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SP prorroga quarentena até 22 de abril e usará polícia se for necessário

O governador de São Paulo, João Doria (PSDB), anunciou hoje, em meio a críticas ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido), que estenderá a quarentena por causa da covid-19 até 22 de abril e que usará a Polícia Militar para reforçar o isolamento social, que vem perdendo força em todo o estado, com ruas cada dia mais cheias.

Doria afirmou que os policiais e as guardas civis farão medidas de orientação, com gravações pedindo que as pessoas fiquem em casa, e chegou a falar em uso da PM para “dissipar qualquer movimento ou aglomeração”, mas depois amenizou.

“Se houver desrespeito a esta orientação e continuarmos flagrando pessoas nas ruas, ajuntamento de pessoas de forma absolutamente desnecessária, nós complementaremos com outras medidas e vamos anunciando isso gradualmente, se necessário for”, afirmou.

Seguem proibidos de funcionar na quarentena em SP:

Bares e baladas, restaurantes (exceto para delivery), hotéis, cabeleireiros, e estabelecimentos de ensino.

E podem abrir:

Indústrias, empresas de segurança, manutenção, limpeza e lavanderia; hospitais e clínicas odontológicas; farmácias, supermercados, transporte público, locadoras de carros, estacionamentos e aplicativo de transporte, feiras de rua, padaria, açougue, postos de gasolina, bancos, lotéricas, oficinas de automóveis, lojas de materiais de construção, bancas de jornais, empresas de jornais e pet shops.

“[A quarentena] deve ser seguida por todos os 645 municípios do estado, além da capital de São Paulo, sob o comando do Bruno Covas (PSDB). E deve exercer também com a Polícia Militar o poder de polícia se houver desobediência de qualquer natureza para esta orientação. Nenhuma aglomeração de nenhuma espécie em nenhuma cidade ou área de São Paulo será admitida”.

Mais de 4 mil casos confirmados

São Paulo tem 4.620 casos confirmados e registrou 275 mortes até domingo. O estado também está na lista dos locais que podem enfrentar aceleração descontrolada de covid-19, conforme estudo encomendado pelo Ministério da Saúde.

Um estudo de pesquisadores brasileiros evidencia o aumento no número de casos em São Paulo e previa que entre 31 de março e 5 de abril o número de contaminados na cidade dobraria. Outro fator é que a covid-19 já chegou nas periferias e um único hospital investiga 11 mortes.

A decisão de prorrogar a quarentena foi tomada com base nas avaliações de 15 especialistas que compõem o Centro de Contingência ao Coronavírus. Coordenador do grupo, o infectologista David Uip declarou que as conclusões serão encaminhadas à Secretaria Estadual de Saúde para embasar decisões.

“Destaco que há consenso entre as autoridades médicas para o isolamento como forma de salvar vidas”, disse o governador.

População voltou às ruas

A quarentena foi decretada pelo governo do estado como reação às primeiras mortes causadas pela covid-19. A medida foi respeitada em seus dias iniciais, e diminuiu o tráfego durante o dia.

No entanto, a adesão ao distanciamento social caiu. Em 28 de março, houve até filas em ruas da zona sul de São Paulo. Na última sexta-feira, um supermercado em frente ao Hospital da Vila Nova Cachoeirinha estava lotado. No fim de semana, houve um campeonato de futebol em uma praça do centro de São Paulo.

Quarentena virou questão política

O distanciamento social se tornou tema de disputa política: Bolsonaro defende a volta ao trabalho de pessoas que não estão em grupos de risco, e Doria se transformou no principal expoente do distanciamento social e contraponto ao Planalto.

O atrito entre os dois polos ficou evidente em uma reunião com governadores. Bolsonaro subiu o tom contra Doria, que foi acusado de tentar tirar proveito eleitoral da situação. O argumento do Planalto é que o isolamento social levará ao desemprego, e a ruína econômica causaria mais mortes do que o coronavírus.

O governo federal chegou a contratar uma empresa de publicidade para montar um vídeo, e carreatas de apoiadores do presidente foram realizadas pelo país. Bolsonaro também saiu de casa e chegou a ir a uma feira em Brasília e chamou a doença de gripezinha em um pronunciamento, o que aumentou panelaços que estavam acontecendo em várias cidades do Brasil.

O governador de São Paulo adotou linha diferente e se faz valer de argumentos de especialistas em saúde, incluindo o próprio ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta. Eles alertam que, se muitas pessoas ficarem doentes ao mesmo tempo, não haverá leitos de UTI e respiradores para tratamento.

Doria não citou o nome de Bolsonaro, mas acusou pessoas que são contra a ciência de ter pensamento “torpe e medíocre”. Na sequência de seu discurso de abertura da entrevista coletiva desta segunda-feira, ressaltou que mesmo integrantes do governo federal pensam diferente de Bolsonaro.

No Brasil, quero lembrar, defendem o isolamento o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, o ministro da Justiça, Sergio Moro, o ministro da Economia, Paulo Guedes, o vice-presidente da República, Hamilton Mourão, o centro de estudos do Exército, e a maioria absoluta de médicos e cientistas. Será que todos eles estão errados? Será que a ciência mundial está errada? Será que ministros e secretários de 56 países do mundo estão todos errados? Será que um único presidente no mundo é o certo? É quem tem o poder, ciência e conhecimento para discordar do mundo que quer proteger vidas e salvar pessoas?”

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