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O Homem e o Escorpião – Por Edmilson da Silva

“O escorpião queria atravessar o rio e pediu ajuda para o sapo. O sapo lhe disse que não confiava nele e, portanto não poderia lhe ajudar, porque quando chegasse no meio do rio o escorpião iria lhe picar e ele poderia morrer. O escorpião falou para o sapo que jamais faria isso, pois se fizesse também morreria afogado. Convencido, o sapo resolveu ajudar o escorpião. No meio do rio, o escorpião picou o sapo que logo sentiu os efeitos do veneno. Antes de morrer o sapo questionou o escorpião o porquê dele ter feito aquilo, já que ele prometera não fazê-lo. O escorpião respondeu: é da minha natureza. Não tenho como lutar contra a minha natureza.”

Em março de 2020 o Governador de Minas Gerais, Romeu Zema, provocou um rebu ao dizer que a questão da opressão contra a mulher, estaria relacionada com o “que a gente poderia chamar meio que instinto natural do ser humano”. Será?

Contam que na pré-história para “conquistar ” a mulher o homem dava uma cacetada na cabeça e a arrastava pelo cabelos para dentro de uma caverna. Brutal não era? A História escrita da humanidade registra desde os primórdios o domínio do gênero masculino pela força bruta ou psicológica impondo submissão feminina.

Na atualidade, apesar de toda evolução humana, os casos de violência nas mais variadas formas ainda se repetem com muita frequência. Nos últimos dias temos mais uma vez nos deparado com casos emblemáticos que tratam da relação homem mulher que se destacaram por questões peculiares, além dos casos corriqueiros que ocorrem aos milhares sem o conhecimento das autoridades e da sociedade como todo.

O Governador pediu desculpas alguns dias depois, mas talvez ele tenha razão. Há uma ancestralidade nesse comportamento, provavelmente em razão da lei natural da perpetuação das espécies. Por força dessa lei a grande maioria das espécies animais se reproduzem por meio de rituais que beiram a violência. As fêmeas, que instintivamente só permitem a cópula quando estão no cio, emitem sinais e odores que incitam os machos em volta a se enfrentarem numa disputa ferrenha em que o mais forte geralmente vence e conquista o interesse da fêmea. Essa conquista dar a aquele macho a sensação de posse, de propriedade, de guardião da família construída a partir daquela conquista. Durante os séculos, várias foram as formas de conquista do homem com métodos que vão do duelo de cavalheiros , compra e venda de mulheres, até chegarmos aos dias de hoje onde o cavalheiro deve conquistar a dama.

Nesse processo de evolução, alguns homens, assim como o escorpião, ainda agem por puro instinto e não conseguem fugir da sua própria natureza. Adotam uma postura possessiva e tratam as companheiras como se fossem objetos submissos as suas vontades, desejos e ordens superiores. Não conseguiram absorver a civilidade nem a evolução social experimentada pela maioria das culturas contemporâneas, visto que em alguns lugares do mundo esse comportamento é absolutamente normal. No Brasil, os casos de violência contra mulher são muito comuns e a sensação de que dar e que estão aumentando intensamente e continuamente.

É aí que entra o Estado no seu papel imperativo de controlar o meio social criando formas de proteção aos grupos mais vulneráveis , nesse caso específico, as mulheres. Assim, é estranho vermos um Juiz de Direito, em plena audiência ignorar a existência de uma Lei criada pelo Estado para esse fim atribuindo a vítima a culpa pela ameaça ou violência sofrida. A mensagem transcrita de um vídeo divulgado pela imprensa, supostamente atribuída a um juiz de direito de São Paulo, “Se tem lei Maria da Penha contra a mãe, eu não tô nem aí. Uma coisa eu aprendi na vida de juiz: ninguém agride ninguém de graça”, choca bastante, quando imaginamos que o Estado ali personificado na figura daquela autoridade deveria a priori, decidir a lide assegurando a cada uma das partes o direto que lhe cabe sem tentar justificar a decisão atrelando o comportamento violento de uma das partes ao comportamento provocativo da outra, criando uma espécie de “legítima defesa”. Em outras palavras, em sendo verdade a fala atribuída ao juiz e tendo ela essa a conotação, a vingar essa tese, estaria o Estado dizendo de modo bem simples: se merecer pode apanhar.

É bom lembrar, que até pouco tempo os feminicidas eram inocentados pela sociedade, representada por um júri popular, valendo-se da famosa tese da “Defesa da Honra”. Evidente, que essa honra ainda é resquício dessa teoria da fábula do escorpião, que parece muito mais antropologicamente cultural do que natural.

O fato é que, sendo verdade, mesmo um juiz com toda a formação legal, moral, psicológica, filosófica, etc, mostrou que tem no seu íntimo a natureza do escorpião. Portanto, é bom as mulheres se cuidarem. Porque, até o homem mais respeitoso, carinhoso, atencioso, enfim, o mais gentil possível, pode em algum momento lhe surpreender e lhe picar violentamente, em nome da sua honra, da sua virilidade ou da sua simples mediocridade.

José Edmilson da Silva é Engenheiro Agrônomo, Bacharel em Direito, Professor e Servidor Público Federal

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