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HOMENAGEM – PARTIU CABELEIRA, O COMENDADOR DO SAMBA! – Por Antônio Serpa Amaral Filho

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Mestre Cabeleira nasceu pra folia!
Foi incisivo na entrega da Comenda Mérito Cultural Bola Sete, no Bar do Calixto, perguntando ao cerimonial porque não havia música durante a entrega da homenagem. Claro, ele queria aproveitar o embalo e mostrar para o público a qualidade inigualável dos seus trejeitos cavalheirescos que há muitas décadas veio encantando a plateia na avenida durante o desfile da escola de samba.

Talvez a seu pedido, o Senhor das Esferas tenha concedido a ele uma Comenda Especialíssima: Partir no Dia do Samba, para que seu espírito desencarnasse bailando, deslizando em plumas de mil megatons, sambando numa onda luminosa, ao som dos clarins celestiais, possivelmente em ritmo de quizomba, para a morada do Altíssimo!

Um Mestre-Sala de verdade, como era Cabeleira, não pode ser visto apenas como um figurante folclórico do conjunto cênico de uma escola de samba. O que os olhos viam é uma coisa! Outra coisa é o que o olhar histórico enxergava diante dos passos daquele dançarino de opereta tropical, travestido de personagem da alta corte aristocrática de uma época em que sequer os negros podiam fazer batuque na cozinha, por que sinhá não queria, como disse Martinho da Vila. Em suas vestes de classe dominante do Brasil Colonial, apimentadas com o condimentos da alegria tupiniquim, e nos seus movimentos coreográficos, típicos da classe social que estava por cima da carne seca no século XVIII, transcendiam mensagens semióticas as mais diversas.

A paródia era uma delas. A consagração da liberdade era outra. Um negro ou um sarará, como era Cabeleira, usando os trajes dos antigos donos da vida e da morte, da cana, do ouro, do poder e do canavial inteiro, traduzia sem dúvida uma grande gozação dissimulada, acobertada sutilmente pela permissão quase absoluta aos brincantes nos folguedos de momo e sua troupe! Remonta a paródia aos tempos da Casa Grande e Senzala, em que os nobres mandões do Brasil exibiam seus guarda-roupas de luxo nas festas e orgias coloniais, em noites de gala, tudo bancado pelo sangue e suor da massa populacional negra que dava sustentação àquele modo de produção pré-capitalista, sob a égide do racismo e do trato cruel à pessoa afro-descendente, tratada como mercadoria e mão de obra absolutamente gratuita para os senhores de engenho e latifundiários de toda ordem. Na avenida, porém, já sob o Estado Republicano, os negros deram o troco e adotaram as mesmas vestimentas dos bacanas para mostrar aos opressores que um dia é da caça e o outro é do caçador! Um Mestre-Sala, devidamente acompanhado da sua Porta-Bandeira, evoca simbolicamente a conquista da liberdade, a alegria de viver, a afirmação da cultura negra e a pujança de uma raça que comeu o pão que o diabo amassou e deu a volta por cima! Embora ainda persistam muitas injustiças sociais com essa gente de Zumbi dos Palmares!

Por intuição ou pura vocação espiritual, quis a vida que Cabeleira encarnasse desde cedo esse personagem especial do carnaval brasileiro e fosse mundo afora mostrar sua arte, participando da fundação de Escolas de Samba, como Os Diplomatas, ao lado de Bola Sete, Leôncio e Bainha. Ultimamente, ele estava brincando na Escola de Samba Armário Grande, onde era presidente, se não me engano. Mas também esteve presente em vários outros blocos e escolas de samba da cidade.

No Bar do Calixto, logo após a entrega das Comendas a ele e Bainha, com o samba rolando solto, Cabeleira passou a dançar alegremente, com um sorriso doce nos lábios e uma alegria angelical, fazendo talvez o seu grande e último espetáculo ao público! O que ninguém sabia era que, no interior do seu espírito, ele já tinha acertado tudo com Deus: Partiria sóbria e majestosamente no dia do ritmo de Nélson Cavaquinho, Monarco da Portela, Paulinho da Viola e Beth Carvalho, para que os amigos e parentes não sofressem tanto com a viagem transcendental do fantástico e impoluto Antônio Chagas Campos, O Comendador do Samba!!!

O Rondoniense – Antônio Serpa Amaral Filho

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