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Mundo Mistério captura diversão e ciência sem perder o fôlego

O que aconteceria se a gente tentasse intercalar trechos de episódios da venerável série Cosmos com sequências saídas das aventuras de Lucas Silva e Silva, da noventista Mundo da Lua? O resultado é Mundo Mistério, a série educacional de Felipe Castanhari para a Netflix. E, acredite se quiser, a combinação improvável é deliciosa.

Como apresentador, Castanhari traz ao programa o carisma que lhe rendera milhões de fãs no YouTube com o canal Nostalgia, e quem o acompanhava por lá certamente enxergará na nova série a versão 2.0 de seus vídeos de ciência.

O formato, contudo, vai além disso. Mundo Mistério costura de forma orgânica um conteúdo denso, bem pesquisado e bem concatenado. Também traz valores de produção incríveis e uma ousada combinação de documentário e narrativa ficcional, em que os personagens ajudam a transformar o que seria um diálogo entre o apresentador e o espectador numa animada conversa de múltiplas vozes sobre temas fascinantes.

Castanhari é um dos membros da equipe de um laboratório que tem a cientista da turma, dra. Tay (vivida por Lilian Regina), o zelador das instalações, Betinho (interpretado por Bruno Miranda), e uma inteligência artificial, BRIGGS (com voz do dublador Guilherme Briggs). Juntos, eles abordam a cada programa um tema diferente, inspirado na experiência do criador da série com as demandas de seus seguidores no YouTube.

Os episódios oferecem um cardápio tão variado quanto intrigante: “Os mistérios do Triângulo das Bermudas”, “Os 20 milhões de mortos da Grande Peste”, “Aprendendo a viajar no tempo”, “Do lobo ao cão”, “Apocalipse Zumbi. E se fosse real?”, “A Grande Extinção”, “O caminho para a Superinteligência Artificial” e “Aquecimento Global. Uma grande conspiração?”

O único erro na lista foi ter mantido o piloto escrito para a série, sobre o Triângulo das Bermudas, para abrir a sequência. Pecando um pouco no ritmo e com uma narrativa truncada, que mais parece uma enorme sucessão de curiosidades destinadas a demonstrar que na verdade não há mistério algum sobre aquela região do Atlântico, ele sofre até com a dificuldade dos atores de encontrarem as vozes dos personagens. Resista à tentação de abandonar a série após os dez primeiros minutos do primeiro episódio. A partir do segundo melhora, e muito, e dali em diante o que vemos é um enorme sucesso em equilibrar os diversos elementos que constroem as narrativas de cada tema.

Em termos visuais, a série é um desbunde. Excelente fotografia, com direito a resolução 4K, cenários em estúdio muito bem projetados, filmagens em locação (com viagens a Bermudas, EUA e Reino Unido, além de altas e oportunas doses de instalações científicas brasileiras, como a USP de São Carlos, com seus relógios atômicos, e o acelerador Sirius, em Campinas) e a edição ágil que sempre marcou os vídeos de Castanhari no YouTube. Mas, se fosse preciso realçar um elemento em particular, teriam de ser as animações. Trazendo diferentes traços e estilos, elas saltam aos olhos pela beleza e pela harmonia. Ilustram de forma fantástica fatos, histórias e fenômenos que, de outro modo, seriam muito difíceis de representar em tela de maneira atraente. Entre cenários e animações, a direção de arte é realmente um destaque da produção, de fazer inveja a muitas produções estrangeiras.

Bem, e quanto ao conteúdo? Fora pequenas, compreensíveis e perdoáveis imprecisões, é impecável. É preciso caçar muito pelo em ovo para encontrar problemas. Todos os temas foram bem pesquisados, e os roteiros não fogem de ideias complexas, como a dilatação do tempo e a contração do espaço da teoria da relatividade ou a transmissão de doenças infecciosas (algo que era “notícia velha” em 2019 quando a série foi filmada, abordando os dramas medievais da peste bubônica, mas se tornou tema da ordem do dia por conta da pandemia do coronavírus).

Quer saber quão bem pesquisados foram? Basta dizer que ela é mais precisa do que, pasme, a atual temporada de CosmosMundos Possíveis, apresentada pelo astrofísico Neil deGrasse-Tyson. Pois é.

Mundo Mistério tem uma pegada jovem e um ritmo acelerado que representam a maneira possível de promover a ciência entre a molecada. A série é acessível e divertida, com momentos de rir alto, intercalados com apresentações dramáticas e emocionantes. É programa educacional de primeira linha.

Ainda assim, eu seria omisso se não mencionasse um pecado importante cometido de forma meio sistemática pela série: ela perpetua, de forma implícita, o mito da ciência como “verdade absoluta e taxativa” — uma ideia que tem muito mais a ver com a maneira como o público leigo enxerga a ciência do que como ela de fato é. Em seus segmentos de meia hora, a série não se preocupa em retratar o método científico — o caminho pelo qual os cientistas chegam a todas as conclusões apresentadas –, nem traz para o centro do palco as dúvidas, que são a força motriz do pensamento científico. Para uma série chamada Mundo Mistério, chega até a ser um contrassenso. Ao final de cada episódio, sobra muito pouco mistério, o que dá a impressão (errada) de que a ciência já tem todas as respostas.

Na maior parte das vezes, trata-se de uma oportunidade perdida de explicar como a ciência de fato opera. E, longe de ser um acessório, essa é uma peça fundamental para que as pessoas não joguem a ciência pela janela toda vez que cientistas apresentarem resultados discordantes ou contraditórios. Basta ver as falsas controvérsias geradas recentemente em torno de estimativas sobre o avanço da pandemia da covid-19 para perceber os perigos de uma sociedade que, embora tenha acesso aos resultados da ciência, não entende como ela chegou a eles, quais são seus limites e como eles devem ser interpretados.

Além disso, em alguns momentos o problema vai um pouco mais longe e vende o incerto como certo. No episódio sobre superinteligência artificial, temos uma apresentação fascinante do conceito conhecido como a singularidade tecnológica — o ápice das máquinas pensantes. Mas fica pelo caminho, sem ser sequer abordado, um grande “se”: para além da capacidade de processamento, é possível reproduzir em máquinas a consciência e a inteligência humanas? Há posições científicas para todos os gostos, mas o programa está fechado com a resposta “sim”. Calma, não tão depressa.

Pontuações como essa, longe de serem condenações, são apenas reflexões a serem levadas em conta em uma segunda temporada, que a essa altura trato como inevitável — e protestarei na porta da Netflix se não houver. Mundo Mistério é uma senhora série de divulgação científica e pode sim ser um marco para uma nova geração de apaixonados pela aventura do conhecimento. Sem falar que é superdivertida.

Salvador Nogueira é jornalista de ciência e editor da Coleção Trek Brasilis, série de livros-reportagem que abordam os mais variados aspectos da saga de Star Trek.

Por Omelete