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EU NÃO QUERO VOLTAR AO PASSADO – Por Edmilson da Silva

Era uma noite qualquer, de um dia qualquer, no final dos anos 80. Como de costume, cheguei na casa da namorada, hoje esposa, e a notei bastante abalada. Apesar da convivência diária com a realidade daquele lugar, aquele teria sido um dia diferente. Ela trabalhava como caixa de um pequeno mercantil existente entre as cidades de Barbalha e Juazeiro do Norte, no Ceará. Naquela época, era talvez o único da Região e era o que existia de mais próximo do que hoje conhecemos como supermercado, porém, em tamanho bem menor.

Ela tinha visto naquele dia se formar em frente ao mercantil, uma fila enorme de pessoas para comprar carcaça de frango. Isso mesmo, o frango sem peito, coxa e sobrecoxa. Ao me contar, se perguntava o que poderia ser feito com aquilo. Talvez uma sopa se tivesse um tempero ou uma verdura para acompanhar, ou, quem sabe, um caldo ralo. Era final do Governo Sarney que terminava o seu mandato de forma melancólica, depois de diversos planos econômicos fracassados, inflação galopante e popularidade lá embaixo.

E porque falar desse assunto agora? Porque, esta semana vi duas postagens nas redes sociais que me remeteram a esse período. Uma delas trazia um saquinho plástico cheio de pés de frango com a etiqueta de preço anexada e a outra trazia uma placa de propaganda oferecendo o gás de cozinha parcelado em duas vezes, ambas com comentários relacionados ao cenário econômico atual do País.

Não tenho como afirmar se as postagens tratavam de situações reais. Mas, ainda que sejam figuras de linguagem, elas nos alertam para o risco de voltarmos a um passado tenebroso, do qual não temos saudade. Como se esquecer de um período em que a inflação chegava a mais de 200% ao ano? Não é exagero, é história. Que para controlar, o governo impunha o congelamento de preços. Um país absolutamente quebrado, com dívida externa impagável e economia totalmente controlada pelo FMI. Um país sem nenhuma representação no cenário econômico internacional e que era classificado como país subdesenvolvido, comparado ao que hoje representa a economia de alguns países pobres da África.

No Nordeste essa realidade era ainda mais cruel porque estava associada à seca e a miséria imposta por quinhentos anos de abandono absoluto. Vivíamos ano a ano do ciclo vicioso, seca, frentes de trabalho (trabalhadores rurais em sua maioria escolhidos a dedos pela indicação de políticos, faziam pequenas obras em propriedades de políticos da região ou da prefeitura local em troca de cesta básica, vale leite e vale gás), voto de cabresto, trabalho escravo, saques em feiras livres e bodegas (pequeno comércio de alimentos e variedades, muito comuns no Nordeste) promovidos por trabalhadores rurais famintos, cabides de emprego nas prefeituras e órgão públicos, migração para outras Regiões do País, com ênfase para Sul e Sudeste, campanhas televisivas e midiáticas de ajuda aos flagelados da seca e ausência quase absoluta de empregos com carteira assinada, prevalecendo o subemprego.

Apesar de estarmos falando do Governo Sarney, aquela realidade perdurava a cada novo Governo. O Próximo Presidente, Fernando Collor de Melo faria um estrago maior ainda. Desesperado, sem dinheiro, o Governo Collor Confiscou a poupança e limitou os saques em conta corrente há um valor de 50 mil cruzados novos, algo em torno de oito mil reais hoje, além de outras medidas impositivas, como a demissão de funcionários de empresas públicas sem nenhum aviso prévio. O cara sai do trabalho na sexta feira, passa o final de semana feliz com a família, na segunda feira chega ao trabalho e descobre que foi demitido. Foi assim com cerca de 20.000 funcionários do Banco do Brasil. Por isso, não é difícil entender porque um Presidente eleito como salvador da pátria, com alto índice de popularidade, teve facilmente aceito pelo povo, o seu impeachment.

O fato é que a atual realidade nos assusta e o passado nos atormenta. Ainda mais pela aproximação do Bolsonaro e do Collor que não parece ser mera coincidência. Os dois já tinham algumas semelhanças: ambos venceram as eleições prometendo enfrentar a velha política, governar para os pobres, acabar com os privilégios e por incrível que pareça, o Collor também abusou de fake news em sua campanha eleitoral.

Enquanto isso, os preços nos supermercados não param de subir e é possível que a razão maior seja o aumento nos preços dos combustíveis que afetam diretamente o preço do frete de todos os produtos comercializados. Mesmo assim, os índices oficiais indicam menos de 4% ao mês. Difícil de entender essa avaliação do Governo, com gasolina a R$5,00, gás de cozinha R$100,00 e carne a preços absurdos. Com o aumento constante dos preços o povo, principalmente os mais pobres, tem de ir ajustando o cardápio e se adaptando a uma nova realidade que a cada dia se aproxima mais daquele tempo nefasto que nos dar arrepios só em lembrar.

José Edmilson da Silva é Engenheiro Agrônomo, Bacharel em Direito, Professor e Servidor Público Federal