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CLÁSSICO – Sombras e neblina na alma de Gypo Nolan – Por Humberto Oliveira

Vivido brilhantemente por Victor McLaglen, Gypo Nolan é o personagem principal do clássico O delator, longa metragem dirigido por John Ford em 1935. Influenciado por diretores como Murnau, Ford realizou um filme feito de sombras e neblina, um drama expressionista sobre traição, inveja e ambição.

Produzido pela RKO, O delator não foi bem recebido pelos executivos do estúdio, mas crítica e público souberam dar o devido valor ao longa vencedor de nada menos que quatro Oscar. Melhor diretor para Ford e melhor ator para McLaren, entre eles.

Feito com baixo orçamento, John Ford contou apenas com algumas fachadas para construir sua Irlanda, onde a história transcorre em apenas uma noite. O diretor usou de toda criatividade para esconder os parcos cenários utilizando sombras e muita neblina, na verdade uma metáfora do estado da alma do mentiroso e traidor Gypo Nolan, que entrega o amigo Frankie McPhilip, acusado de assassinato e perseguido pelo exército inglês. Gypo o trai por 20 libras, o valor da recompensa estipulada num cartaz encontrado por Nolan. A princípio, ele o rasga, mas o vento o faz rolar pela rua e ironicamente, como um presságio, fica colado nas suas pernas.

McPhilip o encontra num restaurante e diz que vai visitar a mãe. Essa é a deixa para a ambição de Gypo falar mais alto que sua amizade e lealdade. Soldados invadem a casa e um confronto acontece. McPhilip reage, porém, encurralado, acaba metralhado. Seu delator está na delegacia quando o telefone toca. É a notícia da morte do fugitivo. São sequências impressionantes e cheias de significados. A alusão a Judas Iscariotes é óbvia, inclusive ao ser pago, nenhum dos policiais pega no dinheiro e um deles até o afasta na direção de Nolan com uma vara. Até para eles aquele dinheiro é sujo.

Encurralado pelo arrependimento e remorso, Gypo Nolan, começa a agir de forma estranha e isso acaba fazendo as pessoas desconfiarem dele, principalmente ao aparecer com alta quantia. O desfecho trágico é inevitável.

As imagens noturnas e dominadas pela neblina dão ao filme uma textura estilizada, próxima do expressionismo alemão. A carga dramática e moral é extremamente pesada para Nolan, que segue cada vez emaranhado por suas mentiras e contradições. Embriagado e cada vez mais violento, o delator enxerga o mesmo em cada pessoa.

Soberba direção de John Ford, famoso pela realização de faroestes, alcançou a consagração e reconhecimento de seu talento. Com O delator, Ford ganhou o primeiro dos quatro Oscar de sua carreira. Venceu também por Como era verde o meu vale, seguido por Vinhas da ira e Depois do vendaval. Por ironia, nenhum faroeste, seu gênero favorito.

Como em M, o vampiro de Dusseldorf, de Fritz Lang, em O delator também há um julgamento. Gypo confessa, mas alega não saber o que fazia. Em M, um cego identifica o assassino de crianças. No filme de Ford um cego também denuncia Gypo e a organização o sentencia a morte. Ele foge e se refugia na casa da namorada, a prostituta Katie, que implora pela vida dele. No clímax do filme, baleado por um dos seus algozes, ele corre para uma igreja onde a mãe do amigo traído reza, Gypo confessa e pede perdão, a mãe de McPhilip o perdoa. Gypo olha para uma estátua de Jesus crucificado e grito – McPhilip sua mãe me perdoou. E cai morto. A morte é a única redenção possível, pois não existe perdão para seu crime.

TRAILER: