Brasil

Monga: o passado excêntrico e o futuro incerto das mulheres-gorila

Romeu Del Duque nunca esqueceu a empolgação do tio naquela tarde de 1966, ao lhe trazer uma pequena caixa contendo luzes, espelhos e dois bonecos de plástico. O manuseio dos apetrechos produzia um efeito curioso: o primeiro boneco parecia assumir as formas e cores do segundo, recuperando seu aspecto original depois de alguns minutos.

“Meu tio sempre foi um homem fantasioso. Ele achava que aquele negócio ia deixar a gente rico”, diz o empresário.

O kit era uma miniatura rudimentar do Pepper’s ghost, técnica assim batizada em homenagem a seu principal divulgador, o cientista britânico John Henry Pepper. Há mais de 150 anos, o truque tem sido utilizado em filmes e espetáculos de temática sobrenatural, conferindo aos intérpretes de fantasmas uma aparência translúcida e sinistra. Outra aplicação, que tanta euforia gerou em Romeu e seu tio, diz respeito aos shows de ilusionismo, com as luzes e espelhos produzindo um efeito visual de metamorfose.

“Meu tio disse ter descoberto o truque da mulher que vira macaco”, lembra Romeu. “Antes de ver a caixa, pensei que ele estivesse brincando.”

O número em questão, verdadeira febre nos circos e parques de diversões da época, obedecia sempre às mesmas etapas.

Iluminada por um foco de luz na escuridão, a mulher encarava o público com um olhar ameaçador. Geralmente bonita, encontrava-se presa numa jaula, parecendo guiada por um transe hipnótico, tão intenso quanto fossem as palavras do locutor, que aludiam a paisagens distantes, instintos adormecidos e a um passado misterioso.

Pouco a pouco, a transformação acontecia: os braços e pernas engrossavam, o rosto se expandia, as narinas se dilatavam, cabelos brotavam por toda a superfície do corpo. A mulher se convertia num gorila selvagem, que rompia as grades e avançava com violência sobre a plateia.

Assustados, os espectadores corriam para o lado de fora da tenda. Via de regra, não sobrava ninguém para testemunhar o desfecho da apresentação, quando o primata, já amansado, recuperava novamente os traços suaves de mulher.

Do Sumaré para o Rochdale

Filho de um palhaço com uma trapezista, Romeu era então um jovem artista circense. “Fiz de tudo, só não fui mágico”, afirma. “Sinto o maior orgulho de ter nascido em lona de circo”.

Apesar das origens, o futuro empresário nunca havia assistido a um show de mulher-gorila: tudo o que sabia sobre o número vinha de burburinhos e propaganda boca a boca. Com a morte do tio no Réveillon de 1968, a ideia de capitalizar a atração foi chutada para escanteio, e provavelmente teria permanecido em segundo plano se, meses depois, uma notícia não tivesse chegado aos seus ouvidos. “Havia surgido um cachê para quem levasse no Flávio Cavalcanti o truque da mulher-macaco”, recorda.

Nos auditórios da TV Tupi, o apresentador carioca comandava dois dos mais populares programas da televisão brasileira – A Grande Chance, transmitido às quintas-feiras, e Um Instante, Maestro!, sucesso das noites de sábado. A proposta mexeu com os brios de Romeu: “Rapaz, era grana pra cacete. Eu precisava beliscar aquele dinheiro. Mas eu não achava a caixinha de jeito nenhum.”

Só havia uma única solução possível – reconstruir do zero toda a parafernália trazida pelo tio, dessa vez em escala maior. Deu certo: “Além de pegar o cachê da televisão, eu ainda tinha um aparelho pronto para uso. Mambembe e feito na pescoçada, mas ainda assim muito bom”.

Do Sumaré, bairro nobre paulistano onde se localizavam os estúdios da Tupi, a mulher-gorila foi direto para o Rochdale, na periferia do município de Osasco, Grande São Paulo. O bairro, conhecido na cidade pelas constantes enchentes e alagamentos, abrigava temporariamente o modesto circo em que Romeu trabalhava: “Foi aí que o truque se tornou uma atração lá dentro. Eu fazia os anúncios e tudo o mais”.

O batizado da Monga

Com o fechamento do circo em 1972, novos caminhos se abriram para a mulher-gorila. Auxiliado pelo sócio Geraldo Rodrigues, já morto, Romeu decidiu levar o truque aos rodeios paulistas, começando pela Festa do Peão de Itapevi: “Montamos nosso próprio pavilhão. Desenhei um gorilão bem grande e botei ali na entrada”.

Sete pessoas formavam a equipe: Romeu, Geraldo, uma dupla de locutores, a mulher e dois dublês.

“Não dava para usar gravação naquela época. Tudo tinha que ser ao vivo”, explica Romeu. “E você morreria louco se narrasse de 70 a 80 sessões por noite. Então, a gente empregava dois locutores”.

Igualmente árduo era o cotidiano dos dublês – os indivíduos fantasiados que se revezavam para derrubar a jaula e correr na direção da plateia. “Imagine você, dentro de um lugar todo fechado, naquele calor total, tendo que usar uma roupa de macaco a noite inteira”, solidariza-se Romeu. “Eu até que tentava ligar um ventiladorzinho, mas nunca adiantou nada.”

O aspecto mais delicado do espetáculo, sustenta Romeu, era a contratação da mulher, embora as circunstâncias garantissem às candidatas uma rotina de trabalho relativamente mais branda que a dos colegas: “Tudo o que a moça precisava fazer era ficar ali parada”, resume o empresário. Apesar disso, as participações femininas sempre foram marcadas pela alta rotatividade – fenômeno que Romeu atribui ao assédio dos espectadores, ao caráter repetitivo das apresentações e a uma certa dose de estigmatização social.

“Como é que você chega de repente numa cidadezinha do interior e sai perguntando para as mulheres se elas querem usar biquíni e virar macaco?”, questiona. “Teve uma vez que o cara flagrou a noiva trabalhando de mulher-gorila e a gente precisou interromper a sessão para a coitada não apanhar”, recorda. “Sempre que possível, eu contratava casais. O rapaz fazia o macaco e a moça ficava lá na frente se apresentando com ele. Durava bastante e evitava problemas”.

Não demorou muito para que os envolvidos sentissem a necessidade de batizar a protagonista do espetáculo. “Sentei com o locutor e a gente desatou a pensar num nome”, conta Romeu. “Ficamos discutindo. Songa? Não, não soa legal. Conga? Não, é nome de sapato. Então, de estalo eu tive a ideia… Monga!”.

Em maio de 1974, os dois sócios foram convidados a participar de uma festa junina no recém-inaugurado Playcenter. Por mais de 20 anos, o estabelecimento da Marginal Tietê seria o maior parque de diversões de todo o estado de São Paulo. Durante uma década e meia, seria também a casa oficial da Monga.

Macacos e arquétipos

O show de Romeu não foi o primeiro, tampouco o último do gênero. Foi, contudo, o mais copiado e bem-sucedido. No imaginário brasileiro, Monga e mulher-gorila são termos praticamente sinônimos, muito embora o número seja pelo menos 20 anos mais velho que o Playcenter.

Já na década de 1950, a metamorfose de beldades em primatas ferozes arrastava multidões ao Parque Shangai, empreendimento paulistano que seria desativado em 1968. Mais ou menos na mesma época, as mulheres-gorila deram as caras em Aparecida, tradicional reduto católico no interior paulista, e desde então têm dividido espaço com as peregrinações religiosas do município. Na região Nordeste, o espetáculo ainda hoje faz algum sucesso em parques periféricos – quase sempre com o nome de Monga.

Mas as relações entre os símios e a vida circense antecedem o surgimento das mulheres-gorila.

Em 1933, o icônico longa-metragem King Kong estabeleceu o paradigma do gorila monstruoso que se opõe à civilização e à beleza feminina. Sequestrada por um produtor ganancioso e exibida em shows de variedades da Broadway, a criatura que dá nome ao filme se apaixona por uma mocinha loura e com ela sobe ao topo do Empire State Building – não sem antes destruir toda a cidade de Nova York.

Cinco anos depois, o gorila Gargantua, capturado ainda filhote no Congo Belga, despontaria nos circos americanos. O animal, de porte avantajado, tinha um comportamento agressivo e feições raivosas. Antes da fama, seu rosto havia sido queimado com ácido nítrico por um marinheiro bêbado. Nos picadeiros, era conhecido como “o verdadeiro King Kong”.

“Os filmes e o circo bebem dos mesmos arquétipos”, opina a pesquisadora paulistana Cris Siqueira. “São parte de uma mesma cultura popular não filtrada, que se apropria de elementos do mundo pop para devolvê-los ao público da maneira mais atraente possível. E nesse processo acabam revelando coisas, como se fossem espelhos distorcidos da sociedade.”

Formada em cinema, Cris se envolve com o universo circense desde o início dos anos 2000, quando tentou realizar um documentário sobre o globo da morte – tradicional espetáculo em que motociclistas percorrem, com muito barulho e velocidade, a superfície interna de uma jaula esférica. O projeto, no entanto, foi arquivado. Nesse ínterim, a pesquisadora trocou São Paulo por Milwaukee, cidade ao norte dos EUA em que vive ainda hoje.

Lá, cursou dois mestrados: o primeiro em cinema, com foco em vídeos experimentais, e o segundo em história, ambos pela Universidade de Wisconsin, onde também lecionaria. Paralelamente, seus interesses se voltavam, cada vez mais, para aquilo que os americanos chamam de sideshow – pequenos espetáculos itinerantes montados nas proximidades dos circos ou parques de diversões. No Brasil, o termo, sem nenhum equivalente exato em língua portuguesa, costuma ser traduzido como “circo de aberrações”. Uma denominação genérica e imprecisa, embora não desprovida de fundamento.

Uma estranha conexão entre o Brasil e os EUA

Envolto numa aura de marginalidade, o sideshow surgiu em meados do século 19, notabilizando-se pela exibição (real ou forjada) de autoflagelações, deformidades, anomalias genéticas e números exóticos em geral.

Em convenções do ramo, a pesquisadora manteve contato com artistas e empresários da velha guarda. Estes, por fim, lhe lançaram um convite. “Não aconteceu apenas comigo”, relata. “Quando eles percebem seu interesse, te chamam para ingressar na equipe. Eles pagam muito mal, e pensam que você vai achar pitoresco trabalhar por pouco dinheiro”.

Corria o ano de 2008, e Cris apressou-se em destacar as lacunas de sua formação, alegando não ter grandes talentos circenses. Mas Ward Hall e Chris Christ, donos do World of Wonders, um dos mais antigos sideshows em atividade nos EUA, fizeram apenas uma pergunta: se a pesquisadora sabia enfiar a cabeça num buraco. Ela respondeu que sim. Foi informada de que tinha talento sobrando.

“Então eu parti em turnê”, conta. “Foram dez dias numa feira do Estado de Minnesota. Doze horas de trabalho diário e ininterrupto num calor do cão. Uma experiência infernal. Eu adorei.”

Seu dormitório era um caminhão, onde também descansavam os demais artistas da trupe. Todos se revezavam na apresentação dos mesmos papéis: a programação dos sideshows é tradicionalmente organizada a partir de um esquema conhecido como ten-in-one, no qual um único ingresso confere ao possuidor o direito de assistir a um conjunto de dez números.

Mas, após o desfile de sereias, faquires, encantadores de serpentes e engolidores de espada, algo precisa ser feito para expulsar a multidão e abrir espaço às pessoas que aguardam do lado de fora. Trata-se de uma tarefa para a mulher-gorila.

A pesquisadora sentiu-se instigada. A presença do número em território americano fez com que ela se recordasse da Monga, que vira ainda criança no Playcenter. Depois, veio o lampejo: “Percebi que as mulheres-gorila eram a única conexão entre os parquinhos brasileiros e o sideshow dos EUA”.

Nos anos seguintes, Insatisfeita, desistiu da universidade, comprou uma van para usufruir de certo conforto e seguiu excursionando com as trupes. Foi mestra de cerimônias, mulher-serpente, mulher-aranha e, claro, mulher-gorila.

Essas incursões resultaram noutro projeto cinematográfico: o documentário Monga, coprodução Brasil-EUA que esmiúça a trajetória e as vivências cotidianas de pessoas ligadas à atração. Exibido em festivais americanos e sessões especiais em São Paulo, o filme levou seis anos para ser concluído e se baseia em dezenas de entrevistas colhidas em parques e circos de ambos os países.

“Os personagens americanos são todos muito amigos meus, mas no Nordeste brasileiro havia um medo de que eu revelasse os truques do show”, declara a pesquisadora, que assina a direção do longa-metragem. Aos artistas, ela jurou não descortinar esse mistério, e tem cumprido a promessa: “Faço questão de deixar bem claro que os heróis dessa história são pessoas autodidatas, que realizam coisas incríveis tendo pouca ou nenhuma instrução formal”.

