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Ponte de Abunã provoca ansiedade também na Bolívia

Apesar de o Brasil reduzir aceleradamente a dependência do gás boliviano, que responde, quase integralmente, pela pauta de exportações do país vizinho para o Brasil, a Bolívia também aguarda, com ansiedade equivalente à do governador Gladson Cameli, do Acre, o fim das obras da ponte sobre o rio Madeira, na BR-364, distrito de Abunã. É que também a população boliviana, especialmente das áreas fronteiriças do departamento de Beni também vai se beneficiar com a obra.

O governador do Acre insiste em agendar a inauguração para setembro, com a participação do governador rondoniense, Marcos Rocha, e do presidente Jair Bolsonaro. Mesmo depois do ministro da Infraestrutura, Tarcisio Gomes de Freitas, ter usado sua conta no Twitter para anunciar que trabalha com um horizonte mais elástico, até dezembro.

O ministro está certo. Embora a construtora Arteleste conclua a concretagem dos últimos metros da ponte antes do fim do mês, é problemática a construção do acesso no lado de Abunã. É que será necessária a elevação da pista em perto de três quilômetros, 500 metros dos quais de solo mole, por conta do nível da barragem de Jirau.  

“Ainda há muita coisa por fazer”, informa o superintendente do DNIT, engenheiro Cláudio Neves, para quem não será necessária, no entanto, a retirada do solo mole. Existem recursos de engenharia que, embora trabalhosos, podem solucionar o problema.

Como, por exemplo, Bermas de equilíbrio – aterros laterais aos taludes para equilibrar o peso exercido pelo maciço do aterro principal. Ou o aumento na largura do offset (pontos de início e final) do aterro. Tudo isso implica, contudo, em grande movimentação de terra, que dificilmente será concluída em um período de apenas três meses.

Bolívia cresce 5% ao ano

Não é por incompatibilidades de ordem ideológica entre os presidentes. Nem por vingança contra a humilhação nacional imposta ao país pelo “hermano” Evo Morales. Logo após sua posse – convém lembrar – ele nacionalizou os hidrocarbonetos e mandou tropas do exército ocupar os campos de produção e refinarias da Petrobrás.

O problema somente foi contornado com a decisiva intervenção do próprio presidente Luiz Inácio (mais uma vez ele), junto, claro, com o pagamento, pela Petrobrás, de U$ 200 milhões por “dívidas passadas”, aumento de impostos e royalties e maior controle do setor por parte do Estado boliviano, via estatal YPFB. Mas o Brasil, que bancou todo o gasoduto – 3150 quilômetros desde Santa Cruz de La Sierra até Porto Alegre – era dependente do gás boliviano.  

Com tudo isso, as coisas se acalmaram e o gás boliviano continuou a ocupar quase integralmente a pauta de exportações daquele país para o Brasil. De janeiro a maio o Brasil exportou U$ 601,7 milhões em uma pauta diversificada, com mais de mil itens. E importou U$ 532,9 milhões, 95% dos quais em gás natural.

Mas não é por isso que a situação vai começar a mudar. Pode até ter alguma influência, mas o fato é que as reservas bolivianas estão se exaurindo. O contrato vence este ano, justamente quando Morales tenta – e vai conseguir – mais uma reeleição.

Ele, declaradamente, sabe que não é interessante comprar briga com o Brasil nesse momento. O ambiente político não é mais tão “favorável”. Mas, mesmo que renovado o contrato, a Bolívia não dispõe de reservas de gás suficientes para atender ao suprimento que o Brasil necessita e que o gasoduto está em condições de transportar: 30 milhões de metros cúbicos por dia.

Por isso também foi tão festejada pelo governo brasileiro a maior descoberta desde o início do pré-sal, em 2006: os seis campos de gás natural encontrados em Sergipe.  Juntos, os campos de Barra, Cumbe, Farfan, Poço Verde, Muriú e Moita Bonita, a 80 km da costa de Aracaju, têm capacidade para produzir cerca de 20 milhões de m³ de gás natural por dia, o equivalente a um terço da produção nacional.

De olho no imperativo do momento, a Petrobras já negocia com investidores privados a venda de participação na exploração dos campos nordestinos. O tratamento prioritário a uma estratégica revisão de todo o quadro regulatório e legal, capaz de alcançar toda a cadeia de suprimento, transporte e distribuição de gás natural. A meta é a autossuficiência e o fim da dependência do gás boliviano.

A Bolívia está há mais de uma década crescendo a uma média anual de 5% – muito superior à dos Estados Unidos e à dos países sul-americanos. O país tem crescido muito graças às exportações de gás natural que vende ao Brasil e à Argentina. E a cada ano que atingiu esse patamar, com o qual o Brasil nem sonha, Evo Morales determina o pagamento do 14º salário para cada trabalhador.

O governo boliviano sabe que é arriscado ancorar, indefinidamente, seu crescimento a esse recurso natural. E a população, mesmo desde antes da posse de Bolsonaro, já vive uma desaceleração econômica, segundo os economistas. Há uma clara percepção de maior cautela do consumidor na hora de gastar.


De qualquer forma, o diferencial de frete, a partir da inauguração da ponte de Abunã, vai colocar a produção local, especialmente de alimentos, a preços imbatíveis no mercado boliviano. E interessa muito aos nossos pecuaristas o sal de Uyuni, a maior planície de sal do planeta. O próprio governo de Rondônia já tem estimulado a celebração de parcerias bilaterais.

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