Cultura Destaques Especiais Videos

DIA INTERNACIONAL DA MULHER – Mãe, sempre reverenciar Patrícia e as mulheres que amam a revolução – Por Marcos Souza

Eu pensei em algo especial para esse dia tão importante no calendário, porém eu convivo com mulheres fortes, sempre fui rodeado por elas, as melhores são as que discutem, partilham e debatem assuntos, teimam te olham nos olhos e parece vir àquela questão que só eu penso: “e aí?”, e não existe coisa melhor que lembrar delas em flashes de convívio ou através de um mosaico de memórias.

Eu observo desde a minha criação por uma mulher que de mãe, Iza Gomes, virou empresária – alguém vai lembrar de Casa das Noivas e Iza Atelier das Noivas -, evangélica, esposa devotada e fã de Jovem Guarda e Beatles, que desde criança me fez gostar de música e rock (sim, quebrando precedente nos anos 70), ouvindo muitas trilhas internacionais de novela, disco dos Beatles, Roberto Carlos, Erasmo Carlos.

Mamãe Iza

Mulher de pulso firme, a verdadeira dona DA casa (não “de casa”), que me orientou a ser educado, respeitar as mulheres e principalmente a ouvir.

O mérito disso tudo além da criação que segui a risca, ainda que a vida nos leve a cometer os deslizes de aprendizado, é OUVIR. Ouça as mulheres, entenda, compreenda e veja o que é possível ensinar e aprender. Relações funcionam melhor assim, seja fraternal ou amorosa. É o óbvio, não adianta discutir a razão e quem manda, mas chegar a um ponto de conciliação para se viver bem, respeitando os espaços e a individualidade de cada um.

Nessa data o que eu mais leio e vejo publicado nos sites de notícias e comportamento é o empoderamento feminino, o crescimento no mercado de trabalho com mulheres que sobressaem mais que os homens em áreas importantes, seja na área administrativa ou econômica. Mas, além disso, são mulheres que impõe ritmo a essa nova era de instantaneidade virtual e objetividade nos relacionamentos.

E eu vejo também nas mesmas páginas a violência, a máscara que cai de muitos homens que não aceitam o confrontamento linear feminino diante dos direitos delas, da vida delas e o fato de que elas para eles devem ser subjugadas ou submissas a relacionamentos impulsivos, agressivos e virulentos, como ainda ocorrem nas devidas proporções entre as classes sociais.

Para ter uma ideia o percentual de mulheres agredidas por ex-companheiros subiu de 13% para 37% entre 2011 e 2019, incluindo situações em que os agressores eram ex-maridos e também ex-namorados no momento do ataque.

Esses números representam um aumento de 284% desses casos. Os dados são da 8ª edição da Pesquisa Nacional sobre Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher, realizada pelo Instituto de Pesquisa Data Senado em parceria com o Observatório da Mulher contra a Violência.

Mesmo diante de conquistas claras das mulheres, muitas independentes, de sucesso em suas carreiras, o machismo latente ainda perturba esses tempos modernos, e horizonte ainda é obscuro.

O dia internacional da mulher é uma conquista soberana desde que em 1975 foi instituída essa data comemorativa, mas vale ressaltar que não é de comemoração, a meu ver, mas representa uma celebração do feminino como um dia de protesto por lutar por mais direitos – além dos conquistados – e permanecer o respeito pelas suas escolhas e a busca de sempre revolucionar.

 

E PATRÍCIA…

Eu poderia citar tantas mulheres que lutaram, revolucionaram e buscaram representatividade diante do machismo, de períodos soturnos e que moldaram e modificaram a história do poder feminino e suas conquistas.

Mas eu vou citar a Patrícia, Patrícia Galvão, a Pagu, que é uma das mulheres que eu mais admiro. Ela tem uma história singular no Brasil e deixou marcas profundas não só por ser a primeira mulher a ser presa por motivos políticos, ela era militante do partido comunista brasileiro. E olha que foram 23 prisões sofridas em toda a sua vida. Isso bem antes do período da ditadura militar.

Esse ano se comemora 110 anos de seu nascimento. Escritora, poeta, tradutora, desenhista, jornalista e militante política, seu primeiro romance, “Parque Industrial”, retratava a desigualdade em uma cidade grande e os excluídos da sociedade paulistana, forte para época, tanto que ela teve que utilizar um pseudônimo, Mara Lobo.

Foi casada com o escritor Oswald de Andrade e era muito amiga da artista plástica Tarsila do Amaral, com quem ajudou a criar o movimento antropofágico. Chegou a ficar presa por cinco anos, sendo torturada e por conta disso acabou tendo problemas de saúde, logo se separou de Oswald e se casou novamente, agora com o jornalista e escritor Geraldo Ferraz.

Quando saiu da prisão em 1940 Pagu saiu do Partido Comunista e passou a defender um socialismo de linha trotskista. Tentou ser deputada e não conseguiu, e na década de 50 se tornou figura frequente da Escola de Arte Dramática de São Paulo, levando seus espetáculos a Santos, quando se ligou ao teatro de vanguarda e apresentou sua tradução de A Cantora Careca de Eugène Ionesco.

Patrícia traduziu e dirigiu Fando e Liz de Fernando Arrabal, numa montagem amadora na qual estreava o jovem ator Plínio Marcos. Também traduziu poemas de Guillaume Apollinaire.

Ela morreu em 1962 e deixa vários escritos inéditos, que começam a ser organizados e publicados posteriormente, como os contos policiais reunidos em Safra Macabra, originalmente escritos para a revista Detective, editada por Nelson Rodrigues (1912-1980), com o pseudônimo King Shelter. E era uma escrita forte e genial.

Ela tem uma representatividade muito forte no âmbito feminino brasileiro e inspirou outras mulheres a seguir uma linha mais independente e artisticamente relevante.

A atriz e diretora de cinema, Norma Benguell, fez um filme bonito sobre Patrícia Galvão, “Eternamente Pagu” (1988), com a atriz Carla Camurati no papel título. Se tiver tempo, assista, é uma ótima dica para o dia.