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O Tapia – Por Edmilson da Silva

Era encantador! Meu olhar atônito de criança, tentava entender o que acontecia. Como teria sido feito aquele truque? Junto comigo, uma quantidade razoável de pessoas se aglomeram em uma roda e no centro um sujeito falastrão encenava um número que atraia a atenção de todos ali. Uns acreditavam piamente nos poderes sobrenaturais do sujeito e até brigavam com quem duvidasse. Outros duvidavam, mas se divertiam com a cena. Outros não entendiam nada e apesar de impressionados, desconfiavam do que estavam vendo. Eram vários os tipos de rodas e tinha de tudo. Uns fazendo mágica, outros giravam três copos com uma moeda em deles para se adivinhar em qual estava. Outros enrolavam um cinto para o que apostadores colocassem uma caneta na dobra e o cinto ficasse preso ao desenrolar.

Todos eles, no entanto tinha um personagem importante que os auxiliavam e sem o qual os seus golpes não funcionariam. O TAPIA.

Apesar da pronuncia, vem do verbo TAPEAR, que significa enganar, ludibriar e era mais ou menos essa a sua função. Combinado com o artista e disfarçado entre os presentes, distraia a atenção do publico no momento final da apresentação fazendo com que os desatentos não se dessem conta de que foram enganados.

Hoje, quarenta e poucos anos depois, me vem à memória essas lembranças adormecidas, tentando entender o que se passa com o nosso País. A Impressão que temos que o papel do Presidente tem sido esse, de distrair as pessoas, enquanto a boiada passa. Suas falas desastrosas, ofensivas, estúpidas até, parecem ser proposital com a intenção de desviar o foco de questões que a todo momento incomodam o Governo.

Vi um vídeo da visita do Presidente Bolsonaro a uma escola infantil e o diálogo com as crianças me impressionou pela polidez, educação, gentileza e sensatez das suas palavras. Dignas de alguém que ocupa o cargo de maior representação do País. Qual o verdadeiro Bolsonaro então? E porque às vezes emitir opiniões tão desnecessariamente absurdas?

O mais impressionante é ver representadas na população aquelas mesmas pessoas que assistiam aos picaretas nas feiras livres no interior do Nordeste. Os que acreditam piamente no Presidente, desafiam a ciência, a lógica e a razão na defesa de suas falas. Mesmo depois do mesmo, raramente, reconhecer o erro quando percebe que exagerou. Ao que parece, o sucesso das “fake news” nas eleições, deu a Bolsonaro a ideia de que para se manter no poder, é preciso apostar tudo na nossa ignorância independente do mal desempenho do seu governo em questões cruciais como economia, meio ambiente, saúde e educação.
Essa Semana, o Bolsonaro passou por uma cidade do interior do Ceará chamada Missão Velha. Lá, desfilou pela rua sem máscara cercado de apoiadores gritando “MITO”, entrou em um bar, jogou sinuca com populares e tomou uma coca cola KS. Missão Velha faz divisa com a Cidade de Barbalha, cenário dos episódios relatados no início do texto. Naquelas bandas, as feiras livres ainda se mantêm, mas ao que parece não é a única tradição que permanece.

A Julgar pelo tumulto em Missão Velha, os vendedores de ilusão ainda fazem muito sucesso por lá.

José Edmilson da Silva é Engenheiro Agrônomo, Bacharel em Direito, Professor e Servidor Público Federal