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Rebaixamento e crise financeira comprometem assistência aos familiares das vítimas na Chapecoense

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Clube catarinense foi rebaixado no campeonato brasileiro após derrota para o Botafogo. Associação que presta auxílio a parentes dos mortos não recebe valor mensal devido pelo clube desde julho.

Em 29 de novembro de 2016, um acidente aéreo mudou a história de um clube de futebol do oeste catarinense. O voo 2933 da LaMia, que levava a Chapecoense para a disputa da final da Copa Sul-Americana em Medellín, caiu a poucos quilômetros do aeroporto e deixou 71 mortos, entre os quais 19 jogadores, 14 membros da comissão técnica e nove dirigentes do clube. A Chape se reergueu nas duas temporadas seguintes e chegou a disputar a Libertadores por duas vezes, mas, nesta semana em que a tragédia completa três anos, foi rebaixada pela primeira vez após o acidente. O descenso, aliado a uma crise financeira que assola o time em 2019, faz com que o clube não consiga honrar valores de indenização e assistência acordados com os familiares das vítimas.

A principal forma pela qual a Chapecoense auxilia os parentes das vítimas é através de um convênio com a Associação Brasileira das Vítimas do Acidente com a Chapecoense (Abravic), iniciada pelo ex-jogador Túlio de Melo e presidida pelo advogado Fabiano Porto. A Abravic fornece, de forma assistencial, apoio psicológico, bolsa escolar, auxílio de alimentação e reembolso de valores gastos em medicamentos a mais de 50 famílias que perderam parentes no acidente, desde o início de 2017. Com todos os seus projetos, a Associação gasta cerca de 70.000 reais por mês, dos quais 33.800 são bancados pela Chapecoense, de acordo com convênio firmado em dezembro de 2018.

No entanto, Fabiano Porto conta que os valores não são repassados pelo clube desde julho. “Foi a primeira vez que deixaram de pagar em três anos de convênio. Tem relação direta com a crise administrativa pela qual a Chapecoense está passando”, afirma. Porto revela que os cofres da Abravic receberão 10.000 dólares de uma ação judicial movida contra o produtor do documentário “Para Sempre Chape”, que foi divulgado sem o consentimento do clube em 2017 e hoje está disponível na Netflix, além de parte da bilheteria do filme “Goleiro”, feito para homenagear a vítima Danilo e com estreia prevista para o segundo semestre 2020. Ainda assim, não é o suficiente: “Nosso dinheiro acabou há dois meses. Estou em busca de novos parceiros, mas a Associação não aguentará até o ano que vem se a Chape não retomar o convênio”, diz o advogado.

A crise do time de Chapecó passa por uma decadência nas finanças durante os últimos dois anos. Em 2017, o clube era o único do Brasil que não tinha dívidas. Agora, a Chape não paga os direitos de imagem de seu elenco há sete meses e os salários há dois. O rebaixamento, confirmado na derrota em casa para o Botafogo por 1 a 0 na última quarta-feira (27), resulta em uma diminuição considerável das receitas no ano que vem —o time deixa, por exemplo, de receber uma cota de televisão, pois os jogos deixam de ser transmitidos, além de menos dinheiro de patrocínio, porque tem menos exposição—. Com essa realidade, o presidente da Abravic diz que a perspectiva de renovação do convênio é nula. “Se não estão mantendo o que está contratado, imagina se vão renovar. Com o rebaixamento a expectativa é zero”, afirma. Segundo ele, a Associação foi projetada para fornecer assistência por cinco anos, período considerado de maior crise para os envolvidos no acidente. “Mas o tempo passa, as pessoas esquecem e não vamos conseguir cumprir sem apoios”.

Procurada pela reportagem, a Chapecoense confirmou o atraso nos pagamentos do convênio, mas garantiu que a dívida será quitada e o convênio com a Abravic será renovado por mais um ano. “A Associação possui importância inestimável para todas as ações do clube. Vale reiterar que o clube, as famílias e as associações lutam em prol do mesmo objetivo”, informou o departamento jurídico através da assessoria de imprensa. “Independentemente da série e das condições financeiras do clube, a prioridade é honrar todos os acordos realizados”, completa.

Indenizações dos familiares

Fora os repasses à Abravic, os outros valores pagos pela Chapecoense às famílias das vítimas foram através de processos trabalhistas movidos desde 2017. Segundo o departamento jurídico do clube, 93% dessas ações já foram acordadas entre Chape e familiares nos três anos de negociação. “Dez processos trabalhistas continuam tramitando”, informa o departamento.

Nesta semana, o Ministério Público de Chapecó ingressou com uma ação civil pública pedindo a condenação dos responsáveis pelo acidente e reparação de danos morais e materiais para os entes das vítimas. Segundo o cálculo dos familiares, a empresa que atuou como corretora do seguro da aeronave envolvida no acidente, Aon, e as seguradoras Tokio Marine Kiln do Japão e Bisa da Bolívia devem cerca de 20 milhões de reais para cada uma das 71 famílias. Anteriormente, cada empresa ofereceu 935.000 reais por vítima em troca da desistência dos processos judiciais, acordo que foi aceito por 23 famílias.

Imunidade ao rebaixamento

Imediatamente após a tragédia que vitimou grande parte do elenco da Chapecoense, alguns dos principais clubes do Brasil se manifestaram a favor de uma imunidade para o clube catarinense contra o rebaixamento nas três edições seguintes do campeonato brasileiro. Botafogo, Fluminense, Internacional, Palmeiras, Santos e São Paulo enviaram um ofício à CBF pedindo uma alteração no regulamento do Brasileirão com o intuito de preservar a Chape, que precisaria remontar todo o elenco com poucos meses entre uma temporada e outra. A imunidade duraria até o fim deste ano, o que preservaria o clube do rebaixamento, mas foi negada pelo então presidente do clube, Plínio David de Nês Maninho, em dezembro de 2016. “A gente entende que isso seria muito constrangedor para nós e abriria um precedente, o que nos deixa desconfortáveis”, disse Maninho na época.

A teoria do presidente é rechaçada pela atual diretoria, que também nega arrependimentos. “Compreendíamos que as questões legais envolvendo a imunidade não existiam”, comenta o departamento jurídico. “Em nenhum momento acusamos constrangimento ou fragilidade e optamos por trabalhar e lutar com as nossas próprias forças pela permanência”. A atual administração da Chape admite que, desde 2016, existia a preocupação a respeito de problemas esportivos e financeiros a longo prazo, uma vez que a comoção imediata em torno do acidente ajudou o clube a superá-lo no primeiro momento. Entretanto, para eles, a realidade atual da Chapecoense não tem relação com os prejuízos sofridos há exatos três anos.

 

DIOGO MAGRI – São Paulo EL PAÍS
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