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Suas próprias circunstâncias

Quarta capa de "Um cavalheiro em Moscou"
Quarta capa de "Um cavalheiro em Moscou"

Condenado ao fuzilamento pela mesma classe de indivíduos que uma vez o considerara um herói, o Conde Rostov recebeu tal sentença por ser um pessoa que “sucumbiu irrevogavelmente às perversões de sua classe”, passando a representar “uma ameaça aos mesmos ideais que uma vez abraçou” (p. 13). A saga de Aleksandr Ilitch Rostov, antes tido como um dos grandes inspiradores da Revolução de 1917 por a ele ter sido atribuído o poema Onde está agora?, se inicia em finais de junho de 1922. Foi justamente o poema, publicado em 1913, que o concedeu respeito entre “aqueles nos altos escalões do partido”, o que levou à conversão de sua pena para prisão domiciliar. Assim, o Conde Rostov passava a estar obrigado a ficar confinado no Hotel Metropol, sua morada em Moscou desde setembro de 1918, e onde viveria nas décadas seguintes. O crime pelo qual Rostov fora acusado era de traição à Revolução, uma vez que fugiu da Rússia logo após a consolidação dela.

Com uma narrativa primorosa, atraente e inundada de erudição, o autor Amor Towles nos brinda com 460 páginas (nessa edição brasileira) de puro deleite. Mesmo aqueles que, por qualquer que seja a razão, evitam livros um tanto extensos encontram na obra de Towles uma leitura cativante, sem uma única linha fastienta. Verdadeiro primor de texto! Não a toa, em pouco mas de um ano, entre 2016 e 2017, alcançou mais de 1 milhão de cópias vendidas nos Estados Unidos. Além disso, dentre outras distinções, foi considerado Livro do ano de 2017 pelo New York Times. Sua primeira edição no Brasil é de fevereiro de 2018, e ele ainda não atingiu em terras tupiniquins, nem de longe, número de unidades vendidas que se adeque à sua qualidade. Resta-nos a torcida para que o Conde Rostov se torne conhecido por aqui antes de se popularizar na televisão (uma série de tv já está sendo produzida na terra do Tio Sam).

Capa de "Um cavalheiro em Moscou"
Capa de “Um cavalheiro em Moscou”

 

Nosso transporte para a Rússia e o Metropol

Ao tempo em que nos apresenta o Conde e suas acalentadoras relações (e também nos concede aulas sobre diversas questões, em especial culturais), Towles nos mostra um pouco da Rússia do início do século passado. Não apenas aquela pós-revolução comunista, mas também a aristocrática Rússia pré 1917. Diversas passagens, imagens, ambientes e personagens são históricos, como o próprio Metropol (construído no centro de Moscou entre os anos de 1899 e 1907, oficialmente inaugurado em 1905 – tem-se utilizado do livro como argumento publicitário – ver site do hotel: https://metropol-moscow.ru/en/), e não apenas obra criativa do autor. A nota de rodapé na página 292 é bastante ilustrativa nesse sentido. Transcrevo-a:

Despojados de seus nomes e laços familiares, de suas profissões e posses, unidos na fome e nas dificuldades, os residentes dos Gulags, os chamados zeks, tornavam-se indistinguíveis entre si. Isso, naturalmente, em parte da questão. Não contentes com o preço pago por meio do encarceramento e do trabalho forçado em climas inóspitos, as autoridades supremas procuravam obliterar os Inimigos do Povo.

Mas uma consequência imprevista dessa estratégia foi a criação de uma nova polis. Tendo sido despojados de suas identidades, doravante os zeks, embora milhões em número, se moveriam em perfeita sincronia, compartilhando suas privações, bem como sua vontade de persistir. Daí em diante, se reconheceriam sempre e onde quer que se encontrassem. Abririam espaços uns para os outros sob seus tetos e a suas mesas, se chamando de irmão, irmã e amigo; mas nunca, jamais, sob nenhuma circunstância, de camarada. (p. 292).

