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NOSTALGIA – Trilhas inesquecíveis de novelas – Por Humberto Oliveira

Houve um tempo em que os noveleiros de plantão aguardavam ansiosos e sedentos o lançamento dos discos com as trilhas sonoras das novelas prediletas. Dava gosto colocar o LP no toca discos para ouvir aquela ou aquelas musicas especialmente escolhidas para acompanhar determinados personagens durante toda a trama.

Faz tempo que essa alegria deixou de existir, pois os atuais temas musicais, não todos, claro, mas a maioria não passa de lixo empurrado pela mídia nos ouvidos dos telespectadores. Não estou sendo nostálgico. Nada disso. Estou sendo realista. Nem tudo de “antigamente” era realmente bom, porém, hoje em dia, convenhamos, o mal gosto musical virou febre nacional.

Meu amigo Carlos Océlio, um colecionador apaixonado por trilhas de novelas, mas somente dos anos 1990 para trás. A coleção dele, que eu me lembre, era sensacional. No entanto, não quer dizer que ele era um noveleiro. Océlio gostava mesmo das músicas selecionadas. Só isso. Outra pessoa é a Katia, minha mulher. Ela acompanhou muitas telenovelas, porém, de um determinado período. Hoje não mais. Ela também possui uma coleção invejável de trilhas, em cd, óbvio. Outro dia peguei seis do seu acervo para ouvir. Ao final, a conclusão foi óbvia as trilhas sonoras inesquecíveis são de novelas antigas, por exemplo, Gina, Gabriela, Espelho mágico, O astro, O casarão e Coração alado.

 

Exibida de 26 de junho a 7 de outubro de 1978, a novela Gina, adaptação de Rubens Ewald Filho, isso mesmo, o saudoso crítico de cinema também escreveu telenovelas. Baseada na obra de Maria José Dupré, a mesma autora de Éramos seis, a trilha traz na faixa musical intérpretes hoje injustamente esquecidos pelo público, dentre eles, Lúcio Alves, Sylvia Telles, Sérgio Ricardo, e tem até João Gilberto cantando Desafinado, clássico da Bossa Nova de autoria de Tom Jobim e Newton Mendonça. O astro é outra novela cuja trilha sonora deve ser citada, pois é impecável. João Bosco canta a canção de abertura Bijuterias. Tão boa que foi mantida na nova versão. Nomes como Maria Bethânia, Clara Nunes, Francis Hime, Rita Lee completam o time de intérpretes.

O que dizer das músicas de Coração alado? Folhetim televisivo assinado por Janete Clair, a nossa senhora da oito, exibido de 11 de agosto de 1980 a 14 de março de 1981. O público foi brindado com músicas maravilhosas. Noturno, com Fagner, abrindo cada capítulo. Escravo da alegria, do último disco de Toquinho com Vinicius, e ainda Ângela Ro Ro, cantando Amor, meu grande amor, Chico Buarque e Francis Hime, Maria Bethânia. Ou seja, apenas a nata da música popular brasileira. Inesquecíveis a trilha selecionada para Espelho mágico, de Lauro César Muniz, exibida de 14 de junho a 5 de dezembro de 1977. O autor usou e abusou de um recurso pouco ou nada conhecido à época, metalinguagem para contar a história e bastidores de uma novela dentro da novela. Muito complicado para o público daquele tempo. Mas a trilha nada tinha de complicada. A linda Maninha, com Chico Buarque e Miúcha, sua irmã, Tigresa, com Gal Costa. Tinha até o saudoso Antônio Marcos interpretando Sonhos de um palhaço.

Outra ótima novela merecedora de citação é O casarão, também de Lauro César Muniz. Foi levada ao ar de 7 de julho a 11 de dezembro de 1976. O autor dividiu a história em três épocas distintas. De 1900 a 1911, a segunda em 1926 e de 1936 a 1976. Mais uma vez o público ficou confuso, porque as épocas não eram mostradas em ordem cronológica. Tantas idas e vindas no tempo, o telespectador não deu o devido valor e atenção à novela. Era 1976, portanto haja cabeça para entender. A trama parecia uma biografia disfarçada do poeta Vinicius de Moraes. Contava a história do escultor João Maciel, vivido por Gracindo Júnior, na fase jovem e por Paulo Gracindo, na fase adulta. Na trilha, pérolas como Só louco, de Caymmi, na voz de Gal Costa, mas tinha João Bosco, Hermes Aquino, e outros.

A minha predileta deixei para o final. Refiro-me a Gabriela, na adaptação perfeita de Walter George Durst com base na obra de Jorge Amado, Gabriela, cravo e canela, na telinha imortalizada por Sônia Braga, no auge da beleza. Na direção, o genial Walter Avancini, na trilha sonora MPB 4, Moraes Moreira, Djavan, Maria Bethânia, Gal Costa, Fafá de Belém, Elomar Figueira Mello, Alceu Valença. Um disco sensacional e inesquecível.