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Eu sou racista – por José Edmilson da Silva

Eu sou racista! Não tive escolha.

Como não ser, se tudo que vi e vivi desde o nascimento me remete a exclusão da ideia de unidade racial? O quadro do “Sagrado Coração de Jesus” na parede da sala da minha casa de taipa, com aquela tez alva com maçãs levemente rosadas, durante toda a minha infância e adolescência já me diziam da divindade a ser adorada. A mim, foi passado que o culto a outros Deuses trazidos pelos meus ancestrais pretos vindos do continente africano significavam maldição, coisa do demônio que por sinal em qualquer eventualidade tinha sua imagem relacionada ao preto, escuro, negro. Fui catequizado e doutrinado a aceitar um Deus que nos fez a sua imagem e semelhança, mas pintado por renascentistas como uma figura de pele alva, cabelos dourados cacheados e olhos verdes cristalinos. Superior em sua essência e evidentemente na sua aparência, típico do povo europeu.

E o negro? Submisso claro, assim como todo o continente, também a sua cultura e religião. Nas estórias infantis da minha época os príncipes e princesas eram definidos como tais, exatamente por conta da sua beleza estonteante caracterizada pelo branco da pele e o ouro reluzente do cabelo. Na escola, eram comuns e até aceito como gesto de amizade, os apelidos como breu, petróleo, carvão, negão, etc., até o famigerado “macaco”. E as Frases simpáticas? como: “você não é negro, você é moreninho”.

Em suma, se fosse relatar os episódios que me transformaram nesse racista, teria que escrever um livro. Mas ao olhar profundamente para o meu íntimo vejo que não sou simplesmente Racista. Sou um brasileiro típico e como tal, e sobretudo agora, vivo a permanente ideia de separação e além de separar preto de branco, separamos também rico de pobre, alto de baixo, nordestino de sulista, dentre outros, e mais recentemente, direitistas de esquerdista.

Na verdade, valores similares aos que me levaram a ser racista, também me tornaram machista, homofóbico, xenófobo e etc, etc, etc. São valores tão profundamente enraizados no meu subconsciente que mesmo defendendo e participando de movimentos contrários a essas fobias, vez ou outra me traio em gestos, palavras ou atitudes que me remetem ao resgate desses valores. Sou o que se chama de “brasileiro médio”. Sou ativo na coletividade, mas passivo na individualidade. Concordo com o que todos dizem, mas na prática exerço a minha, nem sempre, involuntária hipocrisia.

E para mudar? Muita coisa já mudou. Algumas políticas de inclusão, de educação e mudanças na legislação já promoveram discretas alterações nas relações multiraciais. Eu estou neste contexto e tenho tentado me afastar dessas minhas fobias. Tenho conseguido. Tenho amigos de todas as cores, sexos, nacionalidades, etc. Mas uma vez ou outra, alguém me lembra que eu sou racista. Um gesto, um olhar, me traz essa nefasta recordação, por uma simples razão: Eu sou preto. E dessa condição, jamais poderei me afastar. E nem quero.

José Edmilson da Silva é Engenheiro Agrônomo, Bacharel em Direito, Professor e Servidor Público Federal

 

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Rondoniense

Comentários

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  • Muito bom o texto do Emilson.
    Uma leitura oportuna e necessário nestes “estranhos” tempos em que vivemos.
    … a luta pela superação continua!

  • Muito bom o texto do Emilson.
    Uma leitura oportuna e necessária nestes “estranhos” tempos em que vivemos.
    … a luta pela superação continua!
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    Corrigindo postagem anterior:
    “…leitura oportuna e necessária…”
    os corretores ortográficos e os dedos idosos não ajudam no bom texto! Desculpem!