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Sua excelência Zé do Caixão, o mestre do terror nacional – Por Humberto Oliveira

José Mojica Marins, mais conhecido por sua persona cinematográfica e alter ego Zé do Caixão, morreu nesta quarta-feira, 19. O cinema perde um dos mais criativos dos cineastas, um mestre do terror nacional, tantas vezes execrado pela crítica, porém idolatrado pelos fãs. Mojica sempre foi um primitivo. Nunca estudou cinema, mas realizou longas metragens usando apenas a vontade de fazer, a criatividade e claro, a participação de inúmeros parceiros, que não pensavam duas vezes quando escalados, por exemplo, a contracenar com cobras, aranhas, feita e em caixões de defunto, entrar em covas e tudo mais que o mestre, em sua ousadia criativa, exigia para fazer uma cena.

A Inglaterra tem Terence Fischer, diretor de dezenas de produções de terror para a produtora Hammer. Já os norte americanos têm George Romero, John Carpenter e Roger Corman, todos mestres do gênero. Não podemos deixar de citar os italianos Mário Bava, Lucio Fucci, Umberto Lenzi e Dario Argento, mestres do Giallo. O Brasil tem José Mogica Marins, o eterno Zé do Caixão, talvez o diretor brasileiro mais cultuado fora do país. Tratado com desdém pelos críticos locais, Zé do Caixão é aplaudido e considerado gênio na Europa e nos Estados Unidos, onde é conhecido como Coffin Joe.

 

Cinema sempre foi a obsessão de Mojica. Ele reuniu amigos e técnicos, seus conhecidos e dispostos a trabalhar por pouco ou nenhum pagamento e iniciou as filmagens do seu primeiro roteiro chamado Sentença de Deus. Mas, por falta de dinheiro para os negativos, o filme ficou inacabado. Isso foi em 1956. Um ano depois, lá vai Mogica e equipe realizar Sina de aventureiro, um faroeste. Como o dinheiro continuava curto, nas cenas de perseguição a cavalo, o roteiro previa muitos, no entanto, só havia dois disponíveis. O nosso Ed Wood não desanimou. Filmou apenas com dois. Quando um passava, ele cortava e posicionava a câmera em outro ângulo, enquanto isso, alguém da equipe pintava manchas. Desta forma, o mesmo cavalo parecia outro e assim por diante.

Uma noite, atormentado por dívidas, Mojica teve um pesadelo onde aparecia um sujeito usando capa, cartola e roupas pretas. Nascia ali o Zé do Caixão, que se tornaria seu mais famoso personagem. Para produzir o longa, intitulado À meia noite levarei sua alma, 1964. Mogica não poupou nem a própria família. Os pais tiveram de vender a mobília e até a casa onde moravam. Zé do Caixão, um agente funerário cruel e sádico, temido e odiado por todos da cidade onde mora, tem uma obsessão: gerar um filho perfeito para dar continuidade a seu sangue. O filme fez enorme sucesso, mas o diretor não desfrutou do dinheiro, pois havia vendido cotas e ficou sem os direitos de exibição. A saga de violência e terror continuou em Esta noite encarnarei teu cadáver, 1966. Mogica sonhava em realizar uma trilogia, e conseguiu 41 anos depois do longa original, ao dirigir em 2007, A encarnação do demônio.

A filmografia de Zé do Caixão é enorme, no entanto, ele atuou em outras áreas como a televisão, teatro, quadrinhos, produtos de higiene e até deu nome a uma cachaça. Podemos afirmar que José Mogica Marins foi um artista multimídia, numa época em que essa palavra sequer havia sido inventada.

 

Mogica influenciou cineastas como Rogério Sganzerla e Ivan Cardoso, segundo Mogica, seu herdeiro cinematográfico. Lembramos que Cardoso dirigiu produções do gênero “terrir”, mistura de terror e humor, como O segredo da múmia e As sete vampiras, entre outras pérolas. Também realizou um documentário focado no Zé do Caixão.

Dificuldades não faltam aos cineastas brasileiros. Com Mogica não foi diferente. Houve um período de vacas magras e ele teve de apelar para a produção de filmes de sexo explícito, um grande filão para os chamados diretores da Boca do lixo. 24 horas de sexo alucinante, sucesso estrondoso de bilheteria, que rendeu uma continuação 48 horas de sexo alucinante. O curioso é que Mogica não apenas dirigiu como atuou nestas produções de baixo orçamento, elenco entusiasmado e público ávido por sacanagem e vacinado contra a intelectualidade exacerbada dos cineastas do Cinema Novo.

Para aqueles que querem conhecer mais da carreira e história de José Mojica Marins, a dica é o livro Zé do Caixão – Maldito, biografia definitiva do diretor escrita por André Barcinski e Ivan Finotti. A primeira edição foi lançada em 1998, mas em 2015, a Darkside, editora especializada em livros do gênero terror, lançou uma nova edição revista, ampliada, capa dura. Imperdível.

 

O livro renderia frutos tão bons quanto. Um documentário dirigido por Barcinski sobre Zé do Caixão e ainda em 2015, a produção de uma minissérie baseada em Maldito, com Matheus Nachtergaele no papel de Zé do Caixão. Sensacional atuação. O interessante é que o ator sequer parece com Mojica, no entanto, Nachtergaele se transforma e o público o enxerga como o biografado. A minissérie é pura diversão e mostra momentos marcantes da extensa e turbulenta carreira de Zé do Caixão.

Não poderia escrever sobre José Mojica, sem mencionar o não menos genial Rubens Francisco Lucchetti, autor dos melhores roteiros e responsável por escrever os mais fantásticos delírios de Zé do Caixão. Lembramos o onisciente Nilcemar Leyart, que montou, sonorizou, dublou e ainda atuou em alguns destes filmes.