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O racha entre os democratas

Depois do fiasco das prévias do Partido Democrata em Iowa na semana passada, a disputa de hoje em New Hampshire ganhou contornos de tensão inéditos. As pesquisas têm confirmado a derrocada de Joe Biden e a ascensão de Bernie Sanders ao posto de favorito, mas também o crescimento de Pete Buttigieg, Michael Bloomberg e Amy Klobuchar.

Dividido, o partido enfrenta dificuldade para concentrar-se em torno de um nome com força suficiente para derrotar Donald Trump nas eleições de novembro. Os líderes partidários estão desorientados diante do naufrágio de Biden.

Em duas semanas, ele desabou nove pontos na pesquisa nacional Quinnipiac (caiu a 17%) e cedeu a liderança a Sanders (que tem 25%). Na média das pesquisas, ambos estão empatados (23% no RealClearPolitics; 22% no FiveThirtyEight). Mas a curva de Sanders é nitidamente ascendente, enquanto Biden sangra votos por todos os lados.

O risco de alguém com o perfil esquerdista de Sanders vencer as primárias amedronta o establishment partidário. A esquerda encontrou em Sanders seu representante e abandona aos poucos a candidatura Elizabeth Warren. A ala moderada se divide entre diversos nomes, conferindo à disputa um clima de desorientação e um caráter fratricida.

O esvaziamento da candidatura Biden dá a pelo menos outros três nomes esperança nas prévias. Primeiro, o prefeito Pete Buttigieg, que saiu da confusão de Iowa com o maior número de delegados indicados à convenção nacional em julho e ganhou impulso nas pesquisas.

Segundo, o bilionário Michael Bloomberg, principal tributário dos votos de Biden na pesquisa Quinnipiac (foi de 8% a 15%). Bloomberg aposta alto em propaganda para sair vitorioso da Super-Terça, dia 3 de março, quando estarão em jogo 32% dos votos na convenção.

Finalmente, a senadora Amy Klobuchar, que tem deixado Biden para trás nas pesquisas em New Hampshire (está em terceiro com 12%) e acredita em relegá-lo ao quinto lugar para decolar.

Todos os moderados se veem como melhor alternativa para derrotar Trump em novembro. Cada um chama a atenção para a força num tipo de eleitorado: Biden pontua melhor entre os negros; Buttigieg e Klobuchar são ambos do Meio-Oeste, onde ficam os estados decisivos para derrotar Trump; Bloomberg acredita que seu passado republicano e o perfil de empresário bem-sucedido contribuirão para atrair aqueles que votaram em Trump, mas se desiludiram com ele.

Nenhum daqueles que se identificam como “moderados” atenta para a característica essencial das últimas eleições (que se repetirá também nesta): como grupo uniforme, os tais “moderados”, os proverbiais “indecisos” ou os tão falados eleitores “de centro” simplesmente inexistem. De acordo com a cientista política Rachel Bitecofer, aqueles que não têm preferência partidária correspondem a não mais de 7% do eleitorado. Percentual ainda menor comparece às urnas.

Num país polarizado, praticamente todos os americanos já têm posição definida contra ou a favor de Trump. O que decidirá a eleição, no entender dela e de vários outros analistas, é o comparecimento. Tanto Trump quanto o eventual candidato democrata precisam empolgar o eleitorado já decidido e levá-lo a votar. O melhor democrata não é necessariamente aquele capaz de atrair a maior variedade de públicos, mas aquele com mais carisma para estimular os eleitores a comparecer às urnas, como fez Barack Obama em 2008.

Levando tal fato em conta, não é difícil entender por que Biden, um candidato hesitante, com dificuldades de expressão e pouca energia, enfrenta tanta dificuldade (alguém lembra Geraldo Alckmin aqui no Brasil?). O terreno polarizado é fértil para o florescimento da candidatura de populistas como Trump ou Sanders, que há anos mobiliza um movimento de base articulado, sobretudo entre os jovens.

A disputa entre os democratas poderá ter ainda um desfecho ainda mais fratricida. Se nenhum pré-candidato obtiver nas primárias 1990 delegados (do total de 3.979) – patamar necessário para vencer a primeira rodada de votação na convenção de julho –, outros 771 super-delegados estarão autorizados a votar a partir da segunda rodada.

Ligados ao establishment, os super-delegados têm, ao contrário dos delegados eleitos, liberdade para votar em quem quiserem. Foram um dos fatores responsáveis pela derrota de Sanders para Hillary Clinton em 2016. Dificilmente apoiariam alguém que se identifica como “socialista democrático”. Sanders poderia em tese sair das primárias vitorioso, mas com menos de 1990 votos – apenas para ser vítima de um conchavo para despojá-lo da candidatura an convenção. Os democratas chegariam ainda rachados às urnas em novembro, para o deleite dos trumpistas.

Fonte: G1 Por Helio Gurovitz