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HOMENAGEM – Aula de cinema de Martin Scorsese – Por Humberto Oliveira

Não há porque discutir. Cada filme dirigido por Martin Scorsese, é uma verdadeira aula de cinema. A movimentação de câmera, a exposição dos personagens, a narração em off, que nem todo cineasta sabe usar, a forma de contar uma história, cada enquadramento, a escolha do elenco e até a trilha sonora pontuando cada cena, take e sequência. Scorsese conhece e domina como poucos a linguagem cinematográfica. Ele é um verdadeiro mestre de seu ofício, afinal a maioria de seus longas são cultuados, dissecados, adorados, estudados. De toda sua longa filmografia, digamos que 90 por cento são obras primas reconhecidas pelo público e crítica e premiadas.

Os Infiltrados

Basta citar Táxi driver, Touro indomável, considerado o melhor filme dos anos 1980, Os bons companheiros, Cassino e o mais recente, O irlandês, seu filme mais longo, 3 horas e 30 minutos de duração. Scorsese não é apenas um cineasta. É um conhecedor da história do cinema, inclusive realizando e apresentando documentários como os extraordinários Viagem pessoal ao cinema americano, em homenagem aos cem anos do cinema ou não menos importante sobre o Neo-realismo italiano e Uma carta para Elia, tendo como foco o diretor Elia Kazan, sua carreira e filmes.

 

O Oscar de melhor diretor veio com Os infiltrados, mas Scorsese deveria ter ganhado por qualquer um dos filmes citados acima ou por sua direção de Os bons companheiros, O aviador, A invenção de Hugo Cabret ou O lobo de Wall Street. A filmografia inclui ainda a refilmagem Cabo do medo, a comédia de humor negro O rei da comédia ou os épicos religiosos A última tentação de Cristo, Kundun e Silêncio, o drama de época a la Luchino Visconti, A época da inocência, o sensível Alice não mora mais aqui ou a homenagem aos filmes noir e terror psicológico, o subestimado Ilha do medo. Não podemos esquecer o violento Caminhos perigosos, do começo da carreira, aliás seu primeiro trabalho com Robert De Niro, que ao longo dos anos trabalharia com o diretor em longas como o fiasco New York, New York, equivocado drama musical e o malfadado Vivendo no limite, ambos são prova cabais que até os gênios cometem erros.

Época da Inocência

Minha ideia ao iniciar este texto, era escrever sobre o magnífico Cassino, no entanto, quando citamos o nome Martin Scorsese, fica quase impossível focar em apenas uma de suas produções. O longa não é somente mais um filme de gangster. É um estudo sobre a ambição, da ascensão e queda de pessoas cegas pelo glamour de Las Vegas, pelo  dinheiro fácil, a violência sem limites e a impossibilidade do ser humano mudar sua natureza, apesar do inevitável desfecho trágico. O violento e psicótico Nick Santoro, papel de Joe Pesci ou a prostituta Ginger, vivida por Sharon Stone. Ambos ao seu modo se autodestroem, pois não sabem ou não conseguem mudar de vida. No meio está o jogador Sam “Ace” Rothstein, personagem sob medida para Robert De Niro, em atuação impecável. Pena que nos últimos anos, este grande ator vencedor de dois Oscar, um de coadjuvante por O poderoso chefão parte 2 e melhor ator por sua interpretação em Touro indomável, tem trabalhado no piloto automático em produções menores ou insignificantes.

O Touro Indomável

 

Com três horas de duração, Cassino é mais uma impressionante a ula de cinema de Scorsese. Um filme imperdível. Um dos melhores do gênero. Nick Santoro, logo nas primeiras cenas, em sua narração resume a história do filme, dizendo – “Esta foi a primeira vez que pés rapados como nós se deram bem, mas acabamos estragando tudo”. Simples assim.