Hellen, vulgo Gabora

A literatura sobre os meandros do sideshow é vasta, abrangendo centenas de livros e diversas revistas especializadas, como a Shocked and Amazed!, fundada em 1995. A artista Hellen Fury revela-se uma entusiasta desse tipo de material: “Meu fascínio pelo sideshow vem de longa data. Os livros foram minha primeira fonte de conhecimento sobre o tema”.

Hellen atua no meio há 15 anos. O início da carreira se deu em Amarillo, cidade texana de 200 mil habitantes onde apresentava números de pirofagia. “Costumo dizer que o fogo foi minha droga de entrada nesse mundo”, brinca. Em 2015, ela e o namorado fundaram o Pickled Punk Sideshow, trupe que promove uma releitura underground dos velhos espetáculos itinerantes americanos. Desde então, os membros têm se apresentado em clubes, festas de aniversário e shows de rock, como os da banda de crossover thrash D.R.I. e o trio de psychobilly Reverend Horton Heat.

Sua temporada como mulher-gorila, em meados de 2012, foi uma experiência decisiva nesse trajeto. “Para mim, o número sempre pareceu uma coisa misteriosa, até o momento em que conheci Tim Demerer”, recorda.

Morto em 2015, ele foi o proprietário do International Palace of Illusions, sideshow que tinha entre suas atrações uma das últimas mulheres-gorila dos EUA – a Gabora, cujo nome homenageava Zsa Zsa Gabor, socialite austro-húngara e diva hollywoodiana dos anos 1950.

Durante alguns meses de intenso trabalho, Hellen e Gabora foram a mesma pessoa: além de virar macaca dezenas de vezes ao dia, estabilizando-se como mulher somente após o anoitecer, a artista também auxiliava na logística do show, montando e desmontando a tenda sempre que o espetáculo abandonava uma cidade e chegava à outra.

“Todos os dias erguíamos nossos banners como se fôssemos piratas à caça de uma boa plateia”, compara ela, mencionando um tríptico de desenhos que retratavam uma garota seminua correndo em meio à selva, seu corpo escultural justaposto ao de um gorila e, por último, a metamorfose já consumada. Junto aos desenhos, estavam os letreiros: “Darwin tinha razão?”, questionava um deles; “Veja ela se transformar diante de seus olhos!”, desafiava o outro. Através de uma mensagem pré-gravada sobre um fundo de ruídos silvestres, o público era convidado a adquirir um ingresso e adentrar a tenda escura.

O dono do sideshow exigia imersão total na personagem: “Ele me ensinou como a Gabora deveria se movimentar, reagir aos comandos do espetáculo e se comportar frente ao público”. As instruções, muito rigorosas, não se limitavam ao momento das apresentações: quando não estivesse trancada na jaula, Hellen precisava se manter longe da vista de todos.

“A fim de preservar o mistério, eu tinha que cobrir o rosto sempre que precisasse sair da tenda para comer ou ir ao banheiro”, lembra a artista. “O espetáculo me pareceu um tanto solitário, pois geralmente tenho o hábito de interagir e socializar com a plateia.”

Chacoalhando a jaula

A solidão jamais impediu Hellen de se entreter em serviço. “Eu amava escutar os gritos do público quando, já transformada, começava a chacoalhar a jaula”, confessa a ex-mulher-gorila. “É muito divertido convencer seus amigos a entrarem na tenda e depois vê-los correndo desesperados para o lado de fora.”

Os relatos da artista parecem alinhados à visão comercial de Romeu. “Não adianta montar um espetáculo técnico, cheio dos enfeites e frescuras. Não funciona”, afirma o empresário. “Tem que ter bagunça, correria, macaco pulando na cabeça das pessoas. A emoção é essa daí.”

A catarse, afirma Hellen, baseia-se em mecanismos extremamente simples: “As mulheres-gorila podem ser bem assustadoras. Elas tocam nos medos mais primitivos da plateia, brincando com várias de suas emoções”. Cris concorda, e ressalta que a adrenalina experimentada pelo público tem raízes em particularidades locais.

No Brasil, observa a pesquisadora, o espetáculo adquire contornos mais sexualizados. A mulher geralmente se apresenta de biquíni, e sua transformação em gorila costuma ser precedida por danças sensuais. O auge do frenesi erótico marca também o início da metamorfose.

“Aqui, a questão central é o machismo. O número lida com a sexualidade reprimida, com a imagem da mulher histérica e descontrolada a ser mantida sob domínio masculino”, analisa. “O gorila é selvagem e empoderado, o extremo oposto da ideia que temos de uma mulher recatada e obediente.”

