Marco Pena Jr | Ler, Pensar e Escrever

Marcos Pena Júnior é natural de Caruaru, Pernambuco. Afirma que se entende como uma grande e histórica mistura de índios, negros, mamelucos, mestiços, brancos, “portugueses da Holanda”, caboclos e mulatos, como escreveu em seu poema “Quantos rios nascem no Sertão e desembocam no Mar?”. No final da adolescência rumou para Natal, no Rio Grande do Norte, onde aos dezessete anos iniciou graduação em ciências econômicas e começou a trabalhar. Também aí cursou MBA e mestrado em engenharia de produção. Diversas atividades profissionais foram se seguindo ao longo do tempo, tendo sido sua atuação como professor universitário, tanto na Universidade Federal do RN, quanto em uma faculdade particular, a que mais o cativou. Também na capital potiguar, casou e teve filhas. Na virada dos anos 2000 para os 2010 mudou para Brasília, Distrito Federal. Atualmente vive na capital do País. Desde a adolescência tem interesse especial por literatura, escrevendo poemas desde muito cedo. Atualmente dedica-se a escrever poemas, artigos de opinião, resenhas, críticas, artigos técnico-científicos, além de achar um tempinho para fotografia … ver e sentir o mundo, no fim das contas, é o que o atrai.
Filmes

Dispor de si, não importa o fim

A cumplicidade, a mais pura cumplicidade é a liga que leva as
pessoas a se revelarem uma para a outra, se influenciarem profundamente,
adensarem seus desejos em comum, e construírem suas cenas conjuntas
particulares. Casais podem alcançar níveis de companheirismo e admiração mútua que os levem a se amar intensa e verdadeiramente. Amor, não paixão. O afeto amigo, cuidadoso, dedicado, a vontade de apoiar o outro e ser a base para suas realizações. Os pintores dinamarqueses Einar e Gerda Wegener, que viveram na Europa no início do século XX, alcançaram esse amor. Tornaram-se extremamente cúmplices. Ele quis chegar a um ponto nunca tentado pelos seres humanos e que surgia como possibilidade em sua época, ela levou o desejo dele a ponto de ser não apenas o dela própria, mas uma tentativa artística de ambos.

Em “A garota dinamarquesa” nos é apresentado um casal apaixonado,
amigo, que faz da sua vida a dois uma sucessão de momentos de prazer,
experimentação, romance, alegria, paixão ardente, de torcida profissional
e artística mútua. Ambos pintores, Einar já relativamente bem sucedido
como artista, enquanto Gerda busca alcançar reconhecimento similar ao do marido. Conheceram-se muito jovens, quando alunos da “Royal Danish
Academy of Fine Arts” em Copenhague na Dinamarca. Casaram-se em 1904, ele com 22 e ela com 19 anos. Feitos um para o outro, um homem que àquela altura já havia idealizado ser mulher e que foi se tornando loucamente aficionado nesse seu desejo e uma lésbica.

Com uma interpretação fora de série de Eddie Redmayne (Einar) e
também magnífica atuação de Alicia Vikander (Gerda), o filme consegue
levar os espectadores a sentirem toda dor sofrida por ambos no processo
de decisão do pintor de tentar se sentir uma mulher e passar por
cirurgias para amputar sua genitália e construir artificialmente uma mimese de órgãos sexuais femininos. Foi algo como se o casal tivesse se
unido para dar vida a uma obra de arte. Alguns anos antes de Einar e
Gerda tentarem criar Lili, Oscar Wilde sabiamente afirmou: “A vida imita
a arte muito mais do que a arte imita a vida”.

Tão emocionante e extremamente gratificante quanto as atuações dos
atores principais é a fotografia do filme. O diretor de fotografia Danny
Cohen realizou algo fenomenal, algo realmente raro e que nos impressiona,
as cenas parecem ser construídas de quadros, pinturas que se sucedem.
Verdadeiramente enchem os olhos e nos desafiam a encontrar uma única
entre elas que não se assemelhe a um belo quadro e nos transmita as
emoções nela contidas. Nada mais apropriado para uma narrativa sobre
parte da vida de dos pintores. Cohen também atuou na mesma função em
outros longas, destaque para “O discurso do rei” e “Os miseráveis”, mas
foi com “A garota dinamarquesa” que ele alcançou o nível de esplendor.

Tom Hooper fez um trabalho excepcional, também dirigiu os dois
famosos longas citados acima, mas é com a história de Einar e Gerda que
ele consegue fazer com que nos identifiquemos profundamente com a
tristeza e a perturbação do casal Wegener. Desde que assisti “A garota
dinamarquesa”, fico me perguntando como Hooper filmaria a história de uma pessoa com Transtorno de Identidade de Integridade Corporal.

  • Minha crítica ao filme “A garota dinamarquesa” (“The Danish Girl” — Tom Hooper, 2015) originalmente publicado em inglês no IMDb e republicado no Medium em inglês e em português.   /   My review of the film “The Danish Girl” (Tom Hooper, 2015) originally published in English on IMDb and republished in Medium in English and Portuguese.
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Fonte
Marcos Pena Jr/ Ler, Pensar e Escrever

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