A leitura que Amor faz dos seres humanos, demonstrada nas atitudes, relações, no caráter, portanto, de seus personagens, é um verdadeiro deleite. Altamente instigante observar não apenas o Conde, mas Mikhail Fiodorovitch, Nina, Anna, o Bispo, Óssip e o triunvirato, composto, além do próprio Aleksandr, Émile e Andrei. Como demonstração disso temos a sensacional descrição sobre o início da amizade entre os dois primeiros:

(…) os dois rapazes não pareciam destinados a ser amigos. Mas o destino não teria a reputação que tem se simplesmente fizesse o que é previsível. De fato, enquanto Mikhail era capaz de se atirar em uma briga por uma mínima diferença de opinião, independentemente do número ou do tamanho de seus oponentes, o Conde Aleksandr Rostov era propenso a se jogar em defesa de um homem em desvantagem, independentemente de quão ruim fosse sua causa. Assim, no quarto dia de seu primeiro ano, os dois alunos viram-se ajudando um ao outro a se levantar do chão, enquanto batiam a poeira dos joelhos e limpavam o sangue dos lábios. (p. 87).

 

Quarta capa de "Um cavalheiro em Moscou"
Quarta capa de “Um cavalheiro em Moscou”

O homem é incapaz de perfeição

Em essência, trata-se da visão da falibilidade humana e sua “incapacidade” para a perfeição, mesmo quando o espírito se acredita imbuída da mais alta bondade. Isso torna “um cavalheiro em Moscou” leitura indispensável. Não fosse suficiente, há ainda a defesa, acertada, no meu entendimento, de que é necessário o destino para que nossas potencialidades sejam utilizadas. O que se notabiliza na passagem

Se a sra. Trent não tivesse dominado tão perfeitamente a arte de assar, o jovem tenente poderia ter mantido sua atenção na princesa em vez de se servir de uma terceira porção de carne com uma oitava taça de vinho. Se a temperatura naquela noite não tivesse caído 4o em seis horas, não teria se formado gelo na entrada, seu amigo corpulento não teria caído, e o jogo de cartas poderia não ter acontecido. E, se a visão da neve não tivesse feito com que os lacaios deixassem fogo tão alto, talvez você não tivesse terminado no terraço nos braços da aniversariante enquanto um jovem hussardo devolvia jantar ao pasto de onde ele viera (p. 155).

Nada mais acertado para descrever a alma da obra que o olho em destaque na quarta capa do livro: “Se um homem não dominar suas circunstâncias, ele é dominado por elas”.

Marcos Pena Júnior é economista e escritor, mantém suas produções disponíveis em marcospenajr.com.

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Ler, Pensar e Escrever | Marcos Pena Jr

Ler, Pensar e Escrever | Marcos Pena Jr

Marcos Pena Júnior é natural de Caruaru, Pernambuco. Afirma que se entende como uma grande e histórica mistura de índios, negros, mamelucos, mestiços, brancos, “portugueses da Holanda”, caboclos e mulatos, como escreveu em seu poema “Quantos rios nascem no Sertão e desembocam no Mar?”. No final da adolescência rumou para Natal, no Rio Grande do Norte, onde aos dezessete anos iniciou graduação em ciências econômicas e começou a trabalhar. Também aí cursou MBA e mestrado em engenharia de produção. Também na capital potiguar, casou e teve filhas. Na virada dos anos 2000 para os 2010 mudou para Brasília, Distrito Federal. Atualmente vive na capital do País. Desde a adolescência tem interesse especial por literatura, escrevendo poemas desde muito cedo. Atualmente dedica-se a escrever, além dos poemas, artigos de opinião, resenhas, críticas, artigos técnico-científicos, além de achar um tempinho para fotografia … ver e sentir o mundo, no fim das contas, é o que o atrai.

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