Cultura Destaques Filmes

Shakespeare para todos os gostos – Por Humberto Oliveira

A grandiosidade das batalhas e o minimalismo em cada gesto ou fala marcam a obra prima Ran (1985), do diretor Akira Kurosawa. A sombria e violenta versão cinematográfica de Macbeth (1971), de Roman Polanski e o expressionista Hamlet (1948), dirigido e protagonizado por Laurence Olivier, são as joias preciosas do box Shakespeare no cinema, lançado pela Versátil, aliás mais um excelente lançamento que fará a alegria dos cinéfilos aficionados pelas obras do bardo inglês e as adaptações para o cinema.

Hamlet (com Laurence Oivier)

Escolhidos com esmero pela curadoria da Versátil, o box brinda os espectadores com versões restauradas dos três longas, com 161, 140 e 153 minutos de duração, respectivamente. A edição vem recheada de extras, entre eles, documentários e entrevistas sobre Ran e Kurosawa, making off de Macbeth e ainda Olivier e Shakespeare. Totalizando mais de quatro horas de material bônus.

 

Box imperdível para os fãs e a oportunidade de assistir ou rever os três filmes em cópias magníficas. Por exemplo, a fotografia de Ran, inspirado em Rei Lear, impressiona, assim como o uso magistral das cores, a riqueza de detalhes. Tudo a serviço do roteiro, das performances e o desenvolvimento da história. O documentário focado nos bastidores da produção mostra o trabalho irrepreensível de direção de Kurosawa, perfeccionista e atento a cada detalhe. Em Macbeth, Polanski vai além de mais uma versão da obra de William Shakespeare.

Ran (do diretor Akira Kurosawa)

Os produtores queriam Marlon Brando, mas Polanski insistiu em escalar atores jovens para os papéis principais de Macbeth, vivido pelo novato Jon Finch e Francesca Annis como Lady Macbeth, a decisão se mostra acertada e o diretor consegue excelentes resultados interpretativos e dramáticos. O longa lembra o clima de terror dos filmes da produtora inglesa Hammer, aliás o filme de Polanski supera as expectativas, porém foi mal lançado à época. Ao assistir este drama passado na idade média, o público fica fascinado pelas imagens cruas, a violência e os diálogos que somente Shakespeare conseguiu escrever. O franco-polonês Roman Polanski teve muito trabalho para filmar sua visão da tragédia shakespeariana, mas por fim, conseguiu realizar uma das melhores adaptações baseadas em uma das mais extraordinárias obras do autor.

MacBeth

Quanto ao Hamlet de Olivier, o que se pode acrescentar a tudo escrito sobre este grande filme dirigido e interpretado por um dos maiores intérpretes das tragédias de Shakespeare? Hamlet é o momento máximo na carreira de Laurence Olivier, por sinal o longa ganhou o Oscar de melhor filme. O trio Rei Lear, obcecado pelos fantasmas do passado, Rei Macbeth, cuja ambição o destrói e o príncipe da Dinâmica, Hamlet, tem o pai assassinado pelo tio usurpador e por sua mãe adúltera, acuado pelo espectro do pai morto clamando por vingança. Tragédias inevitáveis se anunciam a cada atitude do príncipe da Dinamarca. Sir Laurence Olivier, ator shakespeariano desde o início da carreira no teatro, é um dos responsáveis por adaptar o famoso dramaturgo para o cinema. Mesmo com os diálogos rebuscados, as tramas repletas de reviravoltas, traições, mal entendidos, mortes, crimes e castigos, geralmente o público aprecia as versões cinematográficas, vide Romeu e Julieta, de Franco Zefirelli e a adaptação mais moderna estrelada por Leonardo DiCaprio e Claire Daines. Ou talvez, a reinvenção de Shakespeare no romântico e divertido Shakespeare apaixonado, agraciado com a premiação do Oscar. A mesma popularidade não foi alcançada pelo Hamlet dirigido por Zefirelli com Mel Gibson como protagonista. Difícil de engolir, principalmente tendo Glenn Close escalada para interpretar sua mãe. Melhores resultado obteve o ator, roteirista e diretor Kenneth Branagh ao realizar um Hamlet com cinco horas de duração, como a peça original. Dele também são a nova versão de Henrique V, feito com cores vibrantes e o subestimado Muito barulho por nada, cujo elenco estelar reúne nomes de peso, entre eles, Denzel Washington, Keanu Reeves, Emma Thompson, à época casada com o diretor, que também atua na película. Michael Keaton está no elenco. Os atores Al Pacino, Lawrence Fishburne e Ian Mackllen tiveram sua cota de personagens do bardo. O primeiro e o terceiro como Ricardo III e o segundo, fez Othelo.

Henrique V (dirigido e interpretado pelo ator britânico Kenneth Branagh)

 

Olivier atuou e dirigiu, além de Hamet, o drama histórico Henrique V e a Ricardo III, numa versão psicótica e absurdamente paranóica. Para muito ele é o maior ator shakespeariano. Já outros tantos o acham canastrão, megalomaníaco, pretensioso e arrogante. Pura inveja da concorrência e de críticos frustrados ou ranzinzas.

 

Muitos brasileiros podem até torcer o nariz para as peças, os filmes e o próprio Shakespeare, no entanto, a maioria desconhece de pelo três telenovelas brasileiras são adaptações de obras do dramaturgo. Os mais velhos vão lembrar de A barba azul, versão tupiniquim de A megera domada. Assim como A gata comeu, grande sucesso protagonizada por Christiane Torloni e Nuno Leal Maia. Sem esquecer de outro sucesso televisivo. O cravo e a rosa, com Adriana Esteves e Eduardo Moscovis, como a irascível Catarina e o bruto Petruchio, respectivamente. Todas inspiradas e adaptadas da peça A megera domada, levada ao cinema por Franco Zefirelli e tendo o casal Richard Burton e Elizabeth Taylor como protagonistas. Na verdade, existem muitas versões das peças de William Shakespeare para cinema e teatro, principalmente. Os primeiros filmes datam no limiar do cinema mudo e até hoje fascinam o público e inspiram roteiristas e diretores e desafiam atores e atrizes de todas as gerações. De John Barrymore a Leonardo DiCaprio, de Laurence Olivier a Anthony Hopkins. De Leslie Howard a Emma Thompson. De Vivian Leigh a Kenneth Branagh. De Max Von Sydow a Al Pacino. De Richard Burton a John Gielgud, Ben Kingsley, Paulo Autran, Sérgio Cardoso, Tônia Carrero, Cacilda Becker, e tantos outros em todas as línguas.