Cultura

Não existem heróis limpinhos: reflexões a partir de “O gênio e o louco” – Marcos Pena Júnior*

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“O gênio e o louco” é um longa adaptado para o cinema a partir do livro “O professor e o louco” de Simon Winchester (além de autor do livro, ele co-assina o roteiro). Estória real que relata o cruzamento das vidas de dois homens no final do século XIX, o professor James Murray (Mel Gibson – Coração valente) e o doutor William Chester Minor (Sean Penn – Sobre meninos e lobos). O escocês autodidata, sem formação superior, Murray, é um self-made man dedicado ao estudo das línguas, que propõe liderar o projeto audacioso da elaboração do Dicionário Oxford da Língua Inglesa. A esse objetivo ele dedicaria sua vida e em função dele conheceria o Dr. Minor.

O Dr. Minor era um médico veterano da Guerra Civil Americana que lutou ao lado dos Unionistas. Homem muito culto e de posses, passa por grande reviravolta quando assassina acidentalmente o humilde trabalhador e pai de família britânico George Merrett, pensando estar perseguindo um suposto antigo inimigo de guerra. O Dr. Minor é considerado louco e condenado a reclusão no asilo de Broadmoor. O suposto inimigo seria um soldado irlandês que teria sido marcado no rosto por ele quando em campo na Guerra da Civil Americana como cirurgião do Exército da União.  Isso é narrado no filme, mas os registros do exército Unionista demonstram ter sido impossível isso ter acontecido de fato, pois na data do real incidente o Dr. Minor estava em serviço em outra localidade. De toda forma, ele passou o resto de sua vida atormentado por esse fantasma, ao ponto de cometer o assassinato pelo qual foi condenado em 1872 na Inglaterra. Viveria os quase 40 anos seguintes em Broadmoor. A viúva de Merrett, Eliza, o visitava no asilo de fato como retratado no filme e o presenteou com livros para a extensa biblioteca que Minor mantinha e que foi fonte para o seu imenso trabalho voluntário em contribuição ao dicionário. Foram mais de 10.000 entradas para o projeto do dicionário geradas por ele. Eliza realmente se tornou sua amiga. O filme mostra que ele decepou o próprio pênis como punição por ter conquistado o amor de Eliza, mas ao se realizar pesquisas sobre isso o que se encontra é que sua situação psíquica se deteriorou e ele teve alucinações de ter sido abduzido e forçado a praticar atos sexuais com crianças. Teria sido esse o motivo de sua autopeotomia. Nenhuma pesquisa retornou confirmação de que eles tenham tido um relacionamento amoroso. Sua liberação da pena e deportação para os Estados Unidos em 1910 pelo então secretário do interior Winston Churchill em consequência de campanha feita por Murray ocorreu realmente.

A história de vida do professor Murray teve caminhos muito mais pacíficos e auspiciosos. Nascido na Escócia, largou os estudos cedo para trabalhar, mas antes de completar 20 anos de idade se tornou professor de língua inglesa. Essa ocupação com certeza foi o que abriu caminhos para que ele se tornasse um lexicólogo. Ele foi professor de gramática de 1855 a 1885. Desse último ano até sua morte em 26 de julho de 1915 ele viveu em Oxford, trabalhando arduamente e contra detratores no New English Dictionary on Historical Principles (conhecido atualmente como The Oxford English Dictionary – dicionário Oxford da língua inglesa). Nesse tempo completou aproximadamente metade dele, que teve 10 volumes lançados entre fevereiro de 1884 e abril de 1928.

Se há algo que me parece elementar acerca do ser humano é sua dualidade. Temos o bem e o mal, a sordidez e a nobreza, a profundidade e a superficialidade dentro de nós. Heróis e vilões fazem sentido (e com ressalvas) apenas no mundo das HQs. No mundo real, os indivíduos são muito mais complexos, incoerentes (paradoxais até) e inconstantes que essa mera dualidade implica. O impacto e o poder de atração de “Crime e castigo”, nossa estupefação com a incoerência de Raskólnikov não são a toa. Arrisco dizer que acima de ser um escritor imortal, Dostoiévski é uma referência eterna de análise do que é o ser humano. Não me venham com dualismos, portanto! Por isso mesmo, o cristianismo e o conservadorismo me são filosofias caras.

Temos no centro da história em “O gênio e o louco” duas vidas com suas doses de genialidade, loucura, determinação, fraqueza, honestidade, bravura e falhas. Quem não diria que alguém que espera editar um dicionário que dê conta de todas as palavras de sua língua com seu significado, evoluções de entendimento e uso, incluindo citações é um louco?! E quem não diria que um indivíduo capaz de alcançar excelência em campos tão distintos quanto a medicina e a linguagem é um gênio?! Quem quiser que fique à vontade para achar que é algo, eu morrerei batalhando para a cada dia estar alguma coisa de bom, controlando minha loucura e buscando produzir qualquer coisa próxima a algo de genial.

 

  • Marcos Pena Júnior é economista e escritor, mantém suas produções disponíveis em marcospenajr.com.
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Mais sobre o autor

Ler, Pensar e Escrever | Marco Pena Jr

Ler, Pensar e Escrever | Marco Pena Jr

Marcos Pena Júnior é natural de Caruaru, Pernambuco. Afirma que se entende como uma grande e histórica mistura de índios, negros, mamelucos, mestiços, brancos, “portugueses da Holanda”, caboclos e mulatos, como escreveu em seu poema “Quantos rios nascem no Sertão e desembocam no Mar?”. No final da adolescência rumou para Natal, no Rio Grande do Norte, onde aos dezessete anos iniciou graduação em ciências econômicas e começou a trabalhar. Também aí cursou MBA e mestrado em engenharia de produção. Diversas atividades profissionais foram se seguindo ao longo do tempo, tendo sido sua atuação como professor universitário, tanto na Universidade Federal do RN, quanto em uma faculdade particular, a que mais o cativou. Também na capital potiguar, casou e teve filhas. Na virada dos anos 2000 para os 2010 mudou para Brasília, Distrito Federal. Atualmente vive na capital do País. Desde a adolescência tem interesse especial por literatura, escrevendo poemas desde muito cedo. Atualmente dedica-se a escrever poemas, artigos de opinião, resenhas, críticas, artigos técnico-científicos, além de achar um tempinho para fotografia … ver e sentir o mundo, no fim das contas, é o que o atrai.