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Covid-19: Hospitais de Campanha ou investir na rede de saúde existente?

Desde que me entendo por gente sempre ouvi falar da precariedade dos hospitais públicos, da deficiência dos sistemas de saúde nacionais que se sucederam, tais como INANPS, INPS, INSS, outros e agora o SUS, tudo relativo ao atendimento de saúde ao cidadão brasileiro, incansável nas filas de atendimento, largados nos corredores de hospitais, morrendo por falta de medicamentos, de equipamentos ou de médicos ou, ainda, por falta de ambulâncias para o transporte de doentes e acidentados.

Agora, devido à pandemia do Coronavírus (COVID 19) foi encontrada a solução mágica para resolver esse grande mal da saúde brasileira e do mundo. Foram previstos mais de uma centena de Hospitais de Campanha pelo Brasil, num custo de centenas de milhões de reais. Intencionalmente não falei em investimento, mas “custo”, pois ao término da fase grave da pandemia eles passarão a ser ociosos e em seguida serão desmontados. Ou seja, os recursos virarão pó.

Por outro lado, milhões de reais foram gastos na aquisição de equipamentos e insumos para o funcionamento desses nosocômios temporários, em vez de se equipar a rede de saúde instalada nos mnicipios e estados. Considerando ainda os superfaturamentos de contratos, as compras realizadas em empresas comprovadamente suspeitas ou incompetentes e aquisições que não chegaram e nunca chegarão, foi muito dinheiro destinado ao atendimento imediato da população brasileira para fazer frente a esse terrível desastre da humanidade. Tudo isso amparado em situação extraordinária de “estado de emergência”, com facilidades e flexibilidades nos processos de aquisição, terreno fértil para os malandros e para a corrupção, conforme casos que já aparecem em alguns estados da federação e que ilustram o noticiário nacional.

Para não ficar sem referência nessas aparentes ilações, cito o estado do Rio de Janeiro que contratou quase uma dezena de hospitais temporários e até final do mês passado apenas um estava funcionando, precariamente, depois de praticamente quatro meses de pandemia, quando a famigerada curva da doença ainda está ascendente.

São milhões de reais gastos para atender essa emergência nacional; porém mais outros tantos serão necessários para realizar o devido “retrofit”, ações para recuperar os espaços utilizados e torná-los operacionais para os fins a que se destinam, como é o caso dos estádios de futebol. Dito de outra forma: jogar dinheiro fora.

Não tenho dúvida que o montante de recursos destinados à construção desses hospitais mais o necessário para equipá-los em material e pessoal, teriam um destino muito mais nobre e eficiente caso fossem direcionados para melhorar a logística e o sistema já existente, recuperando instalações, ativando alas e leitos abandonados para atenderem a especificidade do momento, contratando pessoal especializado; enfim, para operacionalizar a rede hospitalar que hoje atende com evidente precariedade e deficiência.

Tenho a convicção que o legado desse flagelo que aflige o País de norte a sul seria extremamente positivo depois de passada a situação emergencial, proporcionando muito melhores condições de atendimento à saúde do povo brasileiro que nesta área, sofre secularmente com o abandono de nossa sistema de saúde, dos três níveis governamentais, e pela permanente insuficiência de recursos para a sua operacionalidade plena.

Porque não destinar esse montante de recursos para recuperar a rede hospitalar existente? Como disse, seria um belo legado.

Basta de hipocrisia e desperdício.

 

Milton Córdova Júnior
OAB/DF 22.899