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O MENINO, A ESCOLA E A ROÇA – Por Edmilson da Silva

Foto: Site SeloUnicef

Não lembro se, algum dia, ganhei presente no Dia das Crianças. Não lembro se na minha infância havia essa data comemorativa. Aliás, no Nordeste, onde nasci e na época em que nasci, nem lembro se existia criança. No nordeste fui “MININO” e isso bastou para ter as mais incríveis memórias de uma infância extremamente feliz.

Meu pai era um homem rude, analfabeto e muito bruto quando desafiado. Mas adorava criança e tinha verdadeira veneração por educação. Valorizava demais a escola. Fazia qualquer coisa para que estudássemos e nos dava duas opções: ou estudava e ia para roça, eventualmente, ou trabalharia o tempo integral na roça. Sem fazer nada, não podia ficar. E brincar? Sim. Inclusive, quase todo final de mês, comprava uma bola PELÉ, para ver nós e outros “MININOS” jogando futebol no terreiro nos finais de tarde e de semana, outra paixão sua.

Eventualmente, trazia outros brinquedos industrializados, que logo perderiam a graça. Aqueles que nós mesmos inventávamos e fabricávamos eram os preferidos. As carteiras de cigarro viravam dinheiro, as mangas verdes que não vigavam, viraram bois. Rodas de velocípedes eram o máximo, conduzidas com um arame retorcido chamado beque. Jamais esquecerei minha carrapeta de coco macho babaçu, que eu mesmo fiz e dos filmes de heróis e bandidos que assistíamos na janela da única casa que tinha televisão, durante o dia, e a noite, brincávamos reproduzindo as cenas. Meu irmão nunca morria. Era o artista. Rsrsrs.

E tinha trabalho? Sim. Muito. Tempo de roça era brabo. Mas o trabalho estava sempre associado a algo lúdico. Pastorar arroz era um dos mais divertidos. Tínhamos a baladeira (estilingue) e o bisaco de estimação. Outros nem tanto. Mas todos foram importantes para formação do jovem que fui e do adulto que sou hoje.

A educação proporcionou a vida confortável que tenho, mas foi esse TRABALHO INFANTIL que me fez o homem que considero íntegro, probo e responsável.

O meu caso era a regra naquela época, mas as exceções eram dramáticas. Vi “MININOS” e “MININAS” sendo explorados trabalhando muitas vezes apenas pela comida. Não iam à escola. Não tinha estímulo para isso. Donos de terra tinham os chamados moradores. Pessoas pobres que pediam um pedaço de chão para construir uma pequena casa de taipa para morar e trabalhavam na própria propriedade pelo preço que o patrão achasse que deveria pagar. Os filhos muitas vezes eram oferecidos aos patrões para servi-los em atividades relacionadas aos trabalhos da casa ou da agropecuária. Para os pais, eram menos bocas para alimentar. Para os patrões, mão de obra barata muito útil para cuidar dos “BICHOS” ou da casa. Tinha comida e ganhavam também as roupas usadas que não serviam mais para os filhos do Patrão. O abuso ia além do trabalho, mas só se sabia quando as meninas apareciam grávidas e as famílias muitas vezes eram expulsas da propriedade. O mais incrível é que raramente se via semblante de tristeza nessas crianças. Pareciam conformadas com o seu destino. No entanto a retração diante nós, meninos privilegiados, era transparente. Só se integravam nas brincadeiras se fossem convidados, quase não falavam, não reclamavam. Era como se fossem criados unicamente para obedecer. E eram.

Vendo a defesa do Presidente Bolsonaro ao Trabalho Infantil, tenho minhas ressalvas, no que se refere à exploração inadequada dessa mão de obra. Mas vejo sinceramente o quanto é importante a educação pelo trabalho doméstico. Aquele que é feito para ajudar o pai ou a mãe no seu ofício ou da família, sem ser necessariamente para gerar renda para o sustento, ou que seja, mas sem abrir mão da prioridade da sua educação escolar.

Infelizmente, os “MININOS” do Nordeste viraram crianças com festinhas de aniversário, dia das crianças, etc e a antiga formação atribuída aos pais foi delegada a TV, e a internet, com todos os seus prós e imensuráveis contras. Os “MININOS” saíram da roça e se perderam no mundo das redes sociais.

José Edmilson da Silva é Engenheiro Agrônomo, Bacharel em Direito, Professor e Servidor Público Federal