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O Fantasma da Fome – Por Edmilson da Silva

William West/AFP

Não havia nada mais interessante para fazer. Os programas vespertinos eram as principais atrações dos domingos e reuniam as famílias na frente da TV após o almoço.

Em meio a diversão o apelo emocionado dos apresentadores convocavam as famílias a contribuírem com roupas usadas, alimentos não perecíveis, colchões, água e depósitos em conta bancária, para ajudarem as famílias que estavam a passar fome no Nordeste. As campanhas se estendiam por toda programação das TV’s e os Jornais diários mostravam a tragédia que se estendia por todo semiárido nordestino. A cena é relativamente recente, anos oitenta, mas a história se repetia a quinhentos anos. A seca, sempre foi a grande vilã e o pretexto ideal para justificar a ineficiência dos Governos no enfrentamento da fome naquela Região.

Em setembro passado, o IBGE divulgou um relatório em que indica a volta do Brasil ao Mapa da Fome, do qual tinha saído em 2013. Esse relatório só confirma o alerta da FAO – Agencia das Nações Unidas que trata da alimentação e agricultura, feito em junho deste ano, acerca da fome no Brasil. Segundo a ONU, o País entra no mapa da fome, quando 5% da população ingerem menos calorias do que a quantidade recomendável.

Consta do relatório do IBGE, que em 2004, 65,1% da população em média, dizia ter acesso garantido a alimentação. Em 2013, esse número chegou a 77,4%. Mas em 2018, voltou a níveis próximo de 2004, ou seja, 63,3%.

Outros números interessantes do relatório apontam as discrepâncias regionais. Como não podia ser diferente, os índices mostram um abismo social entre as regiões Norte e Nordeste e as demais regiões. Enquanto no Norte o percentual é de 43% e no Nordeste 49,7%. O Sul, que tem o índice mais alto, este chega a 79,3%. Essa diferença ainda é resquícios das políticas institucionais de distribuição de riquezas para estas regiões em detrimento das regiões mais pobres.

Com a redistribuição da pobreza, o mote seca perdeu a importância e outros diversos fatores entraram em cena e os olhos antes atentos ao semiárido, se voltaram para os grandes centros urbanos onde hoje se enxerga na prática, o maior problema da fome, com o número cada vez mais crescente de pedintes e moradores de rua. No entanto, os dados do relatório do IBGE, contraria essa lógica e mostra que na zona rural o índice de insegurança alimentar é muito maior, 7,1%, em comparação com o meio urbano cujo índice é de apenas 4,1%, abaixo do índice apontado pela ONU como referência para um País estar no Mapa da Fome.

O texto inicialmente trata da fome no Nordeste, mas o relatório do IBGE e o alerta da FAO tratam da fome no Brasil. Limitada, ou pelo menos vista antes apenas no semiárido nordestino a fome se estendeu pelo país e a seca perdeu seu status. Já não é mais razão maior do empobrecimento proeminente que tem se agravado em todo território nacional. O aglomerado de lajes nas periferias das grandes cidades, agora chama mais atenção do que “as bandeiras que separam quintais” no sertão nordestino.

José Edmilson da Silva é Engenheiro Agrônomo, Bacharel em Direito, Professor e Servidor Público Federal