Brasil Contraponto Destaques Especiais Orondoniense politica Política e Cidadania

Galopes asininos*

Bolsonaro montado em jumento em visita ao Piauí. Imagem: Alan Santos / Presidência da República.
Bolsonaro montado em jumento em visita ao Piauí. Imagem: Alan Santos / Presidência da República.

 

Imprensa livre
Imprensa livre

 

Na minha contínua necessidade de “ler o mundo”, um dos caminhos é a leitura de jornais. Essa “troca de ideias” com pessoas que sequer conheço me são muito caras. A impressa livre está na base das sociedades democráticas. Por vezes vamos discordar, as visões de mundo dos seres humanos sempre vão perpassar por suas construções, da mais objetivamente clara (a construção civil – afinal o que é a arquitetura senão uma visão de mundo sobre as obras civis – ou qualquer ciência de laboratório – a própria escolha do que pesquisar já parte da visão de mundo do cientista) às mais subjetivas (as obras de arte, seja nas artes plásticas, seja na literatura ou na música). O jornalismo não é isento disso. Sendo assim, é natural que discordemos muitas vezes de uma reportagem ou mesmo da linha editorial de um veículo.

O que não podemos é deixar de “ler o mundo” por meio do jornalismo. O que devemos é acompanhar o máximo de meios possível, especialmente nessa nossa era digitalizada e interconectada (falo aqui especialmente da internet). Atualmente, com as publicações on line, as assinaturas digitais estão bastante acessíveis. Hoje assino Estadão, Globo+ (conjunto das publicações digitais do grupo Globo), Gazeta do Povo, Folha de São Paulo, The Wall Street Journal, O antagonista e Crusoé. Tenho algo a dizer no âmbito dessa conversa toda: leiam o máximo que puderem! Espíritos verdadeiramente democráticos querem uma impressa livre até mesmo para que fale bobagens. Embora não seja realmente do filósofo Voltaire a já conhecida frase “Eu discordo do que você diz, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-lo”, ela ilustra muito bem o que pensa uma pessoa que preza de verdade a liberdade (sobre a história dessa frase leia mais em: https://super.abril.com.br/blog/superlistas/8-frases-iconicas-que-nunca-foram-ditas/).

O reconhecimento diário de nossa ignorância e a busca rotineira por informações e conhecimentos pode até salvar vidas!

Quero tratar aqui de um tema específico de um veículo que aprecio muito, nosso posicionamento frente à pandemia pela qual passamos tratado na edição do Estadão do dia primeiro de agosto. Ela traz um conteúdo bastante coerente e representativo do nosso atual momento. A pandemia, nosso comportamento (falo nosso no sentido de generalizar o comportamento do brasileiro médio) e os exemplos que vêm de cima. O primeiro caderno está recheado de boas leituras e reflexões nesse sentido. Reflexões necessárias e urgentes.

Já na segunda página, o texto de opinião do advogado e ex-ministro da justiça Miguel Reale Júnior, intitulado “Os súditos do presidente” (https://opiniao.estadao.com.br/noticias/espaco-aberto,os-suditos-do-presidente,70003383685) nos faz pensar a respeito dos impactos que o exemplo do dirigente maior da nação causa sobre os cidadãos. O último parágrafo é da mais fina ironia (um verdadeiro deleite intelectual). Cito: “É uma vertente do ‘sabe com quem está falando?’. Está falando com um súdito do presidente”.

No segundo editorial (terceira página do primeiro caderno – página A3), o jornal apresenta uma breve leitura a respeito de uma série de políticas que grandes cidades do mundo têm adotado como decorrência da pandemia. Importante perceber como muitas mudanças que já vinham ocorrendo (notadamente a respeito de sustentabilidade) se aceleram. “A cidade eterna se reinventa” (https://opiniao.estadao.com.br/noticias/notas-e-informacoes,a-cidade-eterna-se-reinventa,70003383560), leitura bastante informativa em um espaço curtíssimo de texto.

Ignorância, gripezinha e morte galopam sorridentes nos lombos asininos.

Na página seguinte, A4 (https://politica.estadao.com.br/noticias/geral,bolsonaro-ja-adota-tom-de-campanha-em-viagens,70003383724), vemos o presidente Jair Bolsonaro antecipando a campanha de 2022. Montado num jumento no Nordeste vê-se o Messias trazendo as boas novas da aglomeração que ignora a gripezinha.

Bolsonaro montado em jumento em visita ao Piauí. Imagem: Alan Santos / Presidência da República.
Bolsonaro montado em jumento em visita ao Piauí. Imagem: Alan Santos / Presidência da República.

 

Para não me estender mais, finalizo com só mais um destaque, a reportagem “Cenário: A morte de um republicano que desafiou o vírus” na página A18 (https://internacional.estadao.com.br/noticias/geral,a-morte-de-herman-cain-mudara-as-visoes-republicanas-sobre-virus-e-mascaras,70003383522). Texto traz informações sobre a morte do congressista e ex-candidato à presidência americana Hermam Cain por complicações derivadas da Covid-19. De ruim apenas o fato da reportagem insistir em erro crasso do nosso tratamento do termo conservador (embora o texto seja tradução de publicação internacional). No caso americano até passa, uma vez que lá os termos liberal e conservador sofreram distorções históricas e não significam o que de fato representam na tradição filosófica e política (originários dos ingleses). Mas um parágrafo dessa ressalva no texto do Estadão seria fundamental. De resto, mais uma vez, o exemplo do exemplo.

Ignorância, gripezinha e morte galopam sorridentes nos lombos asininos.

 

* Esse meu texto é uma versão estendida de comentário que publiquei no Estadão, na secção “Fórum dos Leitores – Opinião” (pode ser encontrado por meio de busca no link: https://opiniao.estadao.com.br/noticias/artigos-dos-leitores,forum-dos-leitores,70003390316).

Marcos Pena Jr Galopes Asininos Estadão Fórum dos Leitores 07ago.2020
Marcos Pena Jr Galopes Asininos Estadão Fórum dos Leitores 07ago.2020

 

Marcos Pena Júnior é economista e escritor, mantém suas produções disponíveis em marcospenajr.com.

Copyright © 2020, O Rondoniense, Marcos Pena Jr. Todos os direitos reservados.

 

Ler, Pensar e Escrever | Marcos Pena Jr

Ler, Pensar e Escrever | Marcos Pena Jr

Marcos Pena Júnior é natural de Caruaru, Pernambuco. Afirma que se entende como uma grande e histórica mistura de índios, negros, mamelucos, mestiços, brancos, “portugueses da Holanda”, caboclos e mulatos, como escreveu em seu poema “Quantos rios nascem no Sertão e desembocam no Mar?”. No final da adolescência rumou para Natal, no Rio Grande do Norte, onde aos dezessete anos iniciou graduação em ciências econômicas e começou a trabalhar. Também aí cursou MBA e mestrado em engenharia de produção. Também na capital potiguar, casou e teve filhas. Na virada dos anos 2000 para os 2010 mudou para Brasília, Distrito Federal. Atualmente vive na capital do País. Desde a adolescência tem interesse especial por literatura, escrevendo poemas desde muito cedo. Atualmente dedica-se a escrever, além dos poemas, artigos de opinião, resenhas, críticas, artigos técnico-científicos, além de achar um tempinho para fotografia … ver e sentir o mundo, no fim das contas, é o que o atrai.

Add Comentário

Clique aqui para publicar um comentário