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O dia em que Socorro Araújo me apresentou O tesouro de Sierra Madre – Por Humberto Oliveira

O homem que queria ser rei, com Sean Connery, Michael Caine e Christopher Plummer, foi primeiro filme do diretor John Huston que assisti, ainda muito jovem, numa sessão coruja, da Globo. Uma aventura passada num país exótico, em locações reais, bem ao gosto de Huston. A segunda vez assisti na sessão de cinema coordenada por minha amiga e cinéfila Socorro Araújo, que promovia, toda semana, exibições de clássicos na AABB, em Fortaleza. Ela me reapresentou esse clássico de John Huston estrelado por um irreconhecível Humphrey Bogart como o irascível e violento Dobbs, numa interpretação atípica em sua carreira repleta de policiais, detetives e gângsteres.

John Huston mostra em O Tesouro de Sierra Madre que o ser humano é um animal ganancioso por natureza. Seu instinto predador ainda é intensamente arraigado e sua irracionalidade, preservada. Basta um estímulo, uma situação que o desloque da normalidade e pronto: lá estamos nós, agindo como os animais que somos.

Neste filme, Humphrey Bogart interpreta um americano que passa por sérias dificuldades financeiras e acaba conhecendo outro americano Curtin (Holt), na mesma situação. Eles conhecem Howard (Walter Huston, pai do diretor) que conta que ficou rico e perdeu tudo minerando ouro. Dobbs e Curtin resolvem investir o que têm em uma expedição em busca de ouro, ao lado do velho Howard, que lhes avisa sobre o poder maléfico que a `febre do ouro` pode provocar nos homens. Dobbs nega que isso possa lhe acontecer, acusando Howard de ter uma `mente suja`.

Nesta jornada o caráter de cada um será testado. A cada pequeno acontecimento o comportamento vai se alterando, principalmente de Dobbs, à medida em que vão extraindo o ouro de Sierra Madre, os olhares destes homens tornam-se desconfiados e eles passam a se encarar com reservas. A paranoia rapidamente se instala. Dobbs desconfia dos companheiros e num determinado momento, achando que Curtin o quer morto, ataca primeiro e atira no companheiro.

Walter Huston interpreta um velho banguela (seu filho John Huston o obrigou a tirar a dentadura para fazer este filme) e experiente, que consegue prever praticamente tudo o que acontece no desenrolar da história. Ele conhece a ganância humana, mas não a teme, tendo consciência de que ela faz parte do jogo e da qual homem nenhum pode escapar. Ele confia em seus amigos, mas também tem seus receios (como demonstrado na cena em que ele olha para trás, ao partir com os índios). Enquanto isso, Tim Holt faz o contraponto a Humphrey Bogart, representando a esperança que John Huston ainda nutria pelo caráter dos homens.

Mais que um cineasta, John Huston era mesmo um aventureiro sedutor, que dirigiu filmes na África, Índia, México, Paquistão e outros lugares nada comuns para onde levava seus atores, dentre eles, Humphrey Bogart, com quem trabalhou em seu primeiro trabalho atrás das câmeras, o clássico Relíquia macabra e mais tarde na obra prima O tesouro de Sierra Madre, Paixões em fúria, O diabo riu por último, uma aventura na África, por cuja atuação Bogart ganhou o único Oscar da carreira.

John Huston nasceu em 5 de agosto de 1906 em Nevada, Missouri e morreu em 28 de agosto de 1987, em Middletown, Rhode Island. Filho do ator Walter Huston, desde criança acompanhou-o em viagens por todo o país. Foi boxeador, soldado da cavalaria mexicana, autor de contos e peças, jornalista e ator antes de começar a escrever para cinema, em 1931. Estreou como diretor em Relíquia macabra, baseado no romance de Dashiell Hammett. O filme inaugurou a associação de Huston com Humphrey Bogart e tornou-se um clássico. Outros filmes seus se tornaram clássicos, como o Segredo das joias, inspiração para Stanley Kubrick realizar O grande golpe, cujo tema é um assalto malsucedido. Ambos inspiraram Quentin Tarantino em Cães de aluguel.

A técnica de Huston era instintiva. Nunca filmava uma cena duas vezes; preferia solucionar os problemas na montagem. Huston também atuou como ator em alguns de seus filmes, como Roy Bean, o homem da lei e de outros diretores, destacando-se em Chinatown, de Roman Polanski. Adaptou muitas obras literárias para o cinema, entre elas, A glória de um covarde, de Stephen Crane, Moby Dick, de Herman Melville, A noite do iguana, de Tennessee Williams, O homem que queria ser rei, de Rudyard Kipling, À sombra do vulcão, de Malcolm Lowry, dentre outros. Seu último filme, Os vivos e os mortos, de lançamento póstumo, baseado num conto de James Joyce.

Huston ganhou um Oscar de melhor diretor por O tesouro de Sierra Madre. O pai, o veterano Walter Huston venceu o de melhor ator por seu papel no longa. Muitos anos depois, também sob a direção de Huston, foi a vez da filha Angélica Huston levar um Oscar para casa por A honra do poderoso Prizzi. Tudo em família, afinal. O ator Danny Huston, de filmes como O jardineiro fiel, de Fernando Meirelles, O fim da escuridão, de Martin Campbell, dentre outras produções, também é filho do diretor.

Trailer clássico original de “O Tesouro de Sierra Madre”: