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O Brasil de todas as cores – Por Edmilson da Silva

Sabemos que a nossa memória é um tanto seletiva, mas há lembranças que não conseguimos esquecer. Quando encerrei as últimas atividades do Curso de Engenharia Agronômica na faculdade da Universidade Federal do Ceará em Fortaleza, retornei para o interior para me preparar para colação. Minha família, apesar de pobre, tinha condições suficientes para me proporcionar uma bela formatura. Fui então com a minha mãe comprar a roupa para a festa e ao entrarmos em uma loja de sapatos, relativamente chique, gostei de um modelo e perguntei para a vendedora o valor. A resposta dela, após me olhar de cima a baixo, foi surpreendente: “Esse é um pouco caro, mas temos uns modelos mais em conta. Você não quer olhar?” Fiquei um tanto constrangido e meio sem palavras. A minha mão rapidamente interviu. “Não. Ele queria ver esse ai. Mas já que você não pode mostrar, vamos a outra loja.”

A lembrança, apesar de marcante, não me traz mais nenhum rancor. Entendi, com o tempo, o comportamento da vendedora e percebi que ela foi tão vítima quanto eu. Na verdade a sua intenção era muito mais me ajudar do que constranger.

É preciso entender que o Brasil foi colonizado por brancos europeus que chegaram, se apossaram da terra e das riquezas e tomaram como suas, a posse dessa terra. Foram donos por séculos e construíram essa identidade no seu DNA. Ao contrário, o Negro foi trazido escravizado, para ser explorado e submetido à servidão do branco dono dos meios de produção e também, para sua infelicidade, moldou a sua conduta social a partir dessa realidade. Vamos deixar os índios fora dessa, por enquanto.

“Libertados” da escravidão, os negros ficaram abandonados, ao “deus dará”, sem terras, sem riquezas, sem meios de produção, submetidos ao trabalho parcamente remunerado, em uma espécie de escravidão branca. Apesar da mudança política, a estrutura social se manteve e ainda hoje guarda resquícios muito fortes da sua existência.

São esses resquícios que agora parecem aflorar com força estimulando aqueles que ainda trazem no seu subconsciente a certeza do poderio, da supremacia “branca”, da titularidade do poder político e social e da propriedade dos meios de produção de riqueza, apesar da nossa histórica miscigenação. No íntimo dessas pessoas é intolerável que alguém que não tenha pele branca e olhos azuis ouse adentrar nesse meio social.

E o qual o papel do Estado? Evidente que, para que o Estado possa adotar políticas de inserção e ajuste dessas condutas sociais, é preciso reconhecer antes a existência dessa realidade. Esse não parece ser o caso do Governo Bolsonaro. Ao contrário, a principal instituição, a Fundação Palmares, cujo nome representa um ícone da resistência quilombola, tem no seu comando um Negro que renega a existência de segregação racial. A sua escolha, certamente não foi à toa já que temos um Presidente que tem minimizado ou ignorado episódios como o ocorrido em Porto Alegre e um Vice que diz que racismo no Brasil não existe e estamos tentando importar problemas de outros países.

Ao que parece, todo esse movimento crescente está associado à tentativa de resgate do poder da casa grande, e o consequente ressurgimento da senzala incorporada por uma parte pequena de pretensos brancos puros que imaginam não terem sidos contaminados pela nossa salada racial. Ao reagirmos, não podemos cair na cilada de agir de forma diametralmente oposta, visto que a maior parte de nós, brancos, pretos, caboclos e índios temos a clara intenção de construir uma igualdade racial sem privilégios ou sacrilégios para qualquer grupo étnico.

Assim, os fatos graves que se sucedem dia a dia e tem se tornado acada dia mais evidentes, precisam ser enfrentados e rechaçados por todos pontualmente, sem serem transformados em instrumento de revolta de um determinado grupo étnico, colocando em risco a estabilidade das relações sempre amistosas, existentes entre a grande maioria de nós de todas as cores. Afinal, o meu sangue predominantemente negro está pigmentado pelo branco europeu e o amarelo indígena. E a essa evidência, não temos como negar.

José Edmilson da Silva é Engenheiro Agrônomo, Bacharel em Direito, Professor e Servidor Público Federal