Já nos EUA, defende Cris, o número surge como um reflexo da questão racial: “A atração é toda construída em torno de referências africanas. Mas estamos falando de uma África imaginária, que não corresponde à realidade. É uma projeção focada no exótico, nas fantasias tropicais, nas roupas de caçador, como os safáris da Disney”. E acrescenta: “Tudo isso se relaciona com a necessidade de controle sobre o outro, que é algo muito americano. Mas aquela mulher é incontrolável, vira um gorila, quebra a jaula e sai correndo. Para eles, isso é o terror”.

Helen por vezes questionava a si mesma, com receio de perpetuar estereótipos. “Aqui nos EUA, as pessoas se mostram cada vez mais sensíveis a questões de raça e gênero. Na época, eu me sentia curiosa com a reação do público diante de um número desses”, relata. “Mas, no fim das contas, acredito que a plateia desejava apenas ser entretida pelo show. Atualmente, gosto de comparar o trabalho que desempenhei como Gabora ao de uma atriz dando vida a um personagem”.

Tudo quanto é “onga”

Helen se reconhece como representante tardia de uma classe quase extinta.

“O fetiche dos americanos por ações judiciais teve um impacto definitivo nos shows de mulheres-gorila. Nos primórdios, as pessoas tropeçavam, esfolavam um joelho, se levantavam e riam. Hoje em dia, infelizmente, os proprietários das atrações podem ser processados por qualquer bobagem.”

Romeu, por sua vez, associa o declínio das mulheres-gorila aos avanços tecnológicos. “Quando vieram os jogos eletrônicos e o videocassete, o povo começou a se afastar da diversão.”

Nostálgico, ele descreve o barracão que ergueu ao chegar no Playcenter: situava-se nos fundos do parque, próximo a uma pista de kart, e tinha sua entrada condicionada ao pagamento de três cruzeiros. “A fila da Monga dobrava. Aparelho importado de 600 mil dólares? A gente botava debaixo do braço.”

O espaço logo ficou pequeno, dando lugar a uma estrutura maior, construída pelo próprio Playcenter – o Castelo da Monga. “Mas eu montei a jaula e o truque lá dentro, porque nisso eu não deixava ninguém botar a mão”, destaca.

A atração, ressalta Romeu, também fazia parte do Playcenter Móvel – uma unidade itinerante e compacta criada para divulgar o parque em cidades mais afastadas. “Viajei muito, e depois disso surgiu mulher-macaco para tudo quanto é lado. Chonga, Bonga, Maratonga, Pitonga, tudo quanto é ‘onga'”, afirma. “Monga a gente não deixava, mas o pessoal usava mesmo assim.”

O nome, Romeu explica em seguida, é marca registrada de sua propriedade. Supervisionadas por ele, Mongas oficiais se assentariam noutros estabelecimentos de grande porte – o Beto Carrero World, em Santa Catarina, o Parque Guanabara, em Minas Gerais, e o Fantasilandia, no Chile.

A Monga do Playcenter desapareceu numa tarde de segunda-feira, 27 de junho de 1988, destruída por um incêndio. O parque chegou a ser interditado pela Prefeitura de São Paulo, então sob comando de Jânio Quadros, e só voltaria a contar com uma mulher-gorila em 2009, três anos antes de o Playcenter fechar as portas. O empresário não esteve envolvido nessa empreitada final.

Há quase três décadas, Romeu gerencia o parquinho do Centro de Tradições Nordestinas (CTN), no bairro do Limão, zona norte da capital paulista. À reportagem ele mostra o funcionamento dos brinquedos instalados no local: um carrossel, um barco viking, uma roda-gigante e carrinhos de bate-bate – todos construídos por ele mesmo, com o aval de engenheiros. “Esse maquinário dá um show, você precisa ver”, diz, orgulhoso, ao ligar a chave dos aparelhos.

Agora sonha em construir um gorila mecânico de oito metros, em cujas mãos o público se acomodará para ser erguido até a boca do animal: “Que nem o King Kong”, explica. Nas horas vagas, dedica-se a escrever um livro de memórias, provisoriamente intitulado A Verdadeira História da Monga. Acima de tudo, acredita no retorno da atração que ajudou a popularizar. E considera a Monga uma potencial heroína de histórias em quadrinhos.

“O Hulk não fica nervoso e vira um bichão verde? Então por que a mulher quando se irrita não pode virar um gorila e sair por aí fazendo justiça?”

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Fonte
BBC Brasil
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