade, uma explicação mais verossímil ronda a cabeça do blogueiro. Pode-se especular que Moro, acuado pelas denúncias do Intercept Brasil, teria visto, na prisão dos hackers uma oportunidade para se blindar dos acontecimentos. Informaria às autoridades que todas haviam sido hackeadas e prometeria destruir provas eventualmente comprometedoras.

Um blefe, partido da premissa de todos teriam sujeiras escondidas sob o tapete. Seria uma bela forma de granjear simpatia e gratidão. Além, claro, de temor, pois ninguém poderia garantir que ele teria realmente destruído alguma coisa. Foi por esse caminho que Antônio Carlos Magalhães construiu a fama de poderoso e a alcunha de “Toninho Malvadeza”.  

Foi, aliás, por esse caminho que John Edgar Hoover  construiu sua carreira e permaneceu no comando do FBI por 48 anos. Virou até filme. Quanto ao falecido senador baiano, ele matreiramente jamais negou ou confirmou a história. Mas beneficiou-se por décadas do poder que ela lhe atribuía. Todo o mundo político acreditava que ele possuía um arquivo com dossiês sobre cada autoridade de alguma relevância no país.

Isso lhe deu imenso poder, somente implodido por Itamar Franco. ACM blefou ao desafiar o então presidente Itamar Franco, no episódio em que tentou salvar o Banco Econômico. Pediu que Itamar o recebesse, pois iria apresentar documentos “sobre quem e onde se estava roubando o dinheiro público” em seu governo.

Itamar aceitou o desafio, mas convidou o então ministro da Justiça, Mauricio Correa, para testemunhar o encontro. E chamou também os jornalistas que cobriam o Palácio do Planalto. Malvadeza também montou o próprio circo. Atravessou à pé a praça dos três poderes, acompanhado por um grupo de fiéis seguidores.

Mas quando percebeu a armadilha tentou esquivar-se, mas acabou forçado a abrir a pasta que trazia. Continha apenas recortes de jornais, sem qualquer documento, nenhuma das provas que havia anunciado. A imprensa fez a festa ao perceber que o velho leão era manso. E acabou aí a fama de “Toninho Malvadeza”.

Se foi esse o jogo do ministro Sérgio Moro então sua biografia está seria e comprovadamente comprometida. Se as autoridades para as quais ligou para “tranqüilizá-las” em relação aos hackers realmente têm algo a esconder, possuem também coragem de sobra para enfrentar eventuais escândalos. Por isso resolveram pagar para ver, sob pena de ficarem eternamente reféns do ex-juiz.  

Apesar das sucessivas derrotas, o ministro imagina que o jogo ainda está na mesa. Mas é claro o enfraquecimento do apoio de Bolsonaro, a quem precisou confrontar em público para dizer que o pacote anticrime não é um projeto dele, mas do governo. O presidente então sugeriu que ele o deixe de lado “para não prejudicar o andamento de pautas mais importantes”.

O certo é que o boneco do “Supermoro” está murchando por inúmeros furos, embora considerável parcela do público se mostra disposta a mantê-lo inflado. Foi o caso de meus amigos Domingos Silva e Dimarcy Oliveira, que o defenderam briosa, mas equivocadamente, à mesa generosamente abastecida no banquete oferecido pelo casal Maydecy – Homero Scheidt, no sábado. Meus amigos, no entanto, podem alegar que foi um mal entendido. Eu acredito.

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