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Lovecraft Country mistura Spielberg e Mitos de Cthulhu no quarto episódio

Como o primeiro episódio já sugeria, Lovecraft Country propõe ao público uma viagem a convenções do terror por um caminho que tem mais a ver com as aventuras de Steven Spielberg do que com o horror de H.P. Lovecraft propriamente. Isso fica latente no quarto episódio, “A History of Violence”, que retoma o referencial dos Mitos de Cthulhu mas o faz não como um cautionary tale e sim como um chamado triunfal ao desconhecido à moda Indiana Jones.

O episódio começa a reorganizar algumas dinâmicas que devem nortear o restante da primeira temporada, no sentido de mostrar qual é a extensão e o poder das casas que formam a Ordem do Antigo Amanhecer, e o que escondem certos personagens sobre elas. Se nos contos de Lovecraft os humanos devotos dos Grandes Antigos são retratados como peões a serviço do sobrenatural, na série da HBO a questão do poder (afinal trata-se de uma narrativa de fundo político) é mais importante, então é o sobrenatural que está a serviço das ambições dos homens.

É possível que isso mude até o fim da temporada, e o horror do inexplicável cobrará o preço das ousadias dos mortais, como o segundo episódio já mostrou um pouco no incidente do portal. Do contrário, então o vislumbre de Cthulhu do episódio de estreia será só isso mesmo, um easter egg para os entendidos em Lovecraft. O fato é que “A History of Violence” esboça uma reaproximação com Lovecraft para alicerçar a mitologia da série de TV, mas sem aquele clima de arrebatamento diante do alienígena; o horror no seriado vem da obra dos homens, os “monstros” escolhidos de Lovecraft Country.

Isso dá à aventura no episódio uma cara spielberguiana inevitavelmente, que lembra Os Goonies nos corredores alagados, e Indiana Jones no puzzle do braço e na travessia do abismo. Os perigos que se colocam diante de Tic, Leti e Montrose são como um passeio de parque de diversões assombrado e não como uma descida vertiginosa e sem volta numa tela de Escher.

Há pedaços de três contos famosos dos Mitos de Cthulhu servindo de referencial para o episódio: “O Chamado de Cthulhu” (toda a base supostamente antropológica das culturas e do folclore do Caribe e dos mares do Sul), “O Horror de Dunwich” (as cenas de ação dentro de um museu, locação que Lovecraft sempre visita) e “A Sombra de Innsmouth” (a sugestão de miscigenação “maldita” inscrita no perigo da subida da maré). É inevitável pensar neles quando o episódio inclui os povos do Pacífico na trama. Ainda assim, o que fica principalmente de H.P. Lovecraft – um autor inspirado pelos grandes nomes da literatura fantástica, como Julio Verne, citado no episódio – é a sua capacidade para imaginar situações de mau agouro, ainda que na série esse mau agouro continue sendo só uma promessa.

Os parágrafos abaixo contêm spoilers leves.

A entrada da personagem polinésia, particularmente, dá margem a críticas construtivas. Nos contos de Lovecraft, todo estrangeiro é uma ameaça em potencial, seja o negro descendente de africanos, o imigrante latino ou as exóticas criaturas das ilhas do Pacífico – essa ameaça é sintetizada na mistura do sexo, na miscigenação que acabaria com a pureza eurocêntrica dos pioneiros da América. Desde o começo Lovecraft Country se dispõe a acabar com essa visão de mundo preconceituosa, em relação aos negros, mas pelo visto a tentação de fazer da mulher polinésia um artigo de exotismo estrangeiro foi mais forte – e como se trata de uma produção da HBO inclusive já se espera que ela seja apresentada nua.

Pobre estrangeira incompreensível, silenciada à força. (Há ecos da misoginia de Game of Thrones aí ou não?) A violência cartunesca pontual, assim como a cena de sexo interracial que ocorre a certa altura no episódio, nesse sentido, nos lembram que a emissora de GoT e True Blood preza sempre por um nível seguro de sensacionalismo para atrair incautos e mover discussões, Lovecraft e Spielberg à parte.

Por Omelete