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DIA NACIONAL DO REPÓRTER – Profissão de risco, alguns heróis e mobilizadores sociais– Por Marcos Souza

No Brasil no dia 16 de fevereiro é comemorado o Dia Nacional do Repórter, os profissionais responsáveis por buscar informações, apurar denúncias, checar fontes e transmitir através dos meios de comunicação os fatos apurados e transformar em notícias de interesse público, regiamente aplicado dentro da ética jornalística, onde se ouve todos os lados.

Vale ressaltar que nessa profissão todo repórter é jornalista, porém em devidas proporções nem todos os jornalistas são obrigatoriamente repórteres.

Nessa data tão importante é bom lembrar uma figura que representa bem a luta e a dedicação a profissão, Tim Lopes (foto da capa), codinome de Arcanjo Antonino Lopes do Nascimento, morto no dia 02 de junho de 2002, com 51 anos.

Tim foi morto por traficantes no exercício de sua profissão, quando investigava a pedido da comunidade da favela Vila Cruzeiro a prostituição infantil de meninas durante a realização de bailes funk.

Descoberto em um bar enquanto registrava imagens com uma câmera escondida na cintura, acabou sendo abordado por traficantes, mesmo depois de se apresentar como jornalista – porém estava sem a sua credencial – foi espancado, teve os pés perfurados a bala e conduzido até o chefe do tráfico da área, Elias Pereira da Silva (Elias Maluco), onde acabou morrendo de forma hedionda.

Um ano antes Tim Lopes havia ganhado o Prêmio Esso de Jornalismo pela matéria exibida o Jornal Nacional, “Feira de Drogas”, mostrando traficantes vendendo drogas (cocaína e maconha) com toda a liberdade em ruas da favela dentro do Complexo do Alemão, alguns portando fuzis e armas de baixo calibre, passeando livremente no meio das pessoas, sem policiamento algum.

Essa reportagem investigativa produzida por ele forçou a secretaria de segurança do Estado do Rio de Janeiro a agir imediatamente contra o que foi mostrado.

Tim era o exímio repórter investigativo, colhendo frutos de suas passagens por jornais impressos, onde sempre se destacou por reportagens de cunho social e muito bem trabalhadas, por vezes vivendo no meio do que iria apurar – como quando virou um mendigo para acompanhar os moradores de ruas e a violência urbana.

Tim Lopes disfarçado de mendigo, em foto de seu arquivo.

Quando estava na Rede Globo, onde foi trabalhar como produtor de reportagem para o Fantástico, Tim Lopes era o repórter que trabalhava na apuração, na checagem das informações e direto do local do fato, geralmente locais perigosos e de risco, então ele não poderia expor a sua figura na TV, mas entregava todo o material pronto para ser exibido.

Infelizmente Tim Lopes cometeu o erro de ir receber o prêmio em mãos em uma cerimônia que foi exibida em vários telejornais.

Um dos grandes absurdos na apuração da polícia carioca sobre a sua morte é que no inquérito foi concluído que Tim Lopes era o culpado pela própria morte, onde, segundo relatório policial, ele queria aparecer e não mediu as consequências em ir a um local onde poderia ser reconhecido como repórter. Esse resultado divulgado pela polícia causou comoção nacional e revolta, o apresentador e jornalista William Bonner, apresentador do Jornal Nacional, divulgou um editorial de repúdio pela conclusão da investigação da polícia.

As entidades representativas da classe jornalística refutaram tal relatório e condenaram a postura da polícia.

Tim Lopes deixou uma série de lições em sua passagem profissional, dando um guia aos repórteres que queiram seguir os seus passos no jornalismo investigativo, assim como deixou admiradores e matérias inesquecíveis.

Hoje um dos melhores jornalistas e que seguem muito bem os passos de Tim é Eduardo Faustini, que também trabalha como produtor de reportagem do programa Fantástico, onde atualmente se destaca no quadro “Cadê o Dinheiro Que Tava Aqui”, mostrando denúncias de corrupção e improbidade administrativa de gestões em municípios e no meio político.

O jornalista e escritor Zuenir Ventura, que trabalhou com Tim Lopes, foi um dos profissionais que mais se abalou com a perda do amigo em pleno exercício da profissão da maneira como foi, de forma brutal.

Em homenagem a Tim e a todos os repórteres, ele escreveu um belo texto, que foi lido por Cid Moreira, em off, no Jornal Nacional.

Esse texto expõe e caracteriza bem a força da profissão, suas mazelas e perigos.

Assim escreveu Zuenir Ventura:

“Ser repórter é perigoso – assim como viver.

Testemunha de seu tempo, ele está sempre correndo riscos: de não chegar a tempo, de não ser fiel, de escapar o furo, de perder a fonte, a confiança e às vezes a vida.

Anda sobre um fio de navalha, tentando equilibrar coragem e medo, cautela e arrojo, razão e emoção, coração e mente.

Humilde operário da busca e da revelação, ele não pode cair na tentação da vaidade e da soberba. Sabe que, como os fatos, a glória é efêmera e provisória.

Nada do que é humano lhe é estranho. Sempre encharcado de atualidade, ele circula em meio ao trágico e ao cômico, entre o sublime e o sórdido, o ordinário e o extraordinário.

É o emissário da boa e da má notícia, olhos, ouvidos e voz da sociedade. Quando a barbárie o transforma em vítima para silenciá-lo, é a civilização que deixa de ver, de ouvir e de falar. É a civilização que perde os sentidos. E o sentido.”

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Para saber informações mais precisas sobre Tim Lopes, como foi o seu último dia em vida ao atender um pedido para investigar menores em um baile funk, as investigações e carreira clique AQUI.

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Comentando Notícia | Marcos Souza

Marcos Souza Gomes, paulista, nascido em Ipaussu (SP), foi criado quase que a vida inteira em Porto Velho (RO), é formado em Comunicação Social, Jornalismo, pela Faro – da primeira turma do Estado de Rondônia. Iniciou como revisor do Jornal Alto Madeira, em 1992, e depois passou a ser repórter do segmento cultural do matutino e em 1996 foi editor do Caderno Dois. Logo que se formou, em 2005, junto com mais três amigos de faculdade fundou o portal de notícias Rondoniaovivo, onde permaneceu até 2015. Especialista em cultura pop, crítico de cinema, atuante nas redes sociais, hoje trabalha como produtor de reportagem na SIC TV Record RO e é editor de matérias do site O Rondoniense.