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Estudo da Fiocruz sobre análise genética do vírus SARS-CoV-2 obtém dados que podem auxiliar na vigilância epidemiológica em Rondônia

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Um estudo que está sendo coordenado pelo Laboratório de Virologia Molecular da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz RO) reúne dados importantes sobre o genoma do vírus SARS-CoV-2, circulante no estado de Rondônia. Mesmo preliminares, os dados obtidos com a pesquisa apontam novos caminhos relacionados às ações de controle e vigilância epidemiológica molecular, além de oportunizarem a pesquisadores e profissionais da saúde informações mais detalhadas sobre a doença em Rondônia.

O estudo é realizado em parceria com a Secretaria de Estado da Saúde (Sesau) e o Laboratório Central de Saúde Pública de Rondônia (Lacen). A pesquisadora em Saúde Pública da Fiocruz RO, Deusilene Vieira, chefe do Laboratório de Virologia Molecular, falou sobre o estudo nesta entrevista.

Quando começou o estudo e qual a sua importância para o entendimento do novo coronavírus?

Deusilene Vieira: O estudo começou no fim de abril e por meio dos dados apresentados, mesmo preliminares, podemos ter informações mais detalhadas sobre o vírus que está circulando no estado de Rondônia. Isso é importante. porque amplia os dados já existentes, permitindo novas descobertas sobre como o vírus SARS-CoV-2 foi introduzido em nossa região, como ocorreu a sua disseminação, além de contribuir com ações de vigilância epidemiológica molecular e de controle da doença no Estado.

As informações obtidas até agora permitiram aos pesquisadores o levantamento de dados importantes sobre as cepas que circulam em Rondônia. O que a senhora pode destacar sobre isso?

Deusilene Vieira: As análises demonstraram que ao longo do genoma completo do vírus foram identificadas 22 mutações. Essas alterações, embora pequenas, tornam as cepas circulantes em nosso Estado diferentes daquelas que circularam na China no início da pandemia. É importante salientar que o genoma completo do vírus foi obtido de isolados, utilizando o sequenciamento de uma nova geração, em parceria com o pesquisador Felipe Naveca, responsável pela plataforma de sequenciamento do Instituto Leônidas e Maria Deane (Fiocruz Amazônia).

Essas modificações ocorrem naturalmente no decorrer do tempo em agentes infecciosos, principalmente os virais. No estudo, nós detectamos a presença da mutação D614G localizada na proteína Spike do vírus, presente em todas as amostras analisadas. Na literatura especializada, alguns artigos descrevem essa mutação relacionado com a alta propagação do vírus pelo mundo, porém vale salientar que as informações sobre SARS-CoV-2 são novas e precisam de mais estudos para elucidação.

Foto: José Gadelha

A partir dessas alterações encontradas nas cepas do vírus que está circulando em Rondônia, o que é possível afirmar?

Deusilene Vieira: É necessário esclarecer, primeiro, que essas variações analisadas pertencem ao grupo que tem uma assinatura genética relacionada às variações que estão circulando em regiões que foram consideradas epicentros da doença na Europa e que rapidamente se espalharam pelo resto do mundo. Por meio destas descobertas, será possível apontar o local de origem do vírus que está circulando no estado de Rondônia. Em uma análise detalhada com uso de ferramentas computacionais para a realização de estudo evolutivo, foi possível observar que o vírus SARS-CoV-2, circulante na região, tem descendência e ancestralidade de uma cepa viral isolada em Zurique, na Suíça, e uma segunda descendência e ancestralidade de uma cepa viral de Portugal.

Na prática, pode-se dizer que tivemos mais de uma entrada do vírus em Rondônia?

Deusilene Vieira: Sim. Com essas análises, podemos concluir que tivemos pelo menos dois eventos significativos de entrada do vírus SARS-CoV-2 em Rondônia, sendo que houve a participação de cepas circulantes nessas duas regiões da Europa (Suíça e Portugal). Isso não significa necessariamente, que houve transmissão direta do epicentro na Europa para o Estado. É possível que o vírus tenha passado em outras localidades no decorrer do tempo até chegar neste ponto.

Qual a origem das amostras analisadas e quais serão os próximos passos do estudo?

Deusilene Vieira: Esta pesquisa é realizada com amostras de todos os municípios com casos confirmados em Rondônia. Contamos com a colaboração de diversos profissionais altamente qualificados em Biologia Molecular, que se revezam em vários turnos para darmos conta da demanda. Ainda temos muitos dados a serem analisados. Como toda pesquisa dessa natureza, ainda levaremos tempo para dados mais conclusivos. A Fundação Oswaldo Cruz vem se destacando com diversas ações no enfrentamento da Covid-19, especialmente em estudos relacionados ao vírus SARS-CoV-2 e os seus impactos na saúde pública. Nesse contexto, aqui na Amazônia, estamos percorrendo um novo caminho com muitas informações sobre a doença, mas a Fiocruz RO também vem desenvolvendo vários projetos de pesquisa, para uma melhor compreensão do vírus, e estudos ligados ao acompanhamento clínico e avaliação imunológica de pacientes.