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Rondônia

NEM VEM ENORME QUE EU TE MOSTRO MEU MACETA – Por Álisson Chaves

Das besteiras que a gente faz e repete na vida essa aqui eu finjo humildade e admito, eu já disse: “Rondônia é um lugar que não tem cultura própria”. E para variar minha investida de sabido (só que não, mesmo) eu defendia a teoria: “…é um Estado muito novo, cheio de migrantes de todos os cantos, há cidades que praticamente nenhuma pessoa adulta é nascida aqui”. Foi dito isso, assumo. Não me dê zero ainda porque esse texto é de retratação.

Rondônia tem cultura sim, moço. E digo mais, é legal que só. O território é claramente um dos últimos a ser elevado à estado e sua migração não para nem fica pouca, ainda bem. E isso não bloqueou nossa identidade. Na verdade, o tempo fez um bem danado…já houve época em que os nascidos entre rio Guaporé abaixo ou rio Madeira acima tinham todo o cuidado para dizer de onde vinham, muita gente se achava claramente inferior aos brasileiros do Centro-Sul. Era a ignorância da época, acontece. Hoje para nossa surpresa com meia hora de trânsito na capital, você encontra adesivo da bandeira local em carro velho e carrão importação. Já vi parar o  churrasco, samba, sertanejo e rockão para a galera cantar o hino de “Céus de Rondônia”. É, o jogo está virando, já tem bastante rondoniense minhoca ou de coração totalmente identificado com nossa cultura.

Avançamos tanto que a websfera é azul, amarela, verde e tem sua devida estrela branca no meio, desde criancinha. E pelo jeito ninguém para mais. Começou com várias comunidades de humor na finada rede social Orkut e agora já tem Curso de PortoVelhês Para Principiantes no Youtube. Tem um instagram super criativo que alegra e diverte o coração de rondonienses espelhados no mundo inteiro, falo do @cegadabolota. Tem eu, a Ritinha e mais uma galera com artigos aqui no Portal ORondoniense. E para quem quiser ficar bom mesmo, principalmente no vocabulário, faça o favor de se presentear e adquirir os livros da mestre Nair Ferreira Gurgel.

Livros da mestre Nair Gurgel são sempre ótimos passaportes para o entendimento da cultura local.

Como de costume vamos de palinha na parte prática. Rondoniense não mente; dá a cega. E detalhe: tem os níveis…o comum que é cega ou cega da bolota, e tem aquela mentira que é tão cega, intragável difícil até de manter a amizade de tão forçada, que é a Cega das Cegas. Pense. Sabe aquele seu colega de trabalho todo “Seachani”, coitado? Então ele tá de Gabolice. Isso mesmo, érreó que é érreó não tem orgulho besta, mas fica de Gabolice. Por aqui ninguém rouba. Sérião! Arrocha. Inclusive, já arrocharam a garrafinha de água da minha bike. Pelamorde! E aqui não tem nada enorme, não me venha com isso pra cá, aqui é Maceta. Exemplo: “Cara, estou trabalhando de designer, não aguento cara, o cliente muito do senhor sabido, diz que, queria a logo maceta, não sobrou espaço para mais nada”.

A artista Jória Lima criou um canal para apresentar e explicar o portovelhês

Quero deixar claro que minha amiga lá do final do Cone Sul, Chupinguaia ou a leitora lá na região do Vale do Guaporé pode não entender o que é um “Cega” ou uma “Gabolice” da vida. Explico – agora sem achismo, mas com alguma propriedade – que Rondônia, em maneira didática na verdade são duas, mas nada de separatismo, é só questão de povoamento e circunstância histórica. A parte metropolitana que pega de Guajará, toda Porto Velho e se duvidar até parte de Ariquemes é parte “metropolitana”, mais antiga, decorrente da extração da borracha, construção da EFMM, migração de nordestinos, indígenas, estrangeiros e caboclos…a maior parte desse “jeito” tem essa pegada. De Ariquemes em diante a migração já foi iniciada por outros ciclos econômicos, programa nacional de desenvolvimento da região, muitas cidades criadas no mesmo ano, 1977, com muitos colonos paranaenses, gaúchos, mineiros e não acaba mais a mistura boa.

O insta que faz sucesso na web, falando do modo RO de ser

E o preconceito e a xenofobia, faz o quê? Honestamente não podemos fazer muito pelo pensamento e ação do outro. Lá na capital paulista uma multidão se acha superior ao cidadão caipira do mesmo estado só que mora em Brotas ou Bauru. Há ainda quem queira tornar uma região com três estados um país independente. E têm lugares com preconceitos injustificáveis com os nordestinos. Isso existe, temo nunca acabar, apenas diminuir. Humanos sendo menos do que podem ser como humanos, acontece. De toda forma de conta da sua parte, o seu quintal tem que estar preparado. Se quiserem dar uma doidão para seu lado, não recue, vá forte com essa força que Deus te deu de quem vem do Norte. Se alguém crescer para seu lado dando a cega que é enorme diante você é pequeno que só, deixa não e vá no papo reto: “Não vem enorme que eu te mostro meu Maceta!”

Rondônia tem cultura própria, convido você a conhecer, vale a pena.

Sobre o Autor

Álisson Chaves, 35, cria de Porto Velho/RO, atua na área de comunicação há 16 anos.
É graduado em Publicidade e Propaganda e autor do livro “30 Contos que Escrevi e Fiz de Tudo pra Não Te Contar”, pela editora Clube dos Autores.

Nos momentos de lazer pratica esportes e experimenta mídias fora da rotina de trabalho (vídeo minuto, literatura de cordel e outros). Bairrista quase totalmente assumido, sonha por um país sustentável, mais comprometido e, acima de tudo, livre da penca de mimos e idolatria a políticos.

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