Economia

Dólar a 4,40 reais mostra o novo normal do câmbio no Brasil

A alta do dólar virou tema de discussão e preocupação dos brasileiros nos últimos dias. A moeda norte-americana renovou máximas recordes e chegou na manhã desta sexta (21) a 4,40 reais, o maior valor já alcançado durante as negociações. Véspera de Carnaval, realização de lucro antes do feriado e alta de moedas emergentes no exterior são fatores que explicam por que o dólar saiu de 4,02 reais em 2 de janeiro para o resultado desta sexta. Mas, na quarta-feira da semana passada, foi o ministro da Economia, Paulo Guedes, quem legitimou a tendência com a frase infeliz que repercutiu mal não só do ponto de vista social, mas também nas mesas de câmbio.

Guedes afirmou que uma taxa de câmbio mais alta era “boa para todo mundo” e criticou governos anteriores por terem mantido a moeda brasileira valorizada artificialmente a custo de juros altos. “Não tem negócio de câmbio a 1,80 reais […] Todo mundo indo para a Disneylândia, empregada doméstica indo para a Disneylândia. Espera aí, espera aí. Vai passear ali em Foz do Iguaçu”, afirmou. A fala de Guedes repercutiu negativamente e levou a moeda norte-americana a abrir o pregão cotada a 4,38 reais no dia seguinte. Nesta quinta (20), ele voltou ao tema durante um evento em Brasília. Pediu desculpas por quem se sentiu ofendido pelo comentário em que mencionou domésticas, mas reiterou o que já havia dito sobre o câmbio. “Pode ser 3,80 reais, 4,00, ou 4,20. O câmbio é flutuante, o Banco Central opera isso. Mas o patamar é inquestionavelmente mais alto”, avisou.

Causa e efeito são quase sempre imediatos no mercado financeiro. E o dólar chegou a 4,40 reais, embora tenha recuado a 4,38 na sequência. A alta desde o início do ano fez o Banco Central reagir com uma venda de dólares no mercado futuro para segurar a alta do preço. A operação, que não era utilizada há um ano e meio, fez o valor da moeda cair. A última vez que o BC atuou por meio de leilões de swap cambial foi em agosto de 2018, quando a crise econômica argentina e o período pré-eleitoral jogaram o valor do dólar para quase 4,20 reais.

Na avaliação do economista Eduardo Correia, professor de Macroeconomia do Insper, em um país em que a câmbio é flutuante —que varia conforme a procura e a oferta no mercado—, as falas das autoridades sobre política cambial ou monetária são um equívoco. “Se você olha a maioria dos países onde se faz política econômica de forma séria, você não tem secretário do tesouro ou ministro da Fazenda dando palpite sobre câmbio ou juros como o Guedes fez esta semana”, comenta Correia.

Apesar da volatilidade causada pela fala do ministro, o professor explica que a moeda norte-americana mostra uma trajetória de valorização frente ao real há cerca de um ano, principalmente por dois fatores: as constantes quedas da taxa básica de juros brasileira, a Selic, e o bom desempenho da economia dos Estados Unidos. “Não estamos tendo uma crise cambial e sim uma redução gradual da taxa de juros que tornou os nossos títulos menos atrativos. Chegamos a uma situação em que a taxa real, a diferença entre a Selic, que está 4,25% ao ano, e a inflação, que deve ser de 3,6% em 2020, é menor que 1%. Há alguns anos, ela chegava a 7%, era um negócio das arábias para quem queria aplicar dinheiro aqui no Brasil”, afirma. Segundo Correia, muitos investidores que aplicavam o chamado dinheiro especulativo estão saindo do país e estão interessados em títulos dos EUA, que são mais seguros.

Emerson Marçal, coordenador do Centro de Macroeconomia Aplicada da FGV, ressalta que o mau desempenho das exportações brasileiras, por conta da desaceleração da economia chinesa, a guerra comercial e a crise econômica na Argentina, geram mais escassez do dólar, o que também ajuda na valorização da moeda norte-americana. As exportações do agronegócio do Brasil, por exemplo, recuaram 9,4% em janeiro em comparação com o mesmo período do ano passado. “O câmbio se desvalorizou, mas não é nem de longe a pior depreciação do real. O maior pico recente foi em 2002, no Governo Lula, quando o dólar atingiu 7,60 reais se corrigirmos a inflação acumulada de lá pra cá”, pondera.

Classe média perde

Na contramão da fala de Guedes, Correia defende que a depreciação do real é ruim para quase todo mundo, já que mexe com o bolso de grande parte dos consumidores. “Sobe desde o pãozinho, já que importamos o trigo, até a gasolina”, explica. O setor farmacêutico, bastante dependente das importações, também podem repassar algum aumento caso a desvalorização do real persista.

Para Marçal, os produtos e serviços atrelados ao dólar são os da classe média e classe média alta. “Quem pode sentir mais o impacto dos preços são as pessoas que compram eletrônicos, carros, quem está pensando em viajar para o exterior, já que o câmbio influencia tanto nos gastos em dólar quanto no valor das passagens. Até mesmo os valores das viagens nacionais e dos serviços de hotelaria no Brasil podem aumentar já que os brasileiros podem começar a viajar menos para fora”, afirma.

Os dois professores concordam que os maiores beneficiados por um dólar mais valorizado são as pessoas que recebem pagamentos em dólar, como os exportadores. “O agronegócio exportador é um dos grupos que ganha e torce pela valorização da moeda americana. O preço da carne no exterior está em dólar, mas quando ele converte em real, ele ganha mais”, diz Correia. O dólar mais alto acaba melhorando também a competitividade das empresas brasileiras. “Até indústrias ineficientes ganham certa competitividade, o câmbio valorizado torna elas artificialmente competitiva”, completa.

Os especialistas não se arriscam a estimar uma cotação futura do dólar, mas a moeda deve seguir valorizada até o fim do ano. O Relatório de Mercado Focus, divulgado na última segunda-feira, mostrou manutenção no cenário para a moeda norte-americana em 2020. A mediana das expectativas para o câmbio no fim do ano permaneceu em 4,10 reais, ante 4,04 reais de um mês atrás.

 

Fonte – El País