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Há 24 anos aconteceu o Massacre de Corumbiara

No dia 9 de agosto de 1995, há exatamente 24 anos, ocorria um triste episódio da então recente democracia brasileira, o Massacre de Corumbiara

O crime ocorreu na região sul do estado de Rondônia. Muitas terras férteis em um Estado que já era marcado pela violência aos camponeses. A fazenda Santa Elina, era uma vasta área de 20 mil hectares, localizada no Munícipio de Corumbiara, pertencente a Hélio Pereira de Morais, que a adquiriu no contexto em que o Regime Militar doava grandes pedaços de terra a empresários de todos as laias.

Em meados de julho, daquele inverno de 1995, centenas de trabalhadores sem-terra, ocuparam um pequeno pedaço dos 20 mil hectares da fazenda, onde ergueram um acampamento e passaram a plantar no esquema de agricultura familiar. A ocupação durou 25 dias. Eram 600 famílias, totalizando mais ou menos 2500 pessoas.

Existem rumores que surgiu uma proposta de negociação entre o proprietário e os trabalhadores, onde seria concedido um pedaço de 500 hectares para a plantação de uma roça comunitária, no entanto, outra figura entra em cena, o vizinho da fazenda ocupada, o latifundiário Antenor Duarte do Vale, que vetou a proposta de negociação. Conhecido naquela época por forte autoritarismo e uso de trabalho escravo em suas propriedades, era uma espécie de coronel da região. Usando de sua influência, do Vale apoiado por Hélio P. de Morais, com promessas e presentes às autoridades, “pressionou” o Juiz responsável, Glodner Pauletto, assim como comandantes da polícia militar, para que executassem, o quanto antes, a reintegração de posse da Santa Elina.

Durante a madrugada daquele terrível 9 de agosto, a polícia militar com um efetivo de centenas de homens, dentre eles o Comando de Operações Especiais, somado a jagunços dos fazendeiros, na maldade, cercando e emboscando as famílias do acampamento, usando de bombas de efeito moral, gás lacrimogênio e armas de fogo, em um ataque contínuo, executaram o pedido de reintegração de posse da fazenda. O resultado, 9 trabalhadores executados, Nelsi Ferreira, Enio Rocha Borges, José Marcondes da Silva, Ercílio Oliveira Campos, Odilon Feliciano, Ari Pinheiro Santos, Alcino Correia da Silva e a pequena Vanessa dos Santos Silva, de apenas 7 anos, assassinada com disparo de arma de fogo. As vítimas foram enterradas como indigentes, e as famílias tiveram muitas dificuldades de acessarem os corpos, devido conivência da polícia local frente a ação dos fazendeiros, e foi necessário a intervenção da Comissão Pastoral da Terra para solucionar a questão.

Cinquenta e cinco trabalhadores foram feridos e torturados, por volta de 300 foram presos. Após tudo isso, ainda tiveram seus acampamentos assim como seus pertences destruídos por um incêndio proposital. Dois policiais morreram. Fato que iria ser usado futuramente contra as vítimas do massacre.

Dias depois, mais trabalhadores que ocuparam a fazenda foram assassinados, como foi o caso do jovem trabalhador Sérgio Rodrigues Gomes, que foi encontrado em óbito, boiando no Rio Tanaru, a 70 km do local onde fora preso, cheio de marcas de tortura com requintes de crueldade. Em dezembro daquele 1995, foi assassinado o vereador Manoel Ribeiro, o Nelinho, do PT, que apoiou os camponeses de Santa Elina.

É preciso destacar que muitas versões sobre o massacre são declaradas, algumas fontes apontam que nenhum camponês presente no dia do massacre foi ouvido pelo júri, e os únicos condenados, sem provas cabíveis, foram os trabalhadores Cícero Pereira Leite e Claudemir Gilberto Ramos, que passaram de vítimas à réus. Os policiais foram tidos como heróis e a maioria foi absolvida, apenas 3 policiais foram condenados. Em suma, o poder judiciário, como se sabe no Brasil, favoreceu o latifúndio, tanto proprietários quanto seus jagunços não foram punidos e continuaram livres distribuindo barbaridades.

Segunda a Comissão Pastoral da Terra, em 2010, a Liga dos Camponeses Pobres (LCP), esteve à frente da ocupação de mais da metade da Fazenda Santa Elina, entretanto, as consequências da impunidade dos poderosos ainda resvalavam nas vítimas de Corumbiara. Em 27 de maio de 2011, foi assassinado por pistoleiros, um dos sobreviventes do massacre, o trabalhador e militante Adelino Ramos, conhecido como Dinho, que segundo a CPT, denunciara a ação de madeireiros na região da fronteira entre os estados do Acre, Amazônia e Rondônia. No ano de 2015, 20 anos depois do ocorrido, em uma audiência com as vítimas que lutavam por indenizações pelo massacre, um juiz declarou que não houve massacre e os crimes estavam prescritos.

A Comissão Pastoral da Terra fez um levantamento apontando que até 2017 o Brasil constava em primeiro lugar na lista de países que mais matam trabalhadores do campo no mundo. Em um período de 33 anos foram registrados 46 massacres no campo, com 220 pessoas assassinadas em nove estados diferentes. Já em outro estudo, a CPT alega que, no recente período democrático de 1985 a 2018, 1938 pessoas foram assassinadas em conflitos relacionados a terra, água e trabalho, dessa quantia, 1789, isto é, 92% dos casos, continuam sem qualquer responsável julgado ou preso. No máximo se prende quem mata, mas não quem mandou matar.

Não devemos esquecer que na era petista pouco se avançou na distribuição de terra no país. Com o golpe institucional e a ascensão da extrema direita, após as eleições fraudulentas de 2018 que levaram a figura do execrável Jair Bolsonaro a presidência, a previsão é que os conflitos, massacres e avanço do latifúndio só aumentem, vide o decreto N 9.785, de 7 de maio de 2019, que facilita o porte de armas para os proprietários rurais, na lógica onde a propriedade vale muito mais que as vidas. A região que já era marcada pelo sangue de trabalhadores poderá ficar ainda mais violenta. Como já vistos nos recentes casos de assassinatos, como o do cacique Emyra Waiãpi por garimpeiros, no Amapá, assim como no Pará, onde assassinaram o presidente do Sindicato Rural de Rio Maria, Carlos Cabral.

Massacre de Corumbiara, reintegração de posse que ficou conhecida depois que policiais militares de Rondônia auxiliados de jagunços do proprietário da Fazenda Santan Elina, durante a madrugada, mataram, feriram, torturaram e prenderam trabalhadores que lutavam pelo direito a terra no norte do país

Com muita tristeza lembramos desse dia 9 de agosto. Lembremos da “marca de sangue dos seus mortos e a certeza de luta dos seus vivos” ¹. A memória dos lutadores que tombaram nos campos de batalha pelo fim do latifúndio não pode ser apagada nos arquivos empoeirados dessa justiça em decomposição. Os capitalistas usam de muitos mecanismos para que esqueçamos do passado, acreditemos em um presente absurdo, para assim, justificarem suas crueldades no futuro. O Massacre de Corumbiara foi um dos primeiros crimes que chocaram o regime democrático após décadas de ditadura. Muitas chacinas ocorreriam até então, tanto no campo quanto na cidade, e quem chorou e chora pela perda dos seus entes queridos é sempre a classe trabalhadora. A reforma agrária à brasileira, é feita pelos capitalistas à base de chumbo e cova, talvez o único pedaço de terra garantindo pelo estado democrático de direito do paradisíaco Brasil, país que tem média de 60 mil assassinatos por ano.

É preciso que a luta pela terra seja travada em aliança entre trabalhadores da cidade e do campo, pois nos dias de hoje, do capitalismo voraz em crise, em um mundo que já é mais urbano que camponês, os problemas e tarefas de trabalhadores urbanos e rurais se entrelaçam ainda mais do que no passado. Lutemos visando outra sociedade que não baseie nossas vidas em lucro, e nem que a propriedade privada seja mais valiosa que a vida de nenhum ser humano. No país considerado como seleiro do mundo, onde “o Agro é Tec, o Agro é Pop”, e a maioria parlamentar representa setores ligados ao latifúndio, a reforma agrária só pode ser possível por meio da luta por outra sociedade, ou seja, uma sociedade socialista, governada pelos próprios trabalhadores.

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DiariodaAmazonia.comDiarioOperario.